INTRODUÇÃO
A síndrome nefrótica caracteriza-se por proteinúria, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia, frequentemente associada a fenômenos tromboembólicos devido à perda urinária de anticoagulantes1,2. A complicação mais grave é a formação de trombos intracardíacos, que apresenta alta morbidade e mortalidade, embora seja rara. A diferenciação entre trombos e tumores cardíacos é essencial e realizada primariamente por meio do ecocardiograma. O tratamento pode incluir anticoagulação, trombólise ou remoção cirúrgica2.
O objetivo deste estudo é analisar essa rara condição clínica e destacar sua importância para especialistas e pediatras. Trata-se de um estudo observacional descritivo, baseado na análise do prontuário de um paciente pré-escolar atendido em um hospital universitário, seguido de revisão bibliográfica na base PubMed, utilizando os termos thrombus, heart diseases e nephrotic syndrome.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 3 anos, com diagnóstico prévio de síndrome nefrótica, internada devido à descompensação da doença. A tomografia de abdome e tórax revelou imagem hipodensa na auriculeta/átrio direito, compatível com trombo ou lesão primária. O ecocardiograma evidenciou massa hiperrefringente de 1,7 x 3,2 cm, móvel e não aderida às paredes do átrio nem à valva tricúspide, sem obstrução ao fluxo sanguíneo (Figura 1). A paciente permaneceu assintomática do ponto de vista cardiológico.

Diante desse cenário, iniciou-se anticoagulação plena com heparina de baixo peso molecular. A ressonância magnética cardíaca confirmou o diagnóstico de trombo atrial (Figura 2). Ecocardiogramas seriados foram realizados para acompanhamento, demonstrando redução progressiva do trombo.

A equipe de cirurgia cardíaca e cardiologia pediátrica avaliou que não havia indicação de remoção cirúrgica, pois o trombo não causava obstrução significativa. A paciente foi monitorada regularmente, com ajustes na anticoagulação conforme necessidade.
REVISÃO DE LITERATURA
A síndrome nefrótica é definida por proteinúria intensa, hipoalbuminemia, edema e hiperlipidemia. Pode ser causada por doenças renais primárias ou secundárias, como infecções ou colagenoses. O tratamento frequentemente envolve corticosteroides, podendo incluir imunossupressores em casos resistentes. Para controle do edema, diuréticos são indicados, enquanto inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) ou bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) ajudam a reduzir a proteinúria e controlar a pressão arterial. As complicações da síndrome nefrótica incluem infecções, hipovolemia, insuficiência renal e eventos tromboembólicos, sendo estes últimos especialmente preocupantes1,2. A incidência de trombose em crianças com síndrome nefrótica é de aproximadamente 3%2. Fatores como hipoalbuminemia, hipercoagulabilidade, imobilização e uso prolongado de corticosteroides aumentam o risco trombótico.
Entre os eventos tromboembólicos, a formação de trombos intracardíacos é rara, mas pode levar a embolias sistêmicas ou pulmonares3. O diagnóstico diferencial inclui tumores cardíacos, vegetações infecciosas e trombos murais. O ecocardiograma é a principal ferramenta diagnóstica, complementado por ressonância magnética cardíaca e angiotomografia para caracterização mais detalhada3,4.
Os tumores cardíacos primários são raros na infância, com incidência inferior a 0,3%. O rabdomioma é o mais comum nessa faixa etária, seguido pelos mixomas, que geralmente são móveis e pedunculados. Hemangiomas cardíacos podem estar associados à obstrução venosa e arritmias. A diferenciação entre trombos e tumores é essencial para definição do tratamento adequado. O manejo dos trombos intracardíacos depende da localização, do tamanho e do risco de embolização. Trombos móveis ou maiores que 2 cm geralmente requerem remoção cirúrgica, enquanto casos menores podem ser tratados com anticoagulação ou trombólise (Tabela 1)5,6. O uso de heparina de baixo peso molecular é uma estratégia comum, monitorada pela atividade do fator Xa. A anticoagulação deve ser ajustada cuidadosamente para evitar complicações hemorrágicas. Em alguns casos, a trombólise pode ser preferida, especialmente quando há contraindicações cirúrgicas. O uso de terapia anticoagulante prolongada pode ser necessário em pacientes com risco persistente de trombose7,8. O acompanhamento regular com exames de imagem é essencial para avaliar a regressão do trombo e evitar recorrências8. A abordagem multidisciplinar, incluindo nefrologistas, cardiologistas e hematologistas, é fundamental para otimizar o tratamento e reduzir os riscos associados.

A síndrome nefrótica pode resultar em complicações tromboembólicas graves, incluindo trombos intracardíacos. O diagnóstico precoce e o manejo adequado com anticoagulação são essenciais para reduzir a morbidade e mortalidade. A diferenciação entre trombos e tumores cardíacos deve ser realizada com exames de imagem apropriados, orientando a melhor estratégia terapêutica8,9.
Em conclusão, o caso relatado destaca a importância do monitoramento contínuo das funções renal e cardíaca, aliado a ajustes criteriosos na terapia anticoagulante, reduzindo o risco de complicações. Além disso, reforça a relevância do conhecimento e do diagnóstico precoce de trombo atrial para a adoção de estratégias terapêuticas oportunas, reduzindo a morbimortalidade do paciente. Por fim, evidencia o papel essencial da abordagem multidisciplinar na promoção de tratamento seguro e eficaz, contribuindo para melhores desfechos clínicos.
REFERÊNCIAS
1. Wolf O, Didier R, Chagué F, Bichat F, Rochette L, Zeller M, et al. Nephrotic syndrome and acute coronary syndrome in children, teenagers and young adults: systematic literature review. Arch Cardiovasc Dis. 2023;116(5):282-90. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.acvd.2023.03.002
2. Maghrabi K, Aldhaheri R, Aljunaid N, Alzahrani AS, Alsayyad HM, Kalakattawi N, et al. Postoperative intracardiac thrombus in a child with nephrotic syndrome. Int Med Case Rep J. 2022;15:91-6. DOI: http://www.doi.org/10.2147/IMCRJ.S349740
3.Yan HB, Li YM. Atrial thrombus as a complication of SLE and APS in an 8-year-old child. Pediatr Rheumatol. 2020;18(1):90. DOI: http://www.doi.org/10.1186/s12969-020-00484-z
4. Cetin II, Ekici F, Ünal S, Kocabaş A, Sahin S, Yazıcı MU, et al. Intracardiac thrombus in children: the fine equilibrium between the risk and the benefit. Pediatr Hematol Oncol. 2014;31(5):481-7. DOI: http://www.doi.org/10.3109/08880018.2014.919546
5. Gripp EA, Jácome BZ, Silva AEA, Dias FBR, Almeida BBC, Rabischoffsky A. Tumores cardíacos: o reconhecimento é fundamental! Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2024;37(2):e20240032. DOI: http://www.doi.org/10.36660/abcimg.20240032
6. Uzun O, Wilson DG, Vujanic GM, Parsons JM, De Giovanni JV. Cardiac tumours in children. Orphanet J Rare Dis. 2007;2:11. DOI: http://www.doi.org/10.1186/1750-1172-2-11
7. Ekici F, Çakar N. A large intracardiac thrombus in a child with steroid-resistant nephrotic syndrome. Cardiol Young. 2013;23(3):440-2. DOI: http://www.doi.org/10.1017/S1047951112000923
8. Bravo-Valenzuela NJM, Lucas E, Netto NV, Conceição LV, Estrada NPD, Respondek-Liberska M, et al. Pediatric cardiac tumors: echocardiographic imaging features. Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2022;35(3):eabc302. DOI: http://www.doi.org/10.22541/au.164873339.94776704/v1
9. DeWald TA, Washam JB, Becker RC. Anticoagulants: pharmacokinetics, mechanisms of action, and indications. Neurosurg Clin N Am. 2018;29(4):503-15. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.nec.2018.06.003
Data de Recebimento: 06/03/2025
Data de Aprovação: 25/04/2025
Data de Publicação: 17/06/2026