A asma é a principal doença respiratória crônica na infância, causando um impacto significativo na qualidade de vida tanto dos pacientes quanto de suas famílias, além de gerar altos custos diretos e indiretos para a sociedade1. No Brasil, ocorrem aproximadamente 350.000 internações por asma a cada ano. Essa condição é a quarta maior causa de hospitalizações no Sistema Único de Saúde, e a prevalência de asma entre crianças foi de 24,3% e, entre adolescentes, de 19%1,2.
A inflamação brônquica é a principal característica fisiopatológica da asma, resultante de diversas e complexas interações entre células inflamatórias, mediadores inflamatórios e células estruturais das vias aéreas3,4. Os sintomas respiratórios são sibilância, dispneia, aperto no peito e tosse que variam em intensidade e frequência, que podem ser reversíveis espontaneamente ou com medicação. Estes ocorrem com maior frequência durante a noite ou nas primeiras horas da manhã, e geralmente são desencadeados por uma interação entre genética, alérgenos e exposição ambiental5.
A atividade física é fundamental para o crescimento e desenvolvimento das crianças, induzindo efeitos fisiológicos e psicológicos positivos, melhorando os sistemas cardiovascular, respiratório e muscular6. Porém, a porcentagem de crianças e adolescentes que cumprem as diretrizes recomendadas de 60 minutos diários de atividade física diminuiu significativamente nos últimos 50 anos, resultando em apenas 24% das crianças entre 6 e 17 anos7.
A prática de atividade física é frequentemente negligenciada no estilo de vida moderno, especialmente entre crianças e adolescentes com asma8. Muitos restringem suas atividades por influência familiar ou por conta da própria percepção dos sintomas exacerbados durante o exercício9,10. Crianças e adolescentes com asma devem ser encorajados a praticar atividade física regular, pois a falta de condicionamento físico decorrente da inatividade pode ocasionar piora nos sintomas9,11. Programas de treinamento físico têm demonstrado benefícios na redução de situações recorrentes da asma como a redução do número de internações, a menor necessidade de medicamentos para controlar a doença, a redução da frequência de sibilos, a diminuição das consultas emergenciais12,13. Além de causar alterações imunológicas positivas, diminuindo assim a inflamação alérgica14,15.
A asma pode impactar diversos aspectos da vida das crianças, desde o desempenho escolar até as interações sociais. As dificuldades respiratórias fazem parte do cotidiano dessas crianças, levando a ausências escolares, prejudicando o desempenho acadêmico e a socialização com colegas. Além disso, devem ser realizadas adaptações diárias, como evitar ambientes com alérgenos, algumas dessas restrições podem causar frustração. A necessidade de consultas frequentes para monitoramento ou internações devido à exacerbação dos sintomas interfere tanto na rotina escolar quanto nas atividades de vida diária16,17.
Diversos instrumentos avaliam a qualidade de vida em crianças com asma, considerando o impacto nos jovens e seus pais. Com o avanço dos métodos de monitoramento, busca-se maior especificidade18. Em 1995, Juniper e colaboradores18 desenvolveram o Pediatric Asthma Quality of Life Questionnaire (PAQLQ), com o objetivo de avaliar a qualidade de vida de crianças e adolescentes asmáticos. O PAQLQ inclui 23 itens e é composto por 3 domínios (sintomas, limitações nas atividades e emocional). O questionário é preenchido com base nas experiências das crianças, utilizando uma escala de 7 pontos, onde 1 representa o maior impacto negativo e 7 nenhum impacto19. O questionário já é traduzido, adaptado e validado no Brasil e é de fácil aplicabilidade e rápido para avaliar a qualidade de vida das crianças asmáticas20.
O objetivo deste estudo foi verificar na literatura a qualidade de vida após programa de reabilitação em crianças e adolescentes asmáticos.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão bibliográfica de literatura, realizada nas bases de dados: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), PEDro (Physiotherapy Evidence Database), PubMed e SciELO (Scientific Eletronic Library Online). Foram utilizados os descritores “Asthma”, “Quality of Life”, “Exercises” e “Children”, utilizando o operador booleano “AND”. A pesquisa foi realizada de junho de 2024 a agosto de 2024. Sendo incluídos Ensaios Clínicos Randomizados em inglês publicados nos últimos dez anos que apresentavam o Pediatric Asthma Quality of Life Questionnaire (PAQLQ) como instrumento utilizado para avaliação da qualidade de vida em crianças e adolescentes asmáticos após prática de exercício físico. Foram excluídos artigos não disponíveis na íntegra, artigos de revisão sistemática ou que não correspondiam ao tema proposto.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram encontrados nove artigos. Destes, três foram excluídos pois se tratava de revisões sistemáticas, data de publicação com mais de dez anos, artigos que não correspondiam ao tema proposto ou que não estavam disponíveis na íntegra.
Foram incluídos seis artigos que atenderam aos critérios de inclusão propostos e estão representados na Tabela 1.
Abdelbasset et al. (2018) 20 constataram que após dez semanas de treinamento físico aeróbio, ocorreram melhorias significativas na função pulmonar e na capacidade aeróbia das crianças com asma. Os resultados foram significativos dentro do grupo intervenção em todos os domínios do PAQLQ (p<0,05). Observou-se um aumento nos escores gerais, especialmente nos domínios de limitação de atividades (p=0,001) e sintomas (p=0,001), o que indica que o treinamento físico de forma constante e regular pode reduzir sintomas respiratórios, como falta de ar e tosse, além de progredir a capacidade funcional. No grupo de tratamento convencional, não houve diferenças significativas entre os períodos pré e pós-intervenção. O aumento da oxigenação e o fortalecimento dos músculos respiratórios provavelmente contribuíram na diminuição da sensação de dispneia durante as atividades de vida diária e por consequência gerando um aumento da confiança na prática de exercícios, o que possivelmente reflete a melhora da pontuação em todos os domínios do questionário.
Segundo Kuder et al. (2021)26, “a atividade física pode melhorar o controle da asma, a função pulmonar e a qualidade de vida relacionada à saúde, proporcionando bem-estar percebido pelos pacientes”. Dessa forma, Latorre-Román e colaboradores (2014)21 confirmaram a eficácia do treinamento físico na promoção de qualidade de vida em crianças asmáticas. Enquanto o estudo de Abdelbasset et al. (2018)20 demonstrou um aumento de 20% nos escores do PAQLQ, Latorre-Román et al. (2014)21 observaram uma diferença significativa em todos os domínios no grupo-intervenção (p<0,001), destacando uma progressão ainda maior em relação ao domínio emocional. Essa diferença pode estar relacionada ao treinamento indoor que apresenta uma natureza dinâmica e lúdica incluindo atividades variadas e interações sociais, logo reduzindo o estresse e a ansiedade associados às crises asmáticas.
A pesquisa realizada por De Andrade et al. (2014)22 demonstrou que um programa de atividade física aeróbia de seis semanas apresentou diferenças significativas em todos escores do questionário ao comparar os grupos após intervenção no total (p=0,031) e nos domínios sintomas (p=0,019), emoções (p=0,046) e atividades (p=0,033), com uma redução de aproximadamente 30% na intensidade dos sintomas no PAQLQ. Enquanto o trabalho de Latorre-Román et al. (2014)21 foca no aprimoramento do domínio emocional, De Andrade et al. (2014)22 destacam a diminuição dos sintomas, o que sugere que a progressão da capacidade funcional melhora a percepção dos sintomas respiratórios. Com a diminuição da quantidade das crises asmáticas, as crianças participaram mais das atividades, o que pode ter resultado em resultados positivos na qualidade de vida.
Sanz-Santiago et al. (2020)23 analisaram os efeitos de um programa de exercícios aeróbios e resistidos em crianças e adolescentes com asma controlada. Embora o programa tenha apresentado resultados positivos no desempenho funcional e na função pulmonar, não foram constatadas diferenças relevantes nos escores do PAQLQ entre os grupos-controle e exercício. Esses resultados sugerem que, embora o treinamento possa melhorar a capacidade funcional, ele pode não impactar de forma relevante a qualidade de vida. A ausência de pausas entre os exercícios e a natureza não lúdica das atividades podem ter afetado a motivação, especialmente entre as crianças.
Willeboordse et al. (2017)24 aplicaram um programa multifatorial de redução de peso, a intervenção foi inicialmente realizada duas vezes por semana, sendo posteriormente reduzida para três vezes ao mês durante a fase de acompanhamento. No grupo de intervenção, observou-se uma melhora progressiva nos escores do PAQLQ (p<0,001) ao longo das 18 semanas. No entanto, ao comparar os grupos, não ocorreram diferenças estatisticamente significativas (p=0,06), possivelmente devido ao fato de que a perda de peso e os efeitos físicos da intervenção não serem os únicos determinantes da qualidade de vida. Crianças asmáticas enfrentam desafios emocionais e sociais que não foram adequadamente abordados. Dessa forma, intervenções que se concentram exclusivamente na perda de peso podem não ser eficazes para melhorar os aspectos da qualidade de vida, visto que fatores psicológicos e sociais desempenham um papel igualmente crucial na percepção de bem-estar.
Winn et al. (2019)25 analisaram o efeito do treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) em adolescentes asmáticos, os escores totais do PAQLQ mostraram melhora significativa (p<0,05); no entanto, os domínios específicos não apresentaram mudanças relevantes. Embora o HIIT seja eficaz para aprimorar a capacidade aeróbica, sua alta intensidade pode ter sido excessiva para esses adolescentes, aumentando a ansiedade em relação ao exercício e contrabalançando os benefícios físicos.
Outro ponto a ser destacado é a relação do ambiente em que as atividades são praticadas. No estudo de Latorre-Román et al. (2014)21, o programa de treinamento foi realizado em um ambiente indoor, enquanto Winn et al. (2019)25 utilizaram o ambiente externo. O ambiente fechado pode ter influência na percepção de segurança, uma vez que minimiza a exposição a alérgenos e condições climáticas desfavoráveis, aspectos que interferem nas crises asmáticas das crianças. Esse fator pode ter atuado na melhoria do domínio emocional no estudo de Latorre-Román e colaboradores (2014)21 como já citado anteriormente.
CONCLUSÃO
A reabilitação pulmonar mostrou ser capaz de melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes asmáticos evidenciados na melhora dos domínios do PAQLQ. É importante considerar que os escores de qualidade de vida são influenciados por uma série de fatores relacionados, incluindo aspectos emocionais, sociais e físicos. Observou-se neste estudo que a melhora da qualidade de vida está relacionada com a melhora dos sintomas respiratórios, como falta de ar e tosse, e da capacidade funcional após sessões de treinamento aeróbico e resistidos.
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Data de Recebimento: 05/11/2024
Data de Aprovação: 13/02/2025
