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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Hemangioma congênito rapidamente involutivo: um relato de caso

Rapidly involuting congenital hemangioma: a case report

Ticiane Yukie Takata1; Jéssica Saab2; Gisele Douradinho Teixeira3; Bruno Augusto Alvares2,4

RESUMO

INTRODUÇÃO: O hemangioma congênito é neoplasia vascular benigna infrequente, relacionado com mutações dos genes GNAQ e GNA11. Seu desenvolvimento ocorre intraútero, estando, portanto, presente ao nascimento. A depender de seu comportamento clínico, pode ser classificado em rapidamente involutivo, não involutivo e parcialmente involutivo.
RELATO DE CASO: Recém-nascido, 25 dias de vida, exibindo nódulo cervical à esquerda, desde o nascimento, de coloração esverdeada associada a telangiectasias. Não houve crescimento da lesão entre o nascimento e avaliação dermatológica. Realizado ultrassom de partes moles no primeiro dia de vida com diagnóstico de hemangioma.
DISCUSSÃO: Os hemangiomas congênitos rapidamente involutivos geralmente se apresentam como lesões únicas, podendo estar associados ou não a outras lesões vasculares em órgãos sólidos. O diagnóstico é eminentemente clínico, podendo ser complementado com avaliação ultrassonográfica. Sua regressão ocorre espontaneamente entre 6 e 14 meses; sendo assim, a conduta expectante está indicada na maioria dos casos.

Palavras-chave: Hemangioma; Anormalidades congênitas; Pediatria; Dermatologia

Abstract

INTRODUCTION: Congenital hemangioma is an uncommon benign vascular neoplasm related to mutations of the GNAQ and GNA11 genes. It develops intrauterinely and is therefore present at birth. Depending on its clinical behavior, it can be classified as rapidly involuting, non-involuting and partially involuting.
CASE REPORT: Newborn, 25 days old, exhibiting a greenish cervical nodule on the left since birth, associated with telangiectasia. There was no growth of the lesion between birth and dermatological evaluation. A soft tissue ultrasound was performed on the first day of life and a diagnosis of hemangioma was made.
DISCUSSION: Rapidly involuting congenital hemangiomas usually present as single lesions, which may or may not be associated with other vascular lesions in solid organs. The diagnosis is predominantly clinical and can be complemented by ultrasound evaluation. Their regression occurs spontaneously between 6 and 14 months, for that reason expectant management is indicated in most cases.

Keywords: Hemangioma; Congenital abnormalities; Pediatrics; Dermatology

INTRODUÇÃO

As anormalidades vasculares na pediatria podem ser congênitas ou aparecer durante a infância, sendo classificadas em neoplasias ou malformações vasculares. A maioria das anormalidades vasculares é de caráter benigno, mas pode apresentar morbidade significativa. Dentre as anormalidades vasculares, o hemangioma infantil destaca-se como o mais frequente, apresentando também sua variante congênita denominada hemangioma congênito (HC)1.

O HC é raro (0,3%) e não apresenta predileção por sexo2. Desenvolve-se no útero materno e está presente ao nascimento. Normalmente, manifesta-se como lesão única, localizada nas extremidades, cabeça ou pescoço. São descritos três tipos de HC: rapidamente involutivo (RICH), não involutivo (NICH) e parcialmente involutivo (PICH)1.

As principais características do HC incluem lesão única, bem delimitada, eritemato-violácea, com telangiectasias na superfície da pele, circundada por halo pálido. Pode apresentar-se como massa violácea elevada de tecidos moles, com veias periféricas proeminentes, ou como massa de tecido amolecido2.

O objetivo deste estudo é relatar um caso de HC, suas características clínicas, a importância do diagnóstico preciso, suas possíveis repercussões sistêmicas e a terapêutica.

 

RELATO DE CASO

Recém-nascido do sexo masculino, com 25 dias de vida, encaminhado ao ambulatório de dermatologia pediátrica devido à lesão nodular cervical esquerda presente desde o nascimento. Na primeira consulta com o dermatologista, foi observado nódulo de consistência fibroelástica, ovalado, bem delimitado, com coloração discretamente esverdeada, halo pálido ao redor da lesão e presença de telangiectasias na superfície da área afetada, medindo cerca de 1,8 x 1,0 cm, localizado na região cervical anterior esquerda (Figura 1).

 

 

Foi solicitado ultrassom de partes moles para melhor caracterização da lesão cervical, bem como ultrassom de abdome total.

O paciente retornou com 1 mês e 14 dias para nova avaliação e verificação do resultado do ultrassom. Clinicamente, a lesão cervical apresentava discreta regressão do tamanho, mantendo as características observadas na primeira avaliação. O ultrassom identificou lesão hipoecoica acometendo derme e hipoderme, formada por vasos, com limites precisos e intenso fluxo ao Doppler, sugerindo como diagnósticos possíveis hemangioma ou malformação vascular como diagnóstico diferencial. O ultrassom de abdome não identificou alterações. A principal hipótese diagnóstica foi hemangioma congênito, optando-se por conduta expectante.

Aos 3 meses e 11 dias de idade, o paciente retornou com redução significativa da lesão, medindo 0,8 x 0,8 cm, mantendo coloração discretamente esverdeada e telangiectasias na superfície. Diante da regressão significativa, manteve-se o diagnóstico de hemangioma congênito, classificado nesse momento como do tipo rapidamente involutivo.

Com 5 meses e 14 dias, o paciente retornou com regressão completa da lesão, sendo possível notar apenas discretas telangiectasias na área previamente afetada (Figura 2).

 

 

DISCUSSÃO

Há um crescente corpo de evidências indicando que a maioria, se não todos, os HCs, independentemente de sua taxa de involução (rápida, não involutiva ou parcialmente involutiva), pode ser atribuída a mutações ativadoras somáticas nos genes GNAQ e GNA11. Isso indica que RICH, NICH e PICH devem ser considerados como um espectro de doença, e não como entidades distintas3.

Pacientes com RICH quase sempre apresentam lesão cutânea única, presente ao nascimento, como no caso relatado. O tamanho da lesão pode variar de poucos centímetros até mais de 10 cm. Diferentes apresentações clínicas são descritas na literatura: massa elevada de tecido mole, violácea, com vasos periféricos proeminentes; massa elevada de tecido subcutâneo com telangiectasias sobrejacentes associadas a halo pálido perilesional4,5. Outras variantes menos frequentes incluem tumor róseo-violáceo localizado na derme profunda, tumor vascular exofítico com ulceração central e tumor vascular com pústulas sobrejacentes6,7.

O diagnóstico é fundamentalmente clínico, sendo a lesão reconhecida ao nascimento na maioria dos casos. Quando há dúvida diagnóstica, a ultrassonografia de partes moles é o exame de primeira linha. Os HCs exibem, ao ultrassom, estruturas heterogêneas, vascularização difusa, alta densidade vascular e, ocasionalmente, calcificações. Ao estudo Doppler, trata-se de lesão de alto fluxo vascular8,9. Alguns casos podem ser diagnosticados ainda intraútero, por meio de ultrassonografia no segundo ou terceiro trimestre de gestação10.

Conforme a International Society for the Study of Vascular Anomalies (ISSVA), o RICH é classificado como tumor vascular benigno11. Apesar de sua benignidade, pode estar associado a hemangiomas em outros órgãos, especialmente no fígado, e a complicações raras, como trombocitopenia12, coagulopatia12 e insuficiência cardíaca13,14. Complicações como ulceração e sangramento também podem ocorrer, sobretudo em lesões de maior diâmetro. Diante disso, ressalta-se a importância do diagnóstico adequado.

A regressão do RICH inicia-se logo após o nascimento, ocorrendo regressão completa entre 6 e 14 meses de vida2. Essa involução pode resultar em áreas de atrofia, alterações na coloração e na textura da pele, alopecia, cicatrizes e telangiectasias persistentes. Em casos raros, a involução pode ocorrer ainda no período intrauterino15.

Por se tratar de condição autolimitada, com regressão espontânea, a conduta expectante é indicada para pacientes com RICH. Diferentemente do hemangioma infantil, o RICH não apresenta fase proliferativa ativa após o nascimento, de modo que o uso de betabloqueadores, como o propranolol, não é eficaz. Lesões de maior diâmetro, associadas a alterações funcionais ou concomitantes a lesões hepáticas, devem ser acompanhadas por equipe multidisciplinar.

A identificação do HC e o conhecimento de seu comportamento são fundamentais para que exames diagnósticos apropriados sejam solicitados para confirmação diagnóstica, bem como para evitar intervenções médicas desnecessárias.

 

REFERÊNCIAS

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2. Briones M, Adams D. Neonatal vascular tumors. Clin Perinatol. 2021;48(1):181-98. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.clp.2020.11.011

3.Ayturk UM, Couto JA, Hann S, Mulliken JB, Williams KL, Huang AY, et al. Somatic activating mutations in GNAQ and GNA11 are associated with congenital hemangioma. Am J Hum Genet. 2016;98(4):789-95. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.ajhg.2016.03.009

4. Mulliken JB, Bischoff J, Kozakewich HPW. Multifocal rapidly involuting congenital hemangioma: a link to chorangioma. Am J Med Genet A. 2007;143A(24):3038-46. DOI: http://www.doi.org/10.1002/ajmg.a.31964

5. Blumenthal S, Stefanko N, Cossio ML, Coulombe J, McCuaig C, Dubois J, et al. Multifocal congenital hemangioma: expanding the pathogenesis of “neonatal hemangiomatosis.” Pediatr Dermatol. 2019;36(5):720-2. DOI: http://www.doi.org/10.1111/pde.13814

6. Vildy S, Macher J, Abasq-Thomas C, Le Rouzic-Dartoy C, Brunelle F, Hamel-Teillac D, et al. Life-threatening hemorrhaging in neonatal ulcerated congenital hemangioma: two case reports. JAMA Dermatol. 2015;151(4):422-5. DOI: http://www.doi.org/10.1001/jamadermatol.2014.3666

7. Hughes R, McAleer M, Watson R, Collins S, Irvine A, White M. Rapidly involuting congenital hemangioma with pustules: two cases. Pediatr Dermatol. 2014;31(3):398-400. DOI: http://www.doi.org/10.1111/pde.12309

8. Esposito F, D’Auria D, Ferrara D, Esposito P, Gaglione G, Zeccolini M, et al. Hepatic hemangiomas in childhood: the spectrum of radiologic findings. A pictorial essay. J Ultrasound. 2023;26(1):261-76. DOI: http://www.doi.org/10.1007/s40477-022-00714-y

9. Lee PW, Frieden IJ, Streicher JL, McCalmont T, Haggstrom AN. Characteristics of noninvoluting congenital hemangioma: a retrospective review. J Am Acad Dermatol. 2014;70(5):899-903. DOI: http://www.doi.org/10.1016/j.jaad.2014.01.860

10. Liao M, He B, Xiao Z, Wang L, Chen Y, Liu X, et al. Prenatal ultrasound evaluation of fetal cutaneous hemangioma and related complications. J Matern Fetal Neonatal Med. 2023;36(1). DOI: http://www.doi.org/10.1080/14767058.2022.2157257

11. International Society for the Study of Vascular Anomalies (ISSVA). ISSVA classification for vascular anomalies [Internet]. [Citado 11 01 2005]. Available from: https://www.issva.org/classification

12. Baselga E, Cordisco MR, Garzon M, Lee MT, Alomar A, Blei F. Rapidly involuting congenital haemangioma associated with transient thrombocytopenia and coagulopathy: a case series. Br J Dermatol. 2008;158(6):1363-70. DOI: http://www.doi.org/10.1111/j.1365-2133.2008.08546.x

13. Weitz NA, Lauren CT, Starc TJ, Kandel JJ, Bateman DA, Morel KD, et al. Congenital cutaneous hemangioma causing cardiac failure: a case report and review of the literature. Pediatr Dermatol. 2013;30(6). DOI: http://www.doi.org/10.1111/j.1525-1470.2012.01875.x

14. Braun V, Prey S, Gurioli C, Boralevi F, Taieb A, Grenier N, et al. Congenital haemangiomas: a single-centre retrospective review. BMJ Paediatr Open. 2020;4(1):e000816. DOI: http://www.doi.org/10.1136/bmjpo-2020-000816

15. Ozcan UA. Rapidly involuting congenital hemangioma: a case of complete prenatal involution. J Clin Ultrasound. 2010;38(2):85-8. DOI: http://www.doi.org/10.1002/jcu.20647

Data de Recebimento: 13/03/2025

Data de Aprovação: 06/10/2025

Data de Publicação: 17/06/2026

Sobre os autores

1 Faculdade de Ciências da Saúde de Barretos (FACISB), Medicina - Barretos - São Paulo - Brasil.

2 Santa Casa de Misericórdia de Barretos, Dermatologia - Barretos - São Paulo - Brasil.

3 Faculdade de Ciências da Saúde de Barretos (FACISB), Pediatria - Barretos - São Paulo - Brasil.

4 Faculdade de Ciências da Saúde de Barretos (FACISB), Clínica Médica - Barretos - São Paulo - Brasil.

Endereço para correspondência

Jéssica Saab
Instituto de Santa Casa de Misericórdia de Barretos.
Av. Vinte e Três, 1208 - Centro, Barretos - SP, Brasil. Cep: 14780-320.
E-mail: jessica_js15@hotmail.com

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Como citar este artigo:

Takata, TY, Saab, J, Teixeira, GD, Alvares, BA. Hemangioma congênito rapidamente involutivo: um relato de caso. Resid Pediatr. 16(1):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1454

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