INTRODUÇÃO
O Líquen aureus (LA) é um subtipo de dermatose purpúrica pigmentar que se caracteriza pelo surgimento súbito de máculas eritematosas, purpúricas e acastanhadas, por vezes de aspecto liquenoide, com tendência à coalescência e à expansão, que atingem preferencialmente membros inferiores de adultos jovens. A afecção é crônica, assintomática ou levemente pruriginosa e sua etiopatogenia é desconhecida. No entanto, o aumento de fragilidade capilar, traumas, drogas, infecções e deficiências leucocitárias parecem estar implicados na formação do quadro1-4.
O diagnóstico é clínico, auxiliado pela dermatoscopia e histopatologia1,3,5. A definição diagnóstica e intervenção precoce impedem a progressão e expansão do quadro, minimizando o efeito inestético das manchas hipercrômicas próprias da dermatose em questão3,5.
No intuito de divulgar essa enfermidade pouco conhecida, relata-se um caso de Líquen aureus extenso no membro inferior direito de uma paciente do sexo feminino de 6 anos.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 6 anos, evoluiu há 2 anos com lesões que gradativamente aumentaram em número e tamanho, expandindo-se por todo o membro inferior direito, sem evidências de comorbidades, uso de medicamentos ou traumas.
Ao exame dermatológico, máculas eritematosas, purpúricas e acastanhadas, algumas de superfície liquenoide (Figura 1A), coalescentes, em faixa larga, dispostas ao longo do membro inferior direito (Figura 1B).

À avaliação dermatoscópica, evidenciou-se fundo acastanhado com rede pigmentar interligada em disposição liquenoide, com mancha eritematopurpúrica central (Figura 2A).

O histopatológico evidenciou derme com extravasamento de hemácias, depósito de hemossiderina e infiltrado linfo-histiocitário em padrão liquenoide, sendo sugestivo de Líquen aureus (Figuras 2B e 2C). Após o diagnóstico, iniciou-se prednisona via oral 1mg/kg/dia, com involução das púrpuras após 3 semanas, permanecendo apenas máculas acastanhadas (Figura 1C). Após regressão e suspensão do corticoide, algumas púrpuras ressurgiram e novamente a corticoterapia foi instituída. Assim, iniciou-se a colchicina oral 1mg/dia, com controle do quadro, permanecendo apenas faixas de manchas acastanhadas.
DISCUSSÃO
O LA é um dos mais raros subtipos de dermatoses purpúricas pigmentadas, caracterizado pelo surgimento súbito de pápulas ou máculas eritematosas, purpúricas e acastanhadas, por vezes, de aspecto liquenoide, assintomáticas ou levemente pruriginosas, solitárias ou múltiplas, tendentes à coalescência e expansão1-4. Localizam-se, preferencialmente, nos membros inferiores de adultos jovens, embora possam ocorrer em crianças em outras áreas, como membros superiores, tronco, genitália e pálpebras3,6,7. As lesões são, geralmente, unilaterais, mas podem se apresentar bilateralmente, assim como com distribuição tipicamente localizada ou segmentar, ou atípica, como a zosteriforme6,7.
Apesar de incerta, a etiopatogenia da LA parece estar relacionada com aumento da fragilidade e da pressão vasculocapilar, deficiência de linfócitos T, alimentação, uso de drogas, entre outros4. Xie et al. (2020)3 relataram um caso de aparecimento e agravamento de lesões eritematosas de Líquen aureus após crises de rinite alérgica. O estudo especulou que a liberação de certos mediadores ativos da reação de hipersensibilidade pode ter desencadeado a contração do músculo liso, a expansão e o aumento da permeabilidade vasculocapilar, justificando as púrpuras. Por sua vez, Yaz et al. (2008)8 descreveram o surgimento de LA em criança relacionado com ingestão diária de bebidas energéticas, que involuíram com a suspensão do consumo. Na paciente atualmente descrita, não se detectou possíveis desencadeantes da doença.
O presente caso evoluiu com lesões e localização típicas da dermatose. Porém, é considerada como uma forma incomum de apresentação da doença, devido à grande extensão de área acometida, o que em parte pode ser explicado pelo tempo sem diagnóstico ou intervenção terapêutica, permitindo a progressão e expansão das lesões.
Dentre os principais diagnósticos diferenciais, encontra-se o eczema numular, em casos de placas acastanhadas e liquenificadas em forma de moeda9; granuloma anular9; morfeia, tanto como diagnóstico diferencial quanto como possível evolução do quadro de Líquen aureus, inclusive em criancas5,10-12; distúrbios linfoproliferativos, como micose fungoide purpúrica pigmentada, com semelhanças clínicas, dermatoscópicas e histopatológicas6; e outras dermatites purpúricas pigmentadas, como a doença de Schamberg, a púrpura de Majocchi e a dermatite de Gougerot-Blum6,9.
O diagnóstico é clínico, corroborado pela histopatologia e dermatoscopia. A histopatologia demonstra alteração vascular, extravasamento de hemácias, acúmulo de hemossiderina, e infiltrado linfo-histiocitário em disposição liquenoide. Esses achados reforçam a implicação vasculocapilar da doença e foram encontrados na avaliação da paciente descrita13,14. Os achados dermatoscópicos podem apresentar um fundo acastanhado, redes pigmentares entrelaçadas em disposição liquenoide, pontos purpúricos ou acinzentados e glóbulos vermelhos1. Ambos os aspectos estão presentes neste relato.
A literatura aborda diferentes opções de tratamento do Líquen aureus. Corticosteroides sistêmicos, colchicina, griseofulvina e pentoxifilina têm se mostrado benéficos no controle das lesões15. A opção de terapia com corticosteroides tópicos também pode ser utilizada, sobretudo em casos em que há prurido ou eritema mais evidentes. Entretanto, essa conduta terapêutica é controversa na literatura. Tratamentos com psoraleno associado à radiação ultravioleta A (PUVA), luz ultravioleta B de banda estreita (UVB) e laser de corante pulsado (Pulsed-Dye Laser) também são descritos como alternativas viáveis de tratamento2,13,14. Para a menor em questão, optou-se inicialmente por corticoide oral e, depois, colchicina, com involução do quadro.
O prognóstico do Líquen aureus é favorável e, apesar de citações de involução espontânea na literatura, a intervenção precoce se faz necessária para impedir a expansão e progressão da dermatose. Com isso, minimizam-se as sequelas de hiperpigmentação que tendem a trazer impacto estético e implicações psicossociais aos afetados7, reforçando a importância do reconhecimento da doença em atendimentos pediátricos.
REFERÊNCIAS
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Recebido em: 28/12/2024
Aceito em: 14/02/2025