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ISSN (On-line) 2236-6814

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Relato de Caso

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Artrite de Poncet, manifestação rara de tuberculose: relato de caso em adolescente

Poncet arthritis, a rare manifestation of tuberculosis: Case report in an adolescent

Douglas Castanheira Coelho1; Igor Soares Trindade1; Maria Clara de Leonardo Motta2; João Lucas Martins Pillar2; Leonardo Rodrigues Campos3; Katia Lino3; Claudete Araújo Cardoso4; Christiane Mello Schmidt4

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1300 Residência Pediátrica, 15(3), 1-4

RESUMO

A tuberculose (TB) acompanha a humanidade há anos e ainda é um problema de saúde pública. Em algumas situações, representa um desafio diagnóstico. O principal agente etiológico é o Mycobacterium tuberculosis (Mtb), que pode causar infecção latente (ILTB), doença pulmonar, extrapulmonar e manifestações clínicas relacionadas à hipersensibilidade, como a artrite de Poncet (AP). Este relato descreve o caso de um adolescente de 14 anos com artrite em quadril, joelho, tornozelo e articulação metatarsofalangeana (AMTF) do hálux, acompanhada de febre, sudorese noturna, perda ponderal, contato com TB e prova tuberculínica (PT) positiva, cujo diagnóstico final foi AP. A AP foi diagnosticada com base nos critérios de Sharma e Pinto. Ressalta-se a importância de considerar a história clínica e a TB como diagnóstico diferencial em manifestações articulares em regiões endêmicas.

Palavras-chave: Tuberculose, Tuberculose latente, Artrite reativa, Adolescente.

Abstract

Tuberculosis (TB) has been affecting humanity for years and remains a public health issue. In some cases, it poses a diagnostic challenge. The main etiological agent is Mycobacterium tuberculosis (Mtb), which can cause latent infection (LTBI), pulmonary disease, extrapulmonary disease, and clinical manifestations related to hypersensitivity, such as Poncets arthritis (PA). This report describes the case of a 14-year-old adolescent with arthritis in the hip, knee, ankle, and metatarsophalangeal joint (MTFJ) of the hallux, accompanied by fever, night sweats, weight loss, TB contact, and a positive tuberculin test (PT), with a final diagnosis of PA. PA was diagnosed based on Sharma and Pintos criteria. The importance of considering clinical history and TB as a differential diagnosis in articular manifestations in endemic regions is highlighted.

Keywords: tuberculosis, latent tuberculosis, Adolescent, Adolescent behavior.

INTRODUÇÃO

Em 2022, aproximadamente 10,6 milhões de pessoas no mundo contraíram TB, seguindo a tendência de alta desde o ano de 2020. Indivíduos de 0 a 14 anos representaram 8% dos novos casos1. No Brasil, foram notificados 81.604 novos casos em 2023, estando a faixa dos 0 aos 15 anos com tendência de aumento na incidência2. Após a infecção, o indivíduo pode eliminar o bacilo, evoluir para a forma latente, desenvolver TB pulmonar ou extrapulmonar e apresentar reações relacionadas à hipersensibilidade como a artrite de Poncet, eritema nodoso, tuberculides e a ceratoconjuntivite flictenular3-5. Descreve-se o caso de adolescente com história de febre e oligoartrite, cujo diagnóstico final foi AP.


RELATO DE CASO

Adolescente, 14 anos, masculino. Dois meses antes da internação iniciou dor e rigidez matinal em quadril e joelho à direita que melhoravam com anti-inflamatórios não esteroidais (AINE). Passados cerca de 40 dias evoluiu com edema, piora da dor, impotência funcional e acometimento de articulações do tornozelo e AMTF do hálux à direita que melhoravam discretamente com uso de AINE, dor lombar que piorava com movimentação e melhorava ao repouso, além de febre vespertina (temperatura em média de 38,5 ºC) e sudorese. Nesse momento foi indicado internação. Referiu perda de peso não quantificada e contato recente com colega de jiu-jitsu em tratamento de TB pulmonar. Negava outros sintomas, comorbidades e infecções recentes. O histórico familiar era negativo. Cicatriz de BCG presente. Estava em regular estado geral, hipocorado, eupneico e anictérico. Peso igual a 60 kg (IMC = Z score >0 e <1). Apresentava claudicação, dor à mobilização do quadril à direita com diminuição do arco de movimento, edema, calor e dor em joelho, tornozelo e AMTF do hálux à direita. Restante do exame sem alterações. Evoluiu com febre e sudorese noturna diária, piora do quadro álgico necessitando uso de AINE de forma regular e perda de mais 2kg. Os resultados dos exames laboratoriais estão apresentados no quadro 1. Foram realizadas Biomicroscopia de fundo de olho, radiografia do tórax, ecocardiograma e ultrassonografia do abdome, todos normais. As sorologias para toxoplasmose, citomegalovírus, hepatites B e C, VDRL, Anti-HIV e hemocultura foram negativas, a ressonância magnética (RM) de quadril e joelho mostrou discreto derrame articular com as estruturas preservadas, sem erosão local e sem sinovite, e a de coluna lombossacra era normal. Não foi possível realizar dosagem de antígeno HLA-B27. Passados 60 dias do início do quadro, após a exclusão de outras causas de oligoartrite e com a história de contato para TB, PT positiva somado ao quadro de sudorese e febre, iniciou-se o esquema com rifampicina (R), isoniazida (I), pirazinamida (P) e etambutol (E) apesar de não identificado o sítio de TB doença. Permaneceu internado por mais 10 dias e após dois meses em acompanhamento ambulatorial evoluiu com melhora clínica, já não necessitando uso de AINE, que foi suspenso 2 semanas após início do esquema RIPE. Completou seis meses de tratamento e recebeu alta assintomático.


DISCUSSÃO

Trata-se de um paciente com oligoartrite crônica (envolvimento de quatro articulações com duração maior que 6 semanas) e sintomas sistêmicos (febre, sudorese noturna e perda ponderal), cujo diagnóstico diferencial inclui artrite idiopática juvenil subtipos relacionado à entesite (ARE) e sistêmico (AIJS), febre reumática (FRM), artrites reativas e, raramente, doenças linfoproliferativas, quando o paciente apresenta manifestações sugestivas, como linfonodomegalias, hepatoesplenomegalia e citopenias.

AIJS tem seu pico de incidência entre um e cinco anos, embora o diagnóstico seja possível em outras idades. As manifestações mais comuns são febre alta, artrite, exantema, linfadenopatia, hepatoesplenomegalia e serosite6. No caso relatado, não foi observado hepatoesplenomegalia, serosite ou exantema.

ARE requer a presença de artrite e entesite. Na falta de um deles, são necessários mais dois dos seguintes critérios: HLA B27 positivo; dor lombossacra inflamatória ou dor à digitopressão de sacroilíacas; uveíte anterior aguda; parente de primeiro grau com doença associada ao HLAB- 277. O paciente apresentava somente artrite e a dor lombar era mecânica. Mesmo na presença do antígeno HLA-B27 positivo, faltariam critérios para o diagnóstico de ARE.

Para FRM seria necessária a evidência de infeção pelo o Streptococcus ß-hemolítico do grupo A e presença de dois dos critérios maiores de Jones (cardite, poliartrite, coreia, eritema marginado, nódulo subcutâneo) ou um maior e dois menores (artralgia, febre, VHS >60 ou PCR >3, Intervalo PR prolongado)8. O paciente não apresentava histórico de infecções por Streptococcus ß-hemolítico do grupo A.

A artrite reativa cursa com mono/oligoartrite após alguma infecção sem que o agente possa ser isolado na articulação acometida. Os agentes mais comuns são bactérias que causam infecções gastrointestinais e ou geniturinárias. Em algumas situações pode ocorrer devido a germes atípicos9. A AP é um tipo de artrite reativa no contexto de infecção pelo Mtb10.

As arboviroses como dengue e chikungunya podem apresentar manifestações articulares. A chikungunya manifesta-se agudamente com febre alta, mialgia e artralgia simétrica intensas, principalmente nas extremidades como tornozelos, punhos e falanges. Apesar do padrão errático, costuma ser pior pela manhã, agravando-se com atividades físicas intensas11.

Quando surgiu a história de contato para TB, foi realizada radiografia de tórax (resultado normal) e a PT positiva. Após descartadas outras causas para artrite e como o paciente não apresentava manifestações clássicas de TB osteoarticular, como acometimento monoarticular e deformidade articular12, pensou-se em AP. Embora os exames de imagem não tenham identificado o sítio de acometimento da TB, optou-se por realizar tratamento para TB doença devido ao quadro de febre, sudorese noturna, perda ponderal, PT positiva e história epidemiológica. Rueda et al. (2013)13 demonstraram que em 3,5% dos casos de AP não foi encontrado o sítio de infecção pelo Mtb.

A AP é uma artrite reativa ao Mtb de acometimento oligo ou poliarticular, em que não há evidência de acometimento micobacteriano local e não se pode encontrar outra causa9. Acredita-se que ocorra devido à resposta imunomediada por células Th1, onde epítopos dos proteoglicanos da cartilagem humana são reconhecidos como proteínas de choque térmico do Mtb. Linfócitos Th1 e anticorpos alcançam a articulação, gerando a reação inflamatória13. Nesses casos, é esperado acometimento poliarticular e ausência de erosão local. Como a AP é uma doença rara e sem marcadores sorológicos específicos, Sharma et al. (2016)14 propuseram um critério diagnóstico para AP apresentado no quadro 2.





O primeiro sintoma apresentado foi a dor articular. Sharma et al. (2016)14 observaram que dor articular foi precedida pelo diagnóstico de AP em 87% dos casos. Este paciente apresentava oligoartrite (quadril, joelho, tornozelo e AMTF do hálux direito) não erosiva e não deformante. Em sua revisão de literatura com 198 casos de AP, Rueda et al. (2013)13 encontraram prevalência de oligoartrite em 40%, sendo tornozelo a articulação mais acometida, seguida de joelho, punhos e cotovelo. Shobha e Desai (2019)10 encontraram resultados semelhantes, assim como Sharma et al. (2016)14. A AP foi um diagnóstico de exclusão e presuntivo. O paciente apresentou dois critérios essenciais, um critério maior e dois menores segundo o critério diagnóstico de Sharma et al. (2016)14, configurando quadro diagnóstico possível de AP.


CONCLUSÃO

A TB é endêmica no Brasil, e na adolescência aumenta o risco de adoecimento15. A infecção pelo Mtb causa diversas manifestações clínicas. Na prática médica, revisar a história clínica pode trazer informações relevantes, como ocorreu no caso. A artrite de Poncet é rara e o diagnóstico é de exclusão, sendo necessário investigar outras causas de oligoartrite. Os critérios de Sharma et al. (2016)14 podem auxiliar na sua elucidação.


REFERÊNCIAS

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2. Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de HIV/Aids, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico - Tuberculose-2024. [Acesso em 2024 Mai 21]. Disponível em: https://www.gov.br/aids/pt-br/central-de-conteudo/boletins-epidemiologicos/2024/boletim-epidemiologico-tuberculose-2024/@@download/file

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1. Universidade Federal Fluminense, Médico residente em pediatria - Hospital Universitário Antonio Pedro - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
2. Universidade Federal Fluminense, Graduado em medicina - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
3. Universidade Federal Fluminense, Reumatologia pediátrica, Hospital Universitário Antonio Pedro - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil
4. Universidade Federal Fluminense, Departamento materno-infantil, Faculdade de Medicina - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil

Endereço para correspondência:
Douglas Castanheira Coelho
Hospital universitário Antonio Pedro
Av. Marquês do Paraná, 303, Centro
Niterói, RJ, Brasil. CEP: 24033-900
E-mail: pediatradouglas@gmail.com

Data de Submissão: 13/06/2024
Data de Aprovação: 19/08/2024

Sobre os autores

1 Universidade Federal Fluminense, Médico residente em pediatria - Hospital Universitário Antonio Pedro - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

2 Universidade Federal Fluminense, Graduado em medicina - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

3 Universidade Federal Fluminense, Reumatologia pediátrica, Hospital Universitário Antonio Pedro - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

4 Universidade Federal Fluminense, Departamento materno-infantil, Faculdade de Medicina - Niterói - Rio de Janeiro - Brasil.

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Como citar este artigo:

Coelho, DC, Trindade, IS, Motta, MCL, Pillar, JLM, Campos, LR, Lino, K, Cardoso, CA, Schmidt, CM. Artrite de Poncet, manifestação rara de tuberculose: relato de caso em adolescente. Resid Pediatr. 15(3):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n3-1300

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