Artigo de Revisao - Ano 2018 - Volume 8 - Supl.1

Distúrbios do sono na infância

Sleep disorders in childhood
Distúrbios do sono na infância

RESUMO

OBJETIVO: este artigo tem como objetivo descrever os principais distúrbios do sono na faixa etária pediátrica, assim como os critérios diagnósticos e manejo para o pediatra.
MÉTODOS: foi realizada revisão não sistemática da literatura atual sobre o tema, baseando-se na classificação internacional mais recente.
RESULTADOS: os distúrbios do sono são comuns na faixa etária pediátrica, podendo se associar a uma série de consequências comportamentais, sociais e cognitivas diurnas. A anamnese dirigida para o sono é essencial para a suspeição e, muitas vezes, suficiente para o diagnóstico. O manejo depende tanto do diagnóstico quanto da gravidade dos sintomas.
CONCLUSÃO: o pediatra tem papel fundamental na detecção dos distúrbios do sono. O conhecimento das patologias é essencial para o diagnóstico e manejo precoces.

Palavras-chave: Sono, Transtornos do Sono, Criança.

ABSTRACT

OBJECTIVE: the aim of this article is to describe the main sleep disturbances in the paediatric age group, as well as the diagnostic criteria and management for the paediatrician.
METHODS: a non-systematic review of the current literature was made, based on the most recent international classification.
RESULTS: sleep disturbances are common in the paediatric age group, and can lead to a series of behavioural, social, and cognitive diurnal consequences. A sleep-directed interview is essential for suspicion and, frequently, sufficient for the diagnosis. The management is dependent on the diagnosis, as well as the severity of symptoms.
CONCLUSION: the paediatrician plays an important role in the detection of sleep disturbances. Awareness of such conditions is essential for diagnosis and early management.

Keywords: Sleep, Sleep Disorders, Child.


INTRODUÇÃO

O sono exerce um papel fundamental no crescimento e desenvolvimento infantil, com a ocorrência de padrões de sono podendo ser observada em fetos ao redor de 26 semanas1. Durante o primeiro ano de vida ocorrem mudanças marcantes nas características do sono, e sua maturação segue ocorrendo no decorrer da infância2. Assim, enquanto um recém-nascido apresenta um padrão ultradiano de sono, com despertares mais associados à fome e ao desconforto do que ao momento do dia, o lactente de 1 ano de vida já apresenta um ciclo circadiano bem estabelecido3.

A duração do sono nas 24 horas, que varia entre 14 e 17 horas no recém-nascido, reduz-se para 11 a 14 horas entre o primeiro e o segundo ano de vida, posteriormente reduzindo-se para 10-13, 9-11 e 8-10 entre crianças pré-escolares, escolares e adolescentes, respectivamente4. Nos primeiros anos de vida, a redução do tempo total de sono se dá, sobretudo, pela redução dos períodos diurnos de sono. Assim, enquanto um lactente de 1 mês tem cerca da metade do seu período de sono distribuído durante o dia, aos 12 meses ocorrem 1 a 2 episódios de sono diurno, com duração ao redor de 1,5 horas. Até os 5 anos, a necessidade de sono diurno deve ter desaparecido, sendo a soneca matinal a primeira a desaparecer5.

Como consequência do estabelecimento do ritmo circadiano, o número de despertares noturnos reduz-se gradativamente no decorrer do primeiro ano de vida. Assim, enquanto uma lactente de 1 mês desperta entre 2 a 3 vezes por noite, um lactente de 12 meses não costuma acordar mais que 2 vezes6. Todavia, despertares breves que seguem o ciclo de sono (90 a 120 minutos) seguem ocorrendo, nos quais a criança normalmente volta a dormir sem intervenção externa7.

Os distúrbios do sono são prevalentes na faixa etária pediátrica8. Estima-se que entre 20% e 30% das crianças apresentem, até a adolescência, alguma alteração do sono, sendo essa prevalência ainda mais elevada entre crianças com comorbidades neuropsiquiátricas9. Por outro lado, distúrbios do sono também podem, por si só, elevar o risco do surgimento de uma série de alterações metabólico-comportamentais, podendo levar a déficits atencionais, distúrbios do humor, aumento de peso, e mesmo alterações do neurodesenvolvimento10,11.

O médico pediatra tem papel fundamental na orientação sobre hábitos de sono, assim como no reconhecimento, suspeição e manejo dos possíveis distúrbios. Este artigo tem como objetivo descrever os principais diagnósticos de distúrbios do sono da criança, com ênfase nas alterações mais prevalentes, e citar as medidas de manejo conforme o diagnóstico.


DISTÚRBIOS DO SONO

A mais recente edição da Classificação Internacional dos Distúrbios do Sono (International Classification of Sleep Disorders - ICSD-3), divide os distúrbios do sono em 7 categorias principais, conforme descrito no Quadro 112.




Insônia

A insônia é o distúrbio do sono mais prevalente na faixa etária pediátrica, acometendo até 30% das crianças7. A ICSD-3 define insônia como uma dificuldade de início ou manutenção do sono, despertar mais cedo que o desejado, resistência para o início do sono, ou dificuldade em iniciar o sono sem a intervenção dos pais ou cuidadores em um ambiente propício para o início do sono (sem televisores, smartphones ou tablets sendo utilizados no horário de dormir)13. Para o diagnóstico, é necessário haver consequências diurnas da dificuldade descrita, sob a forma de sonolência ou fadiga, alterações do desempenho escolar ou ocupacional, da capacidade intelectual, alterações do humor ou do comportamento. Essas consequências podem ser descritas tanto para a criança quanto para o cuidador principal. A insônia é definida como crônica caso esteja presente ao menos 3 dias por semana durante, no mínimo, 3 meses9,13.

As causas mais prevalentes de insônia variam conforme as faixas etárias, e estão descritas no Quadro 2.




Enquanto no lactente o refluxo, ingestão excessiva de líquidos e associações inadequadas para o início do sono configuram entre as principais causas, entre adolescentes são importantes o atraso fisiológico da fase de sono, comorbidades psiquiátricas e pressão familiar7.

O distúrbio de associação de início do sono, um dos tipos de insônia comportamental, é um dos distúrbios mais prevalentes entre lactentes e pré-escolares. Nele, a criança necessita, para adormecer, que determinadas condições externas estejam presentes. Via de regra, ocorre a necessidade de intervenção dos pais ou cuidadores, como embalar ou amamentar a criança. Dessa forma, ao final de cada ciclo de sono, quando ocorre um despertar fisiológico, há a necessidade da repetição da intervenção para que o sono seja retomado. Na ausência do fator associado, ocorre prejuízo do sono tanto da criança quanto do cuidador.

Distúrbios respiratórios relacionados ao sono

Essa classificação inclui patologias que cursam com anormalidades da respiração e ventilação durante o sono que, na última edição do ISCD, compreende a apneia obstrutiva do sono (SAOS), síndromes de apneia central, hipoventilação e hipoxemia relacionadas ao sono13. Desses, a mais prevalente e relevante para pacientes pediátricos é a SAOS.

A apneia obstrutiva do sono caracteriza-se por uma obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores, levando a aumento do esforço respiratório, hipóxia e hipercapnia14. Acomete entre 1% a 5% da população pediátrica, com pico de prevalência entre 2 e 8 anos, e tem como principal causa a hipertrofia adenoamigdaliana15-17. Fatores de risco são: sexo masculino, raça negra, história familiar de SAOS, prematuridade, obesidade, rinite alérgica, asma, presença de patologias neurológicas, tais como síndrome de Down, Prader-Willi, malformação de Chiari, paralisia cerebral, além de micrognatia e doenças neuromusculares14,18. A apresentação clínica é variável, e pode incluir respiração difícil ao menos 3 noites por semana (na ausência de patologia aguda de vias aéreas superiores), enurese noturna secundária, hiperextensão cervical durante o sono, cefaleia matinal, sonolência diurna ou sensação do sono não reparador, sintomas de desatenção e/ou hiperatividade, e dificuldades de aprendizagem18. Além disso, em longo prazo associa-se a problemas estaturais, hipertensão arterial sistêmica e mesmo hipertrofia ventricular direita16,17. Os critérios diagnósticos incluem ronco habitual, esforço/obstrução respiratória ou sintomas diurnos relacionados a fragmentação do sono (sonolência excessiva, hiperatividade), e achados específicos à polissonografia (um ou mais eventos obstrutivos por hora de sono ou PCO2 acima de 50 mmHg durante mais de 25% do tempo de sono, associado a roncos, movimentos toracoabdominais paradoxais ou redução da amplitude da onda de pressão de fluxo nasal)13.

Classifica-se como leve um quadro de SAOS com índice de apneia-hipopneia maior que 1 e menor ou igual a 5 por hora; moderado quando maior que 5 e menor ou igual a 10, e grave quando acima de 10 eventos por hora14.

Hipersonias de origem central

As hipersonias de origem central são classificadas como narcolepsia tipo 1 (anteriormente denominada “com cataplexia”), narcolepsia tipo 2 (anteriormente denominada “sem cataplexia”), hipersonia idiopática, síndrome de Kleine-Levin, hipersonia secundária a patologia médica, secundária a medicação ou substância, hipersonia associada a patologia psiquiátrica e síndrome de sono insuficiente13. O ponto em comum entre essas patologias é, segundo o ICSD-3, episódios diários de necessidade irreprimível de dormir ou lapsos diários de sono13.

A narcolepsia é uma das causas mais comuns de sonolência excessiva diurna, acometendo cerca de 1 a cada 2.000 indivíduos, e com pico de incidência na segunda década de vida19. Apesar disso, o período desde o início dos sintomas até o estabelecimento diagnóstico costuma ser longo, em média de até 15 anos, sobretudo devido à falta de conhecimento no meio médico sobre o diagnóstico9,20. Além disso, os sintomas de narcolepsia são comumente confundidos com outras patologias, levando a diagnósticos errôneos de SAOS, síndrome da fadiga crônica, patologias psiquiátricas (depressão, esquizofrenia), transtornos de conduta e de aprendizagem, e epilepsia21. Os sintomas clássicos são, além de sonolência diurna excessiva, a cataplexia (fenômeno de intrusão do sono REM consistindo em perda súbita de tônus muscular, sem perda de consciência, geralmente desencadeadas por fortes emoções, de alguns segundos a poucos minutos de duração) na narcolepsia tipo 1, paralisia do sono, ou alucinações no início ou final do sono (hipnagógicas ou hipnopômpicas)20.

A narcolepsia tipo 1 se caracteriza por níveis baixos de hipocretina-1 (neurotransmissor responsável por regular o ciclo sono-vigília, comportamentos alimentares e de recompensa, assim como atividades do sistema autonômico e neuroendocrinológico) no líquido cefalorraquidiano, devido a perda de neurônios hipotalâmicos responsáveis pela sua produção19,22. Os critérios diagnósticos incluem dois episódios de sono REM precoce, iniciando menos de 15 minutos após o adormecimento (SOREMP) no teste de latências múltiplas diurnas de sono (MSLT) ou um SOREMP na PSG mais um SOREMP no MSLT13. Para o diagnóstico de narcolepsia tipo 2, os mesmos critérios nos testes de latências múltiplas diurnas devem estar presentes. No entanto, a cataplexia está ausente e os níveis de hipocretina-1 no líquor estão acima do determinado para o diagnóstico de narcolepsia tipo 113. O diagnóstico exige realização de exame polissonográfico (PSG) seguido de teste de latências múltiplas diurnas de sono. Pacientes narcolépticos, especialmente os que debutam antes da puberdade, apresentam altos índices de obesidade e alterações endocrinológicas (tais como puberdade precoce), assim como SAOS e enxaqueca, e comorbidades psiquiátricas como depressão, ansiedade e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade23.

Distúrbios do ritmo circadiano de sono e vigília

Os distúrbios do ritmo circadiano de sono e vigília incluem, dentre outros diagnósticos, o atraso e avanço de fase, e o jet-lag (geralmente transitório, causado por viagens nas quais ocorrem mudanças de fuso horário). Dentre esses, o mais comumente observado na população pediátrica, mais precisamente na adolescência (podendo acometer até 16% da população nessa faixa etária), é o atraso de fase24. Caracteriza-se por um atraso no momento do início do sono, geralmente de mais de 2 horas, em relação ao desejado pelo indivíduo e esperado para que cumpra seus compromissos sociais25. Consequentemente, o adolescente apresenta dificuldade em se levantar pela manhã, sonolência diurna, podendo haver também prejuízos ao rendimento escolar. Vários fatores podem estar envolvidos na sua fisiopatogenia, desde a pressão social (exacerbado pelo acesso a mídias eletrônicas no momento do sono), questões do desenvolvimento homeostático e circadiano associados a puberdade, podendo ser avaliados por meio da anamnese ou por métodos objetivos, como a actigrafia26-28.

Parassonias

Parassonias são mais comuns na infância, e representam uma dissociação entre a vigília e o sono REM ou não REM, com superposição de características de um estado sobre o outro, que se traduzem em fenômenos comportamentais indesejáveis29,30. Um estudo longitudinal, incluindo aproximadamente 1.500 indivíduos dos 2,5 aos 6 anos de idade, conduzido no Canadá, encontrou que quase 90% dos participantes apresentou ao menos uma parassonia no período de estudo31. As parassonias são classificadas como do sono NREM (dentre os quais os mais comuns na infância são o despertar confusional, o sonambulismo e o terror noturno), do sono REM (como os pesadelos) e outras parassonias, dentre as quais encontra-se a enurese noturna13.

Os despertares confusionais são mais frequentes entre lactentes, pré-escolares e escolares, e caracterizam-se por despertar parcial a partir do sono de ondas lentas profundo, nas primeiras 2 a 3 horas de sono, nos quais a criança costuma sentar-se na cama e, apesar de arresponsiva, apresenta face de medo, gritos e agitação motora. A duração dos episódios é variável (em média de 15 minutos, mas podendo durar horas), após os quais a criança volta a dormir, e desperta no dia seguinte sem lembrança do ocorrido29,32.

Os terrores noturnos também ocorrem no primeiro terço da noite, geralmente na faixa etária de 3 a 10 anos29. Nesses, a criança apresenta agitação extrema, aparenta estar confusa ou assustada, geralmente acompanhando choro ou grito, além de ativação autonômica sob a forma de sudorese, taquicardia, taquipneia e midríase, podendo a criança levantar-se da cama e correr sem direção9. Os episódios são curtos, durando poucos minutos, sem haver, como nos despertares confusionais, lembrança do ocorrido32. O terror noturno faz parte do mesmo espectro do sonambulismo e, em função disso, crianças com história de terror noturno têm duas vezes mais chances de desenvolver sonambulismo9. Este se caracteriza por deambulação e comportamento estereotipado, podendo, eventualmente, associar-se a acidentes, como quedas33.

Os pesadelos, por outro lado, costumam ocorrer na segunda metade da noite, momento em que predomina o sono REM34. Tratam-se de sonhos associados a emoções negativas levando ao despertar, com lembrança do mesmo, sendo mais prevalentes entre os 5 e 10 anos de idade35. Apesar de ocorrer de maneira esporádica entre a maior parte dos escolares, em casos recorrentes e com significado clínico associa-se fortemente a quadros psicopatológicos, sobretudo com o transtorno de estresse pós-traumático, assim como a quadros depressivos e de abuso de substâncias36,37.

A enurese noturna primária é definida como persistência de perda urinária durante o sono após os 5 anos de idade, sem a presença de um intervalo de ao menos 6 meses de continência noturna29. A prevalência é entre 5% e 10% das crianças aos 7 anos, e predomina no sexo masculino38. Sua ocorrência apresenta uma forte predisposição genética, tal que, na presença de ambos os pais com história de enurese, 75% da sua prole sofrerá com o distúrbio e, no caso de um dos pais, metade da prole39. Diferencia-se da enurese noturna secundária, na qual após um período de continência noturna de 6 meses ou mais, ocorre o retorno da sintomatologia, podendo estar associada a distúrbios respiratórios do sono, diabetes e epilepsia. Na investigação, é importante incluir exame comum de urina e, quando necessário, urocultura29.

Distúrbios do movimento relacionados ao sono

Trata-se de movimentos simples, com frequência estereotipada, que ocorrem durante o sono13.

A síndrome das pernas inquietas (SPI) afeta 2% a 4% das crianças escolares e adolescentes, e pode influenciar não somente a qualidade do sono, mas também o humor e a qualidade de vida dos afetados40. Caracteriza-se por uma necessidade de movimentar as pernas, geralmente acompanhada de desconforto, desencadeada ou exacerbada pelo repouso, ocorrendo à noite, e que alivia parcial ou completamente com o movimento; impactando a vitalidade, comportamento ou humor diurnos40. O distúrbio do movimento periódico dos membros (DMPM) é um transtorno relacionado à síndrome das pernas inquietas, podendo uma criança com diagnóstico de DMPM evoluir para SPI com o passar do tempo. O diagnóstico de DMPM exige a presença de sintomas clínicos de insônia ou dificuldade em manter o sono, ou sonolência diurna excessiva, associados a documentação polissonográfica de mais de 5 movimentos periódicos dos membros por hora de sono, que não podem ser explicados por outra patologia (como SAOS) ou efeito medicamentoso (como antidepressivo)40.

Crianças com síndrome das pernas inquietas ou com distúrbio do movimento periódico dos membros apresentam, com frequência, baixos níveis de ferro e, em função disso, é importante a solicitação de hemograma, ferro sérico e ferritina41. Além disso, a síndrome das pernas inquietas pode estar presente em até 44% das crianças com transtorno do déficit de atenção/hiperatividade (TDAH)42.

Outro distúrbio do movimento do sono comum é o bruxismo, podendo acometer até cerca de 40% das crianças, cursando com atividade repetitiva do músculo maxilar, involuntária, caracterizada por “apertar” ou ranger dos dentes29,43. Pode estar associado a fatores locais, como patologias da articulação temporomandibular e más-oclusões, mas também a fatores extrínsecos, como ansiedade, estresse e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)32.

A mioclonia benigna do sono da infância pode ter início desde o período neonatal, podendo estender-se durante o primeiro semestre de vida. O lactente apresenta movimentos mioclônicos em clusters durante o sono, podendo acometer os quatro membros, geralmente no início do sono, em qualquer fase do sono (apesar de menos frequentemente no sono ativo), e resolvendo com o despertar44. O principal diagnóstico diferencial é com a mioclonia de origem epiléptica. Nesse caso, a anamnese, buscando a presença de eventos também na vigília, ou possíveis alterações do desenvolvimento neuropsicomotor, devem levar à exclusão de epilepsia por meio da realização de exame de eletroencefalografia45.

Movimentos rítmicos ao adormecer são fisiológicos nos primeiros anos de vida, geralmente resolvidos entre 3 e 4 anos de idade, e mais prevalentes entre meninos. Podem ocorrer não somente no adormecimento, mas também durante o sono NREM e REM. Os tipos mais comuns são movimentos laterais com a cabeça (de um lado para o outro), batidas com a cabeça e movimentos de balanceio com o corpo. Deve ser diferenciado de movimentos rítmicos ocorrendo na vigília, como visto em crianças dentro do espectro do autismo ou com atraso cognitivo. Não costuma haver lembrança do episódio ao despertar, e somente são diagnosticados como um distúrbio quando existem consequências significativas associadas aos eventos, como a ocorrência de acidentes29.


TRATAMENTO DOS DISTÚRBIOS DO SONO

O Quadro 3 resume as estratégias terapêuticas conforme o diagnóstico de distúrbio do sono. Para doses e efeitos secundários das medicações, sugere-se buscar literatura pertinente.




O manejo dos distúrbios do sono varia conforme a etiologia e, por vezes, o grau de comprometimento clínico da criança. Alguns diagnósticos, como as mioclonias benignas e os movimentos rítmicos ao adormecer, não necessitam de tratamento específico, pois tendem a cessar com o crescimento e o desenvolvimento.

No caso do bruxismo, nenhum tratamento se mostrou efetivo até o momento e, na maioria dos casos, pode ser considerado uma parafunção oral a ser monitorizada43. Recomenda-se eliminar possíveis comorbidades associadas, tais como alergias, apneia do sono e fatores estressantes, e abrir mão de outras estratégias em casos selecionados.

Para o manejo da SAOS, não somente o índice resultante da polissonografia deve ser levado em consideração, mas também o grau de sintomatologia diurna e morbidades14. A indicação de adenoamigdalectomia deve ser individualizada, devendo ser considerada como primeira linha para crianças com quadros de SAOS moderados a graves associados à hipertrofia adenoamigdaliana que não possuam contraindicações à cirurgia (adenoides e amígdalas de volume muito pequeno, obesidade mórbida associada a adenoides e amígdalas pequenas, coagulopatias refratárias ao tratamento e presença de fenda palatina submucosa). Mesmo entre crianças sem uma evidente hipertrofia adenoamigdaliana ao exame físico, porém que apresentam quadro de SAOS, o procedimento pode ser considerado, já que o tecido linfoide pode ocupar uma proporção significativa da via aérea superior além da observada. Além disso, mesmo que as taxas de insucesso sejam superiores às de crianças eutróficas, a obesidade não deve ser, por si só, um fator que contraindique o procedimento, tendo em vista que usualmente ocorre algum grau de melhora clínica16.

No manejo da narcolepsia, a terapia medicamentosa é sempre utilizada, com vistas à redução da sintomatologia diurna.

No tratamento da enurese noturna primária, além de medidas comportamentais, como evitar ingesta hídrica 2 a 3 horas antes de dormir e esvaziamento vesical antes do horário de dormir, preconiza-se medidas de reforço positivo, seja com cartazes ou calendários confeccionados em conjunto pela criança e os pais, determinando medidas de recompensa conforme atingidos objetivos de noites sem enurese. Um dispositivo considerado como primeira linha no manejo é o alarme que, com sensibilidade para detecção de eliminação de pequena quantidade de urina, desperta a criança para evitar perda involuntária de grandes volumes urinários46.

Um denominador comum no manejo dos distúrbios do sono são as estratégias comportamentais e rotinas de higiene do sono. Elas podem ser suficientes em uma série de diagnósticos e, mesmo naqueles em que outros tipos de abordagens são preconizados, atuam como adjuvantes. O pediatra deve estar familiarizado com essas técnicas para orientação e supervisão das famílias. Medidas de higiene do sono devem incluir um horário regular de início de sono conforme a faixa etária, a restrição de alimentos estimulantes, como refrigerantes, chás e chocolate, especialmente à noite. Rotinas positivas, que consistem em atividades tranquilas e prazerosas antes do horário de dormir (leitura, música tranquila), devem ser amplamente adotadas47.

O local de início do sono deve ser a própria cama, sem necessidade de intervenção dos pais, de forma a evitar associações para o início do sono. Nas crianças com insônia relacionada a associações inadequadas, as técnicas de extinção e checagem mínima com extinção sistemática podem ser colocadas em prática7. Dentre as abordagens, a de extinção gradativa consiste em ignorar as demandas noturnas (choro, chamar os pais) por períodos de tempo gradativamente maiores, iniciando com curtos períodos de 1 minuto ou menos, conforme tolerância e julgamento dos pais. A checagem mínima com extinção sistemática consiste em aplicar a técnica de extinção, mas com a possibilidade de checar as condições da criança periodicamente (até a cada 5-10 minutos) e, quando necessário, confortá-la rapidamente47. Para ambas as técnicas é necessário assegurar-se da segurança do ambiente no momento em que a criança é colocada para dormir7.

Para crianças que costumam despertar durante a noite, a técnica de despertar programado pode ser utilizada. Consiste em acordar a criança ao redor de 15 minutos antes do horário de despertar espontâneo, e espaçar os episódios gradativamente47. O despertar programado também pode ser usado nos casos de enurese noturna, antes do horário habitual de ocorrência da enurese32.

As mídias eletrônicas também devem ser evitadas ao menos 1 hora antes de dormir, o sono deve se iniciar na cama (e não em outros locais, por exemplo, no sofá da sala para depois a criança ser transferida para a cama), o quarto deve ter a temperatura adequada e sem luminosidade para iniciar o sono7.

O remodelamento do sono de crianças na faixa etária em que ainda se espera um período de sono diurno permite que o sono noturno não seja prejudicado pelas sonecas diurnas. Consiste em organizar os cochilos para que ocorram 4 horas antes do horário do sono noturno entre crianças que realizam duas sonecas por dia, e 6 horas antes para as que realizam uma47.

No manejo do atraso de fase, uma estratégia é atrasar o horário de ir para cama para garantir que, quando deitada, a criança ou o adolescente adormeça rapidamente. Quando o hábito de adormecer rapidamente estiver consolidado, inicia-se a antecipação do horário de dormir em 15 a 30 minutos em noites sucessivas, até atingir o horário adequado47.


CONCLUSÃO

Os distúrbios do sono são heterogêneos em relação a seus fatores causais, apresentação clínica e morbidade, tornando o conhecimento de aspectos fisiológicos do sono e dos distúrbios mais prevalentes imprescindível para a orientação e manejo adequados da família.

Apesar do exame de polissonografia noturna ser considerada o padrão-ouro no diagnóstico dos distúrbios do sono, o médico pediatra exerce um papel fundamental no processo diagnóstico, por meio da suspeição clínica e, quando necessário, encaminhamento para avaliação especializada. Para tanto, uma anamnese que inclua perguntas sobre a rotina e detalhes referentes ao ambiente familiar relacionados ao sono da criança, além de um exame clínico detalhado, devem fazer parte da anamnese de rotina do médico pediatra.


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1. Mestre em Medicina – Área de Concentração Neurociências – Neurologista Pediátrica – Hospital Criança Conceição, Grupo Hospitalar Conceição Programa da Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde, Área de Concentração em Neurociências, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
2. Professora Titular de Neurologia da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) – Vice-Diretora do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência:
Magda Lahorgue Nunes
INSCER - INSTITUTO DO CÉREBRO DO RIO GRANDE DO SUL - PUCRS
Avenida Ipiranga, 6690, prédio 63, Jardim Botânico
CEP 90610.000 - Porto Alegre, RS, Brasil
E-mail: mlnunes@pucrs.br

Data de Submissão: 22/11/2017
Data de Aprovação: 30/07/2018