INTRODUÇÃO
A aferição das medidas antropométricas é amplamente difundida e utilizada, por ser um método pouco invasivo ao paciente, para acompanhar a evolução e desenvolvimento da criança e do adolescente1,2. Essas medidas se baseiam na aferição da altura (m), do peso (kg) de circunferências (cm) e dimensões do corpo humano2. Ao analisar esses dados, podem-se calcular diversas correlações de medidas do corpo de cada indivíduo, como o índice de massa corporal (IMC) e a relação cintura quadril3. Sendo assim, entende-se por obesidade na adolescência um IMC acima dos indicadores, apresentados nas curvas de crescimento e desenvolvimento, sugeridas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)4.
A adolescência é uma fase, que se inicia aos 10 anos e se encerra aos 19, em que um indivíduo passa por transformações física, psíquicas e emocionais, as quais o permitem sair da infância para adentrar a vida adulta5. Entretanto, mudanças culturais vêm causando alterações comportamentais, em âmbito mundial, nessa faixa-etária, como a substituição de brincadeiras e afazeres por atividades sedentárias e uma alimentação desbalanceada de fácil aquisição6,7. O Brasil também se coloca dentro da realidade, cuja juventude também se faz presente na epidemia da obesidade8. Segundo a OMS, a obesidade é uma patologia oriunda do acúmulo anormal ou excessivo de gordura no organismo, resultando na perda da qualidade de vida e diminuindo a expectativa da qualidade de vida, resultado do desequilíbrio crônico entre o consumo alimentar e o gasto energético9,10. Levando em consideração as transformações que ocorrem sistemicamente no corpo de um indivíduo na adolescência, devemos ressaltar o peso que a obesidade tem na qualidade de vida, social e intrapessoal, desses seres em transformação11. Todavia, também devemos acrescentar que essa maior exposição à doença resulta em grandes fatores de risco e um surgimento precoce de doenças, como hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2 e dislipidemia12 .
Com a pandemia da Covid-19, o índice de prevalência da obesidade na adolescência aumentou, mas ainda não se sabe se será permanente ou transitório13. Contudo, as dificuldades e desafios que antes vinham sendo enfrentadas para o combate à obesidade juvenil no Brasil, tornam-se mais evidenciadas e de difícil manejo8.
Nesse contexto, este trabalho visa a correlacionar os dados antropométricos com os dados da qualidade de vida para entender se é possível estabelecer relações entre ansiedade, depressão e obesidade nos adolescentes.
MATERIAIS E MÉTODOS
Design do Estudo e Participantes
O presente estudo longitudinal foi submetido à análise do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) e foi aprovado sob o número 59379622.5.0000.5492 de acordo com as normas de Helsink, desenvolvido apenas após receber o seu parecer favorável.
O termo de assentimento livre e esclarecido (TALE - Apêndice A) e o questionário Versão brasileira do questionário de Qualidade de Vida-SF-36 18 (Apêndice B) e um questionário adaptado pelo nosso grupo de pesquisa (Apêndice C) foram aplicados, de forma presencial, à população de estudo: os alunos do 9º ano e do Ensino Médio da escola Instituto São José, de São José dos Campos.
Os critérios de inclusão da pesquisa foram
Alunos regularmente matriculados no 9º ano e no Ensino Médio, da escola Instituto São José, de São José dos Campos, que aceitaram participar da pesquisa e foram autorizados por seus responsáveis por meio do termo de ciência livre e esclarecido (TCLE).
Os critérios de não inclusão foram
Alunos de outras escolas, de São José dos Campos ou aqueles que não desejaram realizar a pesquisa.
Os critérios de exclusão foram
Alunos que trancaram ou cancelaram a matrícula no 9º ano e no Ensino Médio da escola Instituto São José, de São José dos Campos, no período de realização da pesquisa ou aqueles que solicitaram seu desligamento da pesquisa.
Avaliação dos Adolescentes
Na primeira etapa do trabalho, os alunos da escola particular Instituto São José, de São José dos Campos/SP, que cursam o 9º ano do Ensino Fundamental e o Ensino Médio, foram convidados a fazer parte do projeto. Também para seus pais foram apresentadas as propostas, assim, junto com a aprovação do/a adolescente, permitiram, através de um documento de autorização, que esse participasse do trabalho.
Os adolescentes que foram autorizados a participar do projeto receberam o formulário do questionário de qualidade de vida SF-36. Após responder ao formulário, os alunos tiveram suas alturas, seus pesos e suas medidas de cintura e quadril aferidas.
Além da aferição, esses alunos foram abordados e questionados sobre as seguintes perguntas:
1) Você possui ansiedade ou depressão?
2) Você possui diabetes ou pressão alta?
3) Você possui alguma outra enfermidade?
Análise Estatística
Os dados coletados e devidamente preenchidos foram submetidos à análise descritiva e avaliados estatisticamente por meio do software Prisma 8.0 para Windows. No que se refere à variável qualidade de vida, a associação entre os dois períodos de coleta de dados foi feita por meio do teste qui-quadrado. As comparações entre os achados serão feitas pelo test t pareado Mann-Whitney, e a análise de correlação dos dados foi realizada através do teste de Spearman examinando a associação entre o IMC com os dados do questionário do SF-36. O nível de significância foi definido em p<0,005.
RESULTADOS
Inicialmente, foi obtida uma amostra de 112 adolescentes, porém, após os critérios de inclusão e exclusão, foram realizadas as avaliações em 64 adolescentes entre o 9º ano do Ensino Fundamental e 1º, 2º e 3º ano do Ensino Médio.
A Tabela 1 descreve e a caracterização clínica dos participantes, onde tivemos uma idade média entre os adolescentes de 15 anos de idade, sendo a maioria feminina — 40 meninas e 24 meninos — e a etnia preponderante, a raça branca.

A análise de correlação de Spearman demonstrou associação negativa estatisticamente significativa entre o IMC e o domínio “limitações por aspectos emocionais” do questionário SF-36 (r=−0,3154; p=0,0242), conforme apresentado na Tabela 2. Esse achado indica que valores mais elevados de IMC estiveram associados a piores escores nesse domínio específico da qualidade de vida. Com o objetivo de aprofundar essa análise, foi realizada regressão linear simples entre a relação cintura-quadril e o domínio “limitações por aspectos emocionais”. Observou-se associação estatisticamente significativa (p<0,05), sendo o modelo descrito pela equação Y = 209,4X − 118,6. O coeficiente de determinação (R²) indicou que aproximadamente 44% da variabilidade das limitações por aspectos emocionais pode ser explicada pela relação cintura-quadril (Figura 1). De maneira semelhante, a regressão linear simples entre a relação cintura-quadril e o domínio “saúde mental” também demonstrou significância estatística (p<0,05), conforme ilustrado na Figura 2. O modelo foi descrito pela equação Y = 117,3X − 30,15, com coeficiente de determinação (R²) de 0,32, indicando que 32% da variabilidade nos escores de saúde mental pode ser explicada pela relação cintura-quadril.



O Coeficiente Relação Cintura e Quadril com o a variável limitação por aspectos emocionais foi estimado pela formula Y= 209.4* X-118.6 indicando significância estatística com um p<0,05 mostrando através do R2 que 44% dos estudantes que apresentam uma maior relação cintura quadril apresenta também limitações por aspectos emocionais corroborando com o teste estatístico de correlação apresentada na tabela 2.
O Coeficiente Relação Cintura e Quadril com o a variável de saúde mental foi estimada pela formula Y= 117.3* X-30.15 indicando significância estatística com um p<0,005 mostrando através do R2 que 32% dos estudantes que apresentam uma maior relação cintura quadril apresentam também alterações na saúde mental.
DISCUSSÃO
O presente estudo confirmou a hipótese que os dados antropométricos podem ter relação com a qualidade de vida dos adolescentes no período entre o 9º ano e os três anos do Ensino Médio, mostrando primeiramente uma correlação negativa, entre o Índice de Massa Corporal (IMC) e a saúde mental, indicando que, à medida que o IMC aumenta, a saúde mental tende a diminuir, e vice-versa. Em outras palavras, pessoas com IMC mais alto têm maior probabilidade de apresentar problemas de saúde mental, enquanto aquelas com IMC mais baixo tendem a ter melhor saúde mental14. No estudo de Silva et al. (2015)15, já foi demonstrada essa correlação. Algumas das razões que podemos inferir para essa correlação incluem o estigma e discriminação: Indivíduos com sobrepeso ou obesidade podem enfrentar estigma e discriminação, o que pode levar a problemas de autoestima, ansiedade e depressão. Outro fator relevante são os biomarcadores e inflamação sendo demonstrados no estudo de Hales et al. (2017)16, mostrando que a obesidade está associada à inflamação crônica de baixo grau e alterações nos níveis de hormônios e neurotransmissores, o que pode afetar o funcionamento do cérebro e aumentar o risco de distúrbios mentais. Existe também o estresse psicossocial em que os adolescentes com obesidade podem enfrentar estresse psicossocial devido a preocupações com imagem corporal, dificuldades nas relações interpessoais e desafios relacionados à saúde física, o que pode contribuir para problemas de saúde mental17. Nesse sentido, também cabe dizer que o estilo de vida e a autoestima, em alguns casos, podem estar associados à obesidade18, como padrões alimentares pouco saudáveis e falta de atividade física, podendo impactar negativamente a autoestima e o bem-estar psicológico19.
É importante ressaltar que a relação entre IMC e saúde mental é complexa e multifacetada, e nem todas as pessoas com obesidade experimentarão problemas de saúde mental, assim como nem todas as pessoas com IMC mais baixo terão uma saúde mental excelente20. No entanto, entender essa correlação pode ser útil para desenvolver intervenções eficazes que abordem tanto a saúde física quanto a mental de maneira holística nos adolescentes.
No recente estudo da revista Lancet (2024)21, conduzido pela NCD Risk Factor Collaboration, os autores mostram que o peso combinado do baixo peso e da obesidade aumentou na maioria dos países, impulsionado pelo crescimento da obesidade. Enquanto isso, o baixo peso e a magreza continuam a prevalecer no Sul da Ásia e em partes da África21. Diante desse cenário, é necessária uma transição nutricional saudável, que melhore o acesso a alimentos nutritivos para enfrentar o fardo remanescente do baixo peso e, ao mesmo tempo, reduza e reverta o avanço da obesidade.
Além das preocupações nutricionais, observa-se um aumento acelerado dos problemas emocionais entre os adolescentes, especialmente na faixa etária predominante do nosso estudo. Algumas razões para esse fenômeno ainda são pouco exploradas pela ciência, mas pesquisas já apontam fatores relevantes. Durante a adolescência, ocorrem mudanças significativas no cérebro, particularmente em áreas relacionadas ao processamento emocional e ao controle dos impulsos22. Essas alterações podem tornar os adolescentes mais vulneráveis a distúrbios mentais, como ansiedade e depressão. Nesse sentido, assim como os adultos, adolescentes podem recorrer à comida como uma forma de lidar com emoções difíceis, como ansiedade, tristeza, tédio ou estresse23-25. Esse comportamento pode proporcionar um alívio emocional temporário, contribuindo para padrões alimentares desregulados. A fome emocional, descrita por Lo Coco et al. (2014)25, destaca que os adolescentes podem confundir fome emocional com fome física, levando-os a comer automaticamente em resposta a certas situações ou emoções, mesmo na ausência de necessidade fisiológica. Outro fator relevante envolve aspectos ambientais e culturais. O ambiente em que os adolescentes vivem e as influências culturais ao seu redor desempenham um papel fundamental. Quando alimentos não saudáveis são promovidos como recompensa, celebração ou conforto no contexto familiar e social, os adolescentes tendem a desenvolver padrões de alimentação impulsivos26.
Por fim, a falta de consciência sobre nutrição também contribui para esse cenário. Muitos adolescentes não compreendem plenamente os efeitos negativos do consumo excessivo de alimentos não saudáveis e desconhecem os impactos a longo prazo, como ganho de peso, problemas cardiovasculares e aumento do risco de doenças crônicas27. Essa lacuna no conhecimento nutricional reforça a necessidade de intervenções educativas eficazes para promover escolhas alimentares mais saudáveis entre os jovens.
É importante que os adolescentes tenham acesso à educação nutricional e aprendam habilidades para lidar com emoções de maneiras saudáveis, além de terem acesso a alimentos nutritivos e opções de lanches saudáveis. Ademais, incentivar um ambiente familiar e social que promova hábitos alimentares saudáveis e conscientização sobre o consumo de alimentos pode ajudar a reduzir o comportamento impulsivo de comer28.
Os achados deste estudo, apesar da amostra reduzida, corroboram a literatura existente ao evidenciar que a obesidade na adolescência está associada a um impacto negativo na qualidade de vida, especialmente nos domínios emocional e psicossocial. Observamos que limitações nos aspectos emocionais podem comprometer o desenvolvimento de habilidades de enfrentamento, autonomia e autoeficácia, além de potencializar os efeitos do estigma social e da pressão por conformidade aos padrões estéticos vigentes.
A literatura recente destaca a necessidade de abordagens interdisciplinares para o manejo da obesidade juvenil, com estratégias que integrem intervenções educacionais, incentivo à prática regular de atividade física, suporte psicológico e conscientização sobre imagem corporal e saúde mental. Nesse contexto, o ambiente escolar surge como um espaço essencial para a implementação de programas preventivos e de promoção da saúde, visando não apenas à modificação de hábitos alimentares e comportamentais, mas também ao fortalecimento do bem-estar emocional dos adolescentes. Dessa forma, reforçamos a importância de estratégias baseadas em evidências para mitigar os impactos da obesidade na adolescência e melhorar a qualidade de vida dessa população a longo prazo. Estudos futuros com amostras mais amplas e delineamentos longitudinais são necessários para aprofundar o entendimento dessas relações e avaliar a efetividade de diferentes abordagens interventivas.
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Data de Recebimento: 17/02/2025
Data de Aprovação: 28/03/2025
Data de Publicação: 17/06/2026