Artigo Original - Ano 2019 - Volume 9 - Número 1

Análise do perfil clínico e demográfico da enfermaria pediátrica de um Hospital Universitário

Clinical and demographic profile of the pediatric ward in a University Hospital
Análise do perfil clínico e demográfico da enfermaria pediátrica de um Hospital Universitário

RESUMO

OBJETIVOS: Avaliar o perfil clínico e demográfico das crianças internadas na enfermaria de pediatria de um hospital universitário no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2015.
MÉTODOS: Realizado estudo retrospectivo, qualitativo, no banco de dados do hospital universitário, a partir de prontuários de pacientes internados no período. Como variáveis de estudo foram utilizados: idade; sexo; cidade de origem; doenças preexistentes; motivo da internação atual; tempo de internação; número de internações prévias; e desfecho da internação. As informações foram submetidas a uma análise descritiva, mediada por tabelas de frequência absoluta e relativa.
RESULTADOS: Foram analisadas 746 internações de 509 pacientes. A média de idade foi de 5 anos e 8 meses, 57,6% eram do sexo masculino, e o tempo médio de internação foi de 5,68 dias. A maior parte das internações (86,5%) deveu-se a intercorrências clínicas, que tiveram tempo de internação mais longo (6,17 dias) em relação ao constatado nos pacientes cirúrgicos (2,54 dias), em média. A maioria (82,91%) dos pacientes internou apenas uma vez. Cerca de 42% possuíam pelo menos uma doença preexistente. Pacientes com mais de uma internação apresentaram histórico maior de doenças prévias em relação àqueles que tiveram uma internação (87,35% versus 37,21%).
CONCLUSÃO: O perfil das internações na enfermaria de pediatria estudada é composto predominantemente de crianças jovens, com patologias clínicas e de boa evolução. Esse perfil varia com a complexidade dos serviços e as especialidades oferecidas e deveria ser conhecido por cada instituição, para oferecer a melhor assistência e ensino possíveis.

Palavras-chave: Pediatria, Perfil de Saúde, Saúde da Criança, Hospitalização, Unidades de Internação.

ABSTRACT

Objective: To evaluate the clinical and demographic profile of children hospitalized in the pediatric ward of a university hospital, from January 2014 to December 2015.
Methods: A retrospective, qualitative study was carried out in the database of the university hospital, based on medical records of hospitalized patients. Age; gender; pre-existing diseases, current diagnosis, time of hospitalization, number of previous hospitalizations, and outcomes were the study variables. A descriptive analysis was performed, with tables of absolute and relative frequency.
Results: A total of 746 hospitalizations of 509 patients were analyzed. The mean age was 5 years and 8 months, 57.6% were male, and the mean time of hospitalization was 5.68 days. Most hospitalizations (86.5%) were due to clinical diagnosis, which resulted in a larger hospitalization period (6,17 days) compared to surgical cases (2,54 days). Most of patients (82.91%) were hospitalized only once. About 42% had at least one pre-existing disease. Patients with more than one hospitalization were more likely to have previous diseases than those hospitalized only once (87.35% versus 37.21%).
Conclusion: The cohort of patients hospitalized in the pediatric ward studied is predominantly composed of young children, with clinical diagnosis and good results. This profile varies with the complexity of the services and the specialties offered, and it should be known by each institution, in order to offer the best assistance and teaching.

Keywords: Pediatrics, Health Profile, Child Health, Hospitalization, Inpatient Care Units.


INTRODUÇÃO

O conhecimento acerca das hospitalizações na infância é de grande importância em termos de saúde pública, políticas e educação em saúde, uma vez que nessa faixa etária existe maior vulnerabilidade a determinadas doenças, que podem interferir no crescimento e desenvolvimento dessa população1. A avaliação das condições de vida e de saúde dessa população é essencial para o planejamento das ações de saúde, desde o nível da atenção primária, e também para a definição de objetivos de aprendizado para programas de graduação e pós-graduação da área de saúde1.

No Brasil, bem como em outros países em desenvolvimento, a assistência hospitalar pediátrica, até há poucos anos, era voltada para o tratamento de doenças agudas, especialmente de origem infecciosa2. Entretanto, essa situação se alterou nos últimos anos, na medida em que a necessidade de internação hospitalar por patologias infecciosas se tornou menos frequente devido às melhores condições de vida e ao maior acesso da população aos recursos de saúde1,2. Além disso, com mudanças da dinâmica social e a incorporação de tecnologias que propiciam maior sobrevida, aumentou a demanda para atenção aos portadores de doenças crônicas2.

A caracterização dos pacientes internados em uma enfermaria de pediatria pode trazer diversas informações úteis na determinação dos riscos inerentes às distintas faixas etárias, ajudando a elaborar programas específicos de saúde para cada uma delas3. Adicionalmente, as informações coletadas podem apontar para uma dada prevalência de condições clínicas que poderiam sofrer intervenção na Atenção Primária, de forma que a melhoria dos serviços oferecidos nesse nível de atenção poderia diminuir as chances de internação4,5. Além disso, apesar das mudanças observadas no padrão de morbimortalidade na infância e adolescência estarem bem descritas, poucos estudos trazem o perfil clínico e demográfico das internações pediátricas em nosso meio2. Essas pesquisas seriam importantes para auxiliar na reorganização de serviços pediátricos, visando garantir estrutura, recursos e processos de trabalho adequados para o manejo, tratamento e acompanhamento dessa população4. Além disso, o conhecimento dessas condições pode auxiliar no desenvolvimento de medidas eficazes em evitar desfechos mais graves das enfermidades da infância6.

Dessa forma, esse estudo teve por objetivo avaliar o perfil clínico e demográfico das crianças internadas na Enfermaria de Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora, no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2015.


MATERIAIS E MÉTODOS

Realizado estudo retrospectivo, quantitativo, no banco de dados do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), localizado na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. O HU-UFJF é uma instituição pública administrada com recursos federais e do SUS, com uma área de abrangência de atendimento que engloba mais de 90 municípios da Zona da Mata Mineira e do estado do Rio de Janeiro.

Foram utilizadas informações obtidas de prontuários de pacientes internados na enfermaria de pediatria no período de janeiro de 2014 a dezembro de 2015. Todos os pacientes admitidos para internação hospitalar no período citado foram considerados elegíveis para o estudo. Foram excluídos os pacientes cujos prontuários não foram localizados por qualquer motivo ou cujos dados estavam incompletos e ilegíveis, impossibilitando a retirada de informações sobre o caso.

Como variáveis de estudo, foram utilizados os seguintes dados: idade; sexo; cidade de origem; doenças preexistentes (condições crônicas, malformações congênitas, doenças genéticas etc.); motivo da internação atual; tempo de internação; número de internações prévias; e desfecho da internação (alta, transferência ou óbito).

As informações obtidas foram organizadas em banco de dados eletrônico, no Microsoft Excell, Windows 2013, e submetidas a uma análise descritiva, mediada por tabelas de frequências absoluta e relativa. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HU-UFJF, sob CAAE nº 54706116.8.0000.5133.


RESULTADOS

Foram analisadas 746 internações de 509 pacientes internados durante o período do estudo, após exclusão de dados de 14 internações devido a informações incompletas em prontuário. A média de idade dos pacientes internados foi de 5 anos e 8 meses (variando entre 3 dias e 17 anos de vida), e 57,6% eram do sexo masculino. A maioria dos pacientes era proveniente de Juiz de Fora (64,08%) e outras cidades da Zona da Mata (33,91%).

Do total de 746 internações, 86,5% (n=645) deveram-se a intercorrências clínicas e 13,5% (n=101) para realização de procedimento cirúrgico. Para as internações clínicas, o tempo médio foi de 6,17 dias, variando de 1 a 96 dias. Já para as internações cirúrgicas, a média foi de 2,54 dias, variando entre 1 a 13 dias. O tempo médio de internação, em geral, foi de 5,68 dias, variando de 1 a 96 dias.

Do total de 509 pacientes, 82,91% internaram apenas uma vez e o restante (17,09%) apresentaram mais de uma internação (média: 3,72, variação: 2 a 24 internações) no período do estudo. Cerca de 42% (n=211) dos pacientes internados possuíam pelo menos uma doença preexistente prévia ao adoecimento que motivou a internação. A Tabela 1 lista os principais grupos de comorbidades e suas frequências nesses 211 pacientes. Pacientes com mais de uma internação apresentaram maior percentual de comorbidades prévias quando comparados com aqueles que internaram apenas uma vez (87,35% versus 37,21%, respectivamente).




A Tabela 2 traz os grupos de diagnósticos mais frequentes no total de internações analisadas. A grande maioria dos pacientes concluiu o tratamento e recebeu alta médica (95,31%). Não foram registrados óbitos no período de estudo, e os demais pacientes foram transferidos ou desistiram do tratamento (4,42% e 0,27%, respectivamente).




DISCUSSÃO

A partir dos resultados levantados pelo presente estudo, podemos observar um predomínio de crianças do sexo masculino (57,6%) internadas. Esse dado é encontrado também na grande maioria das fontes consultadas, que relataram uma taxa semelhante em hospitais das regiões Sul e Sudeste do Brasil1,3,5.

A média de idade das crianças internadas no nosso serviço foi de 5 anos e 8 meses. Esse dado chama a atenção para o predomínio de internações de crianças mais jovens, o que também é observado em diferentes estudos3,4. Costa e cols., em 2015, encontraram, em sua pesquisa no Hospital Geral de Nova Iguaçu, uma média de idade de 5,7 anos, a qual se assemelha a nossa7.

Quanto à cidade de origem dos pacientes, houve predomínio absoluto de pacientes provenientes de Juiz de Fora e do restante da Zona da Mata Mineira. Cabe ressaltar que Juiz de Fora é um centro populacional importante, com bons recursos médicos-assistenciais, oferecendo seus serviços não só a sua população, mas também a toda região.

Embora tenham predominado internações motivadas por condições clínicas, o percentual de internações cirúrgicas (13,5%) não foi desprezível. É importante destacar que o HU-UFJF é hospital de referência para realização de cirurgias nas especialidades de urologia e otorrinolaringologia em crianças, o que deve ser considerado ao analisar esses dados. Além disso, não dispomos de enfermarias distintas para casos clínicos e cirúrgicos como relatado no trabalho de Silva e cols., em 20164. O tempo médio de internação foi de 5,68 dias, resultado semelhante ao encontrado em literatura5. Os casos cirúrgicos, quando avaliados isoladamente, tiveram um tempo de internação bem menor que esperado devido ao predomínio de cirurgias de baixa complexidade.

Quanto aos diagnósticos que motivaram as internações, observamos um predomínio das causas gastrointestinais, indo de encontro à maioria dos estudos levantados para análise. Esses estudos apontam como principal causa de internações as doenças do aparelho respiratório1,3-5,8,9. As imunodeficiências também aparecem com frequência no diagnóstico das crianças internadas no HU-UFJF. Isso pode ser explicado pela presença, na unidade, de um ambulatório de imunodeficiências congênitas que vem se consolidando como referência regional, o que justifica a prevalência elevada desse diagnóstico dentre as causas de internação.

Das crianças avaliadas no período de estudo, 82,91% apresentaram uma única internação e 17,09% apresentaram mais internações (variação de 2 a 24). Duarte e cols., em 2012, também constataram em seu estudo uma alta frequência de reinternações que relacionou aos paciente acompanhados em ambulatórios especializados das unidades estudadas2. Vale ressaltar que os pacientes portadores de imunodeficiência acompanhados no ambulatório de nosso serviço internaram diversas vezes para tratamento com imunoglobulina humana intravenosa, o que, na época do levantamento de dados, ainda não era realizado em regime de hospital-dia.

Aproximadamente 42% dos pacientes internados no serviço de pediatria do HU-UFJF possuíam pelo menos uma doença preexistente ao adoecimento, o que motivou a internação; uma taxa semelhante aos 47,6% encontrados na literatura2. Além disso, o presente estudo constatou também que os pacientes com mais de uma internação tiveram maior probabilidade de apresentarem comorbidades prévias (87,35% versus 37,28%), dado que, embora sem correspondência na literatura analisada, era esperado, visto que pacientes portadores de doenças crônicas parecem sofrer um maior número de internações2.

Dessa forma, concluímos que o perfil das internações na enfermaria geral de pediatria estudada é composto predominantemente de crianças jovens, com patologias de tratamento clínico e de boa evolução, embora os casos cirúrgicos não sejam desprezíveis. Além disso, a presença de crianças portadoras de comorbidades é bastante frequente, o que pode ter implicações em termos de reinternações, duração da internação, custos e complicações. Esse perfil certamente varia entre hospitais, de acordo com o grau de complexidade dos serviços e as especialidades oferecidas, e acreditamos ser importante que cada hospital universitário conheça essas características de seus pacientes, com o objetivo de oferecer a melhor assistência e o melhor ensino possíveis.


REFERÊNCIAS

1. Granzotto JP, Mota DM, Vecchi AA, Santos EO, Gonçalves ER, Silva JBY, et al. Características sociodemográficas maternas e perfil das crianças internadas em um hospital do sul do Brasil. Rev Enferm UFSM. 2014; 4(1):97-104.

2. Duarte JG, Gomes SC, Pinto MT, Gomes MASM. Perfil dos pacientes internados em serviços de pediatria no município do Rio de Janeiro: mudamos? Rio de Janeiro: Physis. 2012; 22(1):199-214.

3. Bercini LO, Mazzo FA. Perfil de morbidade das crianças internadas no Hospital Universitário de Maringá. Rev UNIMAR. 1997; 19(2):625-638.

4. Silva SM, Lima SS, Andrade MC, Neves CMA, Avila PES. Caracterização dos pacientes internados em uma enfermaria pediátrica de um hospital de referência de Belém-PA. Rev Bras Ciênc Saúde. 2016; 20(3):213-218.

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6. Veras TN, Sandim G, Petrauskas R, D’Agostin J, Talamini L, Pinto LA. Perfil de pacientes internados em serviço de pneumologia pediátrica em hospital terciário. Saúde e Pesquisa. 2011; 4(1):41-4.

7. Costa DS, Nanci NO, Barbosa DP, Leão JHH, Tonassi CL. Perfil epidemiológico das internações em enfermaria pediátrica do Hospital Geral de Nova Iguaçu. Revista de Pediatria SOPERJ. 2015; 15(2):40.

8. Araujo DM, Segava NB, Paula FG, Vidal LC, Moraes JC, Almeida JM, Espíndula AP. Perfil dos pacientes pediátricos avaliados pela residência multiprofissional em um hospital universitário. REFACS. 2015; 3(3):221-227.

9. Silvério A. Perfil dos pacientes internados na divisão de pediatria do Hospital Universitário da UFSC. ACM Arq Catarin Med 1997; 26(1):31-35.










1. Hematologista e Hemoterapeuta Pediátrica. Professora Auxiliar do Depto. Materno-Infantil da Universidade Federal de Juiz de Fora
2. Graduanda em Medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora
3. Médica pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Residente em Pediatria pelo Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora

Endereço para correspondência:
Sabrine Teixeira Ferraz Grunewald
Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora
Rua Catulo Breviglieri, s/nº
Santa Catarina. Juiz de Fora-MG. Brasil. CEP: 360360-110
E-mail: sabrine.pediatria@gmail.com

Data de Submissão: 21/06/2017
Data de Aprovação: 28/02/2018