TOP - Ano 2017 - Volume 7 - Número 1

Infecção congênita pelo Zika Vírus: Avaliação e acompanhamento de lactentes

Congenital Infection by Zika Virus: Assessing and monitoring infants
Infección Congénita por Zika Virus: evaluación y acompañamiento de lactantes


Apresentação: Camila Gomes2, Déborah Tenório2, Isis de Castro1, Larissa Beatriz do Carmo Moreira1


As recomendações a seguir foram elaboradas por meio do consenso de especialistas da Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC-EUA) para o diagnóstico e seguimento da infecção congênita pelo Zika vírus com base em evidências disponíveis, sendo abordadas cinco grandes questões:

1. A infecção pelo Zika vírus.

2. Atualizações sobre investigação laboratorial e avaliação de neonatos com provável infecção por congênita por Zika.

3. Seguimento de pacientes com evidência laboratorial de infecção por Zika e anormalidades compatíveis com a Síndrome Congênita de Zika.

4. Seguimento de pacientes com evidência laboratorial de infecção por Zika e sem anormalidades compatíveis com a Síndrome Congênita de Zika ao nascer.


A infecção pelo Zika vírus

Em agosto de 2016, o CDC divulgou uma revisão para orientar os profissionais de serviços de saúde sobre o manejo de lactentes com provável infecção congênita pelo Zika vírus. Isto é, crianças cujas mães tiveram infecção comprovada na gestação ou lactentes que apresentaram alterações clínicas e/ou de neuroimagem sugestivas associadas à história epidemiológica materna condizente.

A apresentação clínica da Síndrome Congênita por Zika (SCZ) é bastante variada, englobando principalmente alterações cerebrais e oftalmológicas. O vírus parece afetar as células progenitoras neurais, causando morte celular e alterando a proliferação, migração e diferenciação celular, o que retarda ou interrompe o crescimento cerebral e afeta sua viabilidade como distúrbios da migração neuronal e alterações no nervo óptico. Podem ser encontrados convulsões, alteração do tônus, hiperreflexia, espasticidade, irritabilidade, microcefalia, desproporção craniofacial, excesso de dobras de pele no escalpo, alterações visuais e auditivas, além de outras alterações como pé torto congênito e artrogripose.

Atualizações sobre investigação laboratorial e avaliação de neonatos com provável infecção por congênita por Zika

Em casos de suspeita de infecção pelo Zika, a confirmação se dá pela avaliação laboratorial por meio da detecção do RNA por reação de transcriptase reversa do vírus Zika (RT-PCR) e/ou sorologia IgM por ELISA.

O diagnóstico de infecção congênita no neonato é confirmado por meio de RT-PCR positivo para Zika em amostra de plasma, urina ou líquor. O diagnóstico será provável se houver IgM positivo em soro ou líquor e RT-PCR negativo. Em relação à sorologia, é possível realizar o teste de neutralização por redução de placas (PRNT) para confirmar a especificidade dos anticorpos IgM contra o Zika vírus e descartar um resultado IgM falso positivo para outros arbovírus.

O PRNT está indicado quando o exame inicial da criança é IgM positivo e o teste não foi realizado em amostra materna. No entanto, como o PRNT não distingue entre infecção materna ou infantil, é necessária confirmação na criança após 18 meses de vida. Se IgM e PCR são negativas na criança e na ausência de outras infecções, persistindo a dúvida, o PRNT deverá ser realizado. Caso ele seja negativo, trata-se de infecção presumida, podendo ser pré ou pós-natal.

O atendimento dos recém-nascidos expostos, mesmo que assintomáticos, deve ser sistematizado e com suporte à família. Os portadores de alterações clínicas consistentes com a SCZ e com evidência laboratorial de infecção devem ser submetidos à avaliação oftalmológica, auditiva, laboratorial (hemograma, painel metabólico que inclua função hepática) e de exames de neuroimagem. É importante afastar outras causas de microcefalia e calcificações intracranianas, incluindo síndromes genéticas e outras infecções sistêmicas.

No nascimento, essas crianças devem ter um exame físico minucioso com avaliações do perímetro cefálico, do peso, do comprimento e da idade gestacional, atentando para a presença de alterações neurológicas ou de dismorfismos. Recomenda-se a realização de ultrassonografia transfontanela (USTF), mesmo que ultrassonografias pré-natais não tenham evidenciado nenhuma alteração e avaliação auditiva por meio do BERA (Brainstem Evoked Response Audiometry), antes da alta, e avaliação oftalmológica ainda no primeiro mês de vida.

Seguimento de pacientes com evidência laboratorial de infecção por Zika e anormalidades compatíveis com a Síndrome Congênita de Zika

O acompanhamento das crianças com a SCZ deve ser realizado por equipe multidisciplinar e o aconselhamento iniciado durante a gestação. As famílias devem receber apoio psicológico e orientações sobre o desenvolvimento, alimentação, crescimento e prognóstico da criança.

É de extrema importância o encaminhamento do paciente aos especialistas, tais como: neurologista (na presença de qualquer anormalidade); oftalmologista (durante o primeiro mês de vida, contudo, a análise da acuidade e de alterações visuais devem ser realizadas em todas as visitas ao pediatra), otorrino (a avaliação auditiva é feita por meio do BERA antes do primeiro mês de vida e, sendo normal, repetir o teste entre o quarto e o sexto mês).

Crianças com desenvolvimento anormal do cérebro estão sob risco de desenvolver disfunção hipotalâmica e deve ser realizado rastreamento da função tireoidiana na 2ª semana de vida e no 3º mês.

Seguimento de pacientes com evidência laboratorial de infecção por Zika sem anormalidades compatíveis com a Síndrome Congênita de Zika ao nascer

Crianças, mesmo sem alterações precoces, devem ser acompanhadas, pois há risco de evoluírem com sequelas tardias como convulsões, perda auditiva e visual.

Diante das implicações da SCZ e, apesar da limitação de acesso aos serviços de saúde, é importante preconizar o seguimento por equipe especializada e multidisciplinar como: fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos, neurologistas, oftalmologistas e pediatras, objetivando o entendimento, a participação dos familiares e a estimulação.

Link para: Update: Interim Guidance for the Evaluation and Management of Infants with Possible Congenital Zika Virus Infection - United States, August 2016


Russel K, Oliver SE, Lewis L, Barfield WD, Cragan J, Delman-Meaney D, et al. Update: Interim Guidance for the Evaluation and Management of Infants with Possible Congenital Zika Virus Infection - United States, August 2016. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2016;65(33):870-878.










1. R2 do Serviço de Pediatria do HFSE
2. R1 do Serviço de Pediatria do HFSE

Gil Simões Batista
Chefe do Setor de Pediatria Geral do Hosptial dos Servidores do Estado (HSE)
Rio de Janeiro, RJ, Brasil