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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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NBCAL: a visão dos pediatras brasileiros

NBCAL: the view of brazilian pediatricians

Racire Sampaio Silva1; Lelia Cardamone Gouveia1; Dolores Fernandez Fernandez1; Eneida Fardim Perim1; Izailza Matos Dantas Lopes1; Leandro Meirelles Nunes1; Lucia Mendes Silva Rolim1; Simone Silva Ramos1; Vanessa Macedo Silveira Fuck1; Rossiclei de Souza Pinheiro1; Katia Galeão Brandt2

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2026.1425 Residência Pediátrica, 16(1), -

RESUMO

A Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos de Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL) é um arcabouço legal que reúne várias determinações para controle do marketing de alimentos para lactentes de primeira infância e objetos relacionados. É de suma importância que seja conhecida por profissionais que têm por função orientar escolhas saudáveis para pais e responsáveis acerca de alimentação de crianças nessa faixa etária. Este estudo teve como objetivo identificar lacunas no conhecimento de pediatras e outros profissionais de saúde brasileiros que participaram do 41º Congresso Brasileiro de Pediatria sobre a NBCAL. Abordou-se uma amostra de 36 pediatras e outros profissionais de saúde inscritos no 4º Simpósio de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria que responderam a um questionário que abordava características pessoais como idade, tempo de formação, local de trabalho e correlacionava com suas respostas a um teste aplicado antes do treinamento. O questionário foi feito utilizando a plataforma Survey Monkey, garantindo a confidencialidade e segurança dos dados. Estes obtidos foram planilhados e os resultados descritos em gráficos e planilhas. Os resultados obtidos demonstraram que ainda existe um grande desconhecimento sobre a legislação nacional. Conclui-se então que treinamentos devem ser realizados de forma mais sistemática entre a comunidade acadêmica, também durante a formação de graduação ou pós-graduação.

Palavras-chave: Publicidade Direta ao Consumidor; Marketing de Serviços de Saúde; Vigilância de Produtos Comercializados; Educação Médica Continuada; Código Internacional de Comercialização de Alimentos para Lactentes

Abstract

The Brazilian Standard for the Marketing of Food for Infants and Young Children, Nipples, Pacifiers and Bottles (NBCAL) is a legal framework that brings together several provisions to control the marketing of food for infants and related items. It is extremely important that it is known by professionals who are responsible for guiding healthy choices for parents and guardians regarding the feeding of children in this age group. This study aimed to identify gaps in the knowledge of pediatricians and other Brazilian health professionals who participated in the 41st Brazilian Congress of Pediatrics about NBCAL. A sample of 36 pediatricians and other health professionals registered for the 4th Breastfeeding Symposium of the Brazilian Society of Pediatrics were approached. They answered a questionnaire that addressed personal characteristics such as age, time since training, place of work and correlated with their answers to a test administered before the training. The questionnaire was conducted using the Survey Monkey platform, ensuring data confidentiality and security. The data obtained were compiled into spreadsheets and the results described in graphs and spreadsheets. The results obtained demonstrated that there is still a great lack of knowledge about national legislation. It is therefore concluded that training should be carried out more systematically among the academic community, also during undergraduate and postgraduate training.

Keywords: Direct-to-Consumer Advertising; Marketing of Health Services; Product Surveillance; Postmarketing; Education; Medical; Continuing; International Code of Marketing of Breastmilk Substitutes

INTRODUÇÃO

A Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL) existe desde 1988 no Brasil, sendo acrescida de outros produtos conforme o passar do tempo1. A indústria de marketing tem como alvo nesse setor os nutricionistas e pediatras2, responsáveis pelo aconselhamento em alimentação nessa faixa etária, motivo pelo qual o assédio se torna cada vez mais vibrante e atual e o que era antigamente somente ao vivo, hoje ocorre em larga escala nas redes sociais3.

Diante de toda essa perspectiva de assédio por parte das empresas4,5, percebe-se que existe uma sobreposição de informações, sendo que as informações científicas sobre os benefícios e vantagens do leite materno6 são, a todo momento, questionadas pelo lançamento de novos produtos e, por conseguinte, distribuição de novas amostras5, sendo essa brecha no Código para que se disseminem distribuição de amostras pela indústria aos profissionais de saúde7.

Na América Latina, esse fenômeno do assédio do marketing das empresas alimentícias vem sendo pesquisado nos últimos anos, inclusive sendo atento à crescente presença das mídias digitais8. Em recente revisão, observou-se que os entraves legais variam muito entre os países da OMS que aderiram ao "Código", sendo indicado que soluções utilizando novas tecnologias sejam as mais indicadas para países com recursos humanos limitados, além de que o treinamento para profissionais de saúde seria muito importante para que as estratégias de comunicação sejam bem entendidas tanto por profissionais de saúde como por comerciantes9.

Observações sobre propaganda de fórmulas infantis na África do Sul demonstraram que, apesar de a legislação não permitir a propaganda, anúncios feitos em revistas destinadas a pais de crianças pequenas e um expressivo número de pediatras incentivam o início de alimentos sólidos antes de 6 meses de idade, reforçando que, mesmo com política adequada à divulgação do conhecimento para que seja mudado, o paradigma é de fundamental importância10.

É premente que a Sociedade Brasileira de Pediatria age de acordo com a legislação, utilizando de forma adequada o patrocínio das indústrias alimentícias sem, no entanto, se deixar corromper pelo mercado11. Prova disso é que aconteceu o 41º Congresso Brasileiro de Pediatria, que recebeu patrocínio de empresas de fórmulas infantis ao mesmo tempo em que tivemos um seminário abordando o tema da NBCAL.

Diante dessas evidências e de toda a tentativa de convivência pacífica e organizada pelos setores, sempre respeitando a legislação, o conhecimento desta se torna urgente e necessário. Então, durante o 4º Simpósio de Aleitamento Materno realizado no dia 22/10/2024, foram coletadas informações sobre como a legislação pode ser entendida pelos pediatras com os seguintes objetivos: Identificar lacunas no conhecimento sobre a NBCAL de pediatras e outros profissionais de saúde brasileiros que participarão do 4º Simpósio Brasileiro de Aleitamento Materno da SBP no 41º Congresso Brasileiro de Pediatria; caracterizar os participantes 4º Simpósio Brasileiro de Aleitamento Materno da SBP no 41º Congresso Brasileiro de Pediatria quanto à idade, local de trabalho, se trabalham diretamente com amamentação; descrever a presença de visitas a profissionais de saúde por parte da indústria de alimentos para lactentes e crianças de primeira infância, verificar se houve modificação de conhecimento após treinamento específico em NBCAL diante das investidas da indústria alimentícia e comprovar se houve ensino de NBCAL em ambientes de formação (graduação ou pós-graduação).

 

MÉTODOS

Estudo transversal realizado em 22/10/2024 durante o 4º simpósio de Aleitamento Materno no 41º Congresso Brasileiro de Pediatria. Foram convocados todos os inscritos no 4º Simpósio de Aleitamento Materno a responderem um questionário eletrônico na plataforma Survey Monkey, contendo dados como: idade, tempo de formação, local de trabalho e características das visitas dos representantes das indústrias alimentícias, além de perguntas sobre o conhecimento da NBCAL e assédio das indústrias farmacêuticas, conforme disposto na Tabela 1. Todos que concordaram assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. No total, houve 45 inscritos para o seminário e obtivemos 36 respostas no questionário. Esta pesquisa foi submetida ao Conselho de Ética e Pesquisa da Universidade Vila Velha (CEP-UVV) sob o CAAE: 83753524.3.0000.5064; tendo como aprovação o número: 7.163.907.

 

 

Os resultados foram expressos em planilhas de Excel, diretamente da plataforma, sendo esses também apresentados em gráficos demonstrando os acertos e sendo feita estatística descritiva com as respostas.

RESULTADOS

Foram entrevistados 36 pediatras, sendo que a maioria (75%) tinha mais de 30 anos de idade, trabalhando no Sul e Sudeste do país, sendo São Paulo com 7 participantes, Santa Catarina e Rio de Janeiro com 4 e Santa Catarina com 3. Os demais participantes não informaram o estado de origem. Quanto ao local de trabalho (Figura 1), a maioria trabalhava em serviços públicos, mas não havia distinção sobre mais de 1 posto de trabalho para o médico. A imensa maioria trabalha diretamente com amamentação (88,89%), justificada pelo tema do simpósio.

 

 

Ao serem perguntados sobre a leitura da NBCAL, 50% deles afirmaram que já tinham lido o documento, enquanto 50% não o tinham feito.

Mas onde devem ser inseridos esses conhecimentos? Em nosso estudo (Figura 2), observamos que a maioria dos respondentes (66,67%) não teve esse assunto apresentado durante a graduação ou pós-graduação.

A seguir, foram apresentadas 10 perguntas sobre o entendimento da NBCAL (Tabela 1) e analisadas as respostas. Foi então realizado um treinamento composto por oficinas com metodologias ativas diversas, englobando os vários temas da NBCAL, reforçando os temas provocados pelas perguntas. Os resultados estão expressos na Tabela 2.

 

 

DISCUSSÃO

Segundo a Demografia Médica Brasileira12, o trabalho médico no Brasil está distribuído realmente entre público e privado, sendo que normalmente os profissionais têm mais de 1 emprego e estão predominantemente nas regiões Sul e Sudeste.

Em estudo no México, em 2019, apenas 41,6% dos profissionais de saúde tinham conhecimento do código13, enquanto um levantamento em 8 países, incluindo América Latina, Ásia e África, revelou que 50% dos profissionais pesquisados também não tinham conhecimento da legislação de seu país, além de que o marketing dos substitutos do leite humano é muito difundido e com várias características e com extrema variação de promoções tentando burlar a legislação própria do país14.

Estudos na África do Sul apontam para a carência de divulgação desses conhecimentos, o que reforça a atuação das indústrias farmacêuticas. Nesse caso citado, somente 8% dos entrevistados tiveram esse tipo de conhecimento em sua formação15.

A partir dessas respostas dadas por pediatras, que são os profissionais que mais se dedicam à promoção da amamentação pelos seus benefícios para a mãe e o bebê, independentemente da classe social16, entende-se que existe desconhecimento da legislação atual, mesmo por profissionais que trabalham com o aleitamento materno, reforçando a ideia de investimentos em treinamento para profissionais de saúde, de acordo com observações anteriores de diversos autores que reafirmam essa necessidade14.

Sobre a busca de patrocínios, menos de 40% marcaram a resposta correta. Certamente ignoram-se os subterfúgios da indústria para que se mantenha presente e patrocinando eventos e implantando sorrateiramente suas alternativas ao aleitamento materno, principalmente em rótulos em locais de venda17. Outra resposta com baixo nível de acertos expressa sobre a busca de patrocínios para eventos, onde há grande dificuldade de saber o que pode ou não de acordo com a legislação brasileira, não sendo esse um problema somente brasileiro, mas também internacional15.

Nas questões onde se aborda financiamento para eventos como fornecimento de cursos ou passagens, houve maior reconhecimento da ilegalidade das ações, o que pode se tornar cada vez mais difícil com a introdução do uso das mídias digitais, fazendo com que a empresa seja lembrada, mesmo que não financie cursos e viagens18.

CONCLUSÃO

O aleitamento materno precisa ser promovido sob diversos aspectos, um deles é a proteção legal. Observa-se que, mesmo entre os profissionais de saúde que trabalham com o aleitamento materno, existe um desconhecimento da legislação nacional, especialmente a NBCAL. Essa legislação, apesar de vigente desde 1988, é alvo de constantes tentativas de violação, onde brechas na lei vão sendo continuamente alargadas. Os equívocos mais comuns são devidos à busca de patrocínios para alimentação e eventos, onde é considerada inocente a intervenção sorrateira da indústria alimentar. Urge que se dissemine cada vez mais o conhecimento sobre a legislação, sendo uma forma de proteger o Aleitamento Materno das pressões da indústria alimentícia de lactentes, objetivando que após fortalecimento dessa informação, o profissional que trabalha com aleitamento materno se capacite cada vez mais para denunciar abusos e resistir ao assédio, atualmente inserido até em mídias digitais.

REFERÊNCIAS

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1 Departamento Cientítifico de aleitamento Materno da SBP - Vitória - Espírito Santo - Brasil
2. Universidade Federal de Pernambuco, Faculdade de Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil

Endereço para correspondência:
Racire Sampaio Silva Departamento Científico de aleitamento Materno da SBP
Rua Santa Clara, 292, Copacabana
Rio de Janeiro – RJ CEP: 220410-012 
E-mail: raciresampaio@gmail.co.

Data de Submissão: 07/02/2025
Data de Aprovação: 22/05/2025

Sobre os autores

1 Departamento Cientítifico de aleitamento Materno da SBP - Vitória - Espírito Santo - Brasil.

2 Universidade Federal de Pernambuco, Faculdade de Medicina - Recife - Pernambuco - Brasil.

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Como citar este artigo:

Silva, RS, Gouveia, LC, Fernandez, DF, Perim, EF, Lopes, IMD, Nunes, LM, Rolim, LMS, Ramos, SS, Fuck, VMS, Pinheiro, RS, Brandt, KG. NBCAL: a visão dos pediatras brasileiros. Resid Pediatr. 16(1):-. DOI: 10.25060/residpediatr-2026.1425

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