INTRODUÇÃO
A cardiopatia congênita é uma malformação estrutural do coração e dos grandes vasos com consequências funcionais. Representa aproximadamente 40% de todos os defeitos congênitos1. Os defeitos cardíacos podem ocorrer por alterações do desenvolvimento embrionário ou não se desenvolver completamente2. Segundo o Ministério da Saúde, 1% dos nascidos vivos será portador de cardiopatias congênitas (estimando 29 mil o número de crianças cardiopatas/anos), e cerca de 6% destas crianças irão a óbito no primeiro ano de vida. Além disso, nos casos graves, 30% dos óbitos a terão como causa3.
Nas internações hospitalares, o tempo de permanência na UTI foi, em média, de 16 dias. Esse tempo pode variar, dependendo da quantidade de anomalias e a gravidade de cada caso2.
A investigação e o diagnóstico precoce são necessários para prevenir complicações como parada cardíaca, choque ou agravo neurológico4. Diante de uma suspeita de doença cardíaca congênita, após anamnese e exame físico, é fundamental solicitar exames complementares. Primeiramente, os exames laboratoriais, seguidos dos radiográficos, eletrocardiograma e o ecocardiograma5.
Para o estabelecimento de uma linha de cuidados, desde o período pré-natal, ressalta-se a importância da triagem com a ultrassonografia e ecocardiograma fetal e ecocardiograma do recém-nascido na triagem pré e neonatal respectivamente4. O artigo 2º da Portaria do Ministério da Saúde de 2017 estrutura o Plano Nacional de Assistência à Criança com Cardiopatia Congênita em eixos: diagnóstico pré-natal; diagnóstico no período neonatal; transporte seguro de recém-nascidos e crianças cardiopatas; assistência cirúrgica; e assistência multidisciplinar para orientar a organização da assistência à criança com cardiopatia congênita6.
A ecocardiografia dos dias atuais teve origem na teoria do som de Lorde Rayleigh. O estudo do cientista foi utilizado durante a Primeira Guerra Mundial, para navegação submarina e para fins não militares na indústria siderúrgica. O uso inicial do exame de imagem na medicina é creditado aos pioneiros e médicos Dorothy Howry e Douglas Howry, que primeiramente desenvolveram o exame em uma banheira d’água e, após, criaram o método utilizado até hoje — o uso de gel eletrocondutor7. Egas Armelin, em 1974, importou o primeiro ecocardiógrafo para o Brasil, ao Hospital da Beneficência Portuguesa em São Paulo8.
Atualmente, a ecocollordopllercardiograma transtorácica é uma técnica de imagem largamente propagada, que avalia aspectos anatômicos minuciosos do coração e fisiológico9; além disso, concede subsídios hemodinâmicos —estimativa de pressão pulmonar e avaliação da função ventricular10. É um exame essencial para avaliação inicial e diagnóstico das cardiopatias congênitas11.
O exame ecocardiográfico é composto pelos seguintes elementos que agregam: o ecocardiograma uni e bidimensional, Doppler espectral pulsátil e contínuo e o mapeamento do fluxo em cores. Todos são modalidades necessárias para a formulação do diagnóstico e estão presentes nos procedimentos disponíveis de ecocardiografia transtorácica e transesofágica, sob estresse, com contraste, fetal, intraoperatória e intracardíaca12.
Assim, reconhecer o perfil das crianças internadas com cardiopatia, o tipo mais prevalente atualmente, proceder com exames menos invasivos — como o ECO TT, padrão-ouro no diagnóstico de doença cardíaca —, reduz complicações e internações prolongadas. Além disso, o ECO-TT é essencial para o acompanhamento das crianças cardiopatas, pois direciona uma conduta resolutiva e imediata, com redução da morbimortalidade. Portanto, o objetivo deste estudo é analisar as internações hospitalares no SUS por cardiopatias congênitas, assim como o número de ecocardiograma transtorácico (ECO TT) realizados no período de 2015 a 2023, no Município de São Paulo.
MÉTODOS
O estudo desenvolvido é uma análise epidemiológica, retrospectiva, com uma abordagem quantitativa e descritiva através de análise estatística.
A coleta foi realizada em banco de dados com informações provenientes do DATASUS (Tabnet), correspondente ao período de 2015-2023 no Município de São Paulo. Foram feitas buscas em bancos de dados da Biblioteca Virtual da Saúde, SciELO, PubMed e livros. O critério de inclusão foi crianças menores de 1 ano de idade com diagnóstico de cardiopatia.
A população do estudo compreende um total de 8.279 internações hospitalares por Cardiopatia Congênita em crianças menores de 1 ano, equivalente ao período de 2015-2023. A pesquisa foi realizada em três etapas e finalizada com análise estatística. Na primeira etapa, foram realizados levantamento, cruzamento e seleção dados no sistema Tabnet/DATASUS. Na segunda etapa, foram feitas as análises de registros: internações hospitalares por cardiopatias congênitas, verificação de acordo com a Classificação Estatística Internacional-10 (CID10) dos diagnósticos principais: Q20, Q21, Q22, Q23, Q24 e Q25. Após, foram associadas as variáveis sexo e cor/raça.
Em seguida, foram analisados os procedimentos ambulatoriais de ecocardiograma transtorácico em crianças menores de 1 ano, mesmo período das internações. Na terceira e última etapa, todos os registros foram encaminhados para análise estatística e aplicado teste Qui-quadrado para tabelas de contingência e teste do Qui-quadrado para uma amostra13, na sequência foram confeccionados tabelas e gráficos.
RESULTADOS
Foram analisados os registros nas internações hospitalares e os principais diagnósticos em menores de 1 ano de idade. Em conformidade com a Classificação Internacional de Doenças - CID10, são: Q20: Malformação congênita das câmaras e comunicações cardíacas; Q21: Malformações congênitas dos septos cardíacos; Q22: Malformações congênitas valvas pulmonares tricúspide; Q23: Malformações congênitas valvas aórtica e mitral; Q24: Outras malformações congênitas do coração; Q25: Malformações congênitas das grandes artérias14.
Os nascidos vivos (NV) no Município de São Paulo nos últimos 9 anos (2015-2023) foram 1.381.412. Já o total de internações por CC, de acordo com os diagnósticos especificados, foram de 8.279 (0,59% dos NV) durante o mesmo período. Desses, os CIDs-10 das malformações congênitas verificam-se: Q20 = 763 das internações hospitalares, que correspondem a 9,21%; Q21= 3.354 com 40,51%; Q22 = 882 com 10,65%; Q23 = 680 com 8,21%; Q24 = 796 com 9,61% e Q25 = 1.804 representam 21,79% dos casos de internações hospitalares, com p<0,0001 (Tabela 1 e Gráfico 1).


No Município de São Paulo, os ecocardiogramas transtorácico, independentemente da idade, correspondente ao período de 2015 a 2023, foram o total de 2.038.852, no intervalo de 9 anos. O ano de 2015 compreende n= 196.248 (9,62%) dos procedimentos, 2016 com n= 210.754 (10,33%); 2017 n= 233.774 (11,46%); 2018 com n= 240.750 (11,80%); 2019 com n= 229.228 (11,24%); 2020 com n= 154.277 (7,56%); 2021 com n= 223.139 (10,94%); 2022 com n= 252.508 (12,38%) e 2023 com n= 298.174 (14,62%).
O ano de 2023, apresenta maior percentual de procedimentos aprovados, entre os períodos, e 2020 a menor taxa. No teste qui-quadrado para uma amostra, X2=54703,44 e p<0,0001.
O ECO TT em <1 ano de idade no Município de São Paulo teve um total de 32.009. O ano de 2015 com (9,72%); 2016 (8,45%); 2017 (9,25%); 2018 (10,09%); 2019 (12,24%); 2020 (9,48%); 2021 (13,28%); 2022 (13,14%) e 2023 (14,31%), esse último apresenta maior número de procedimentos, p<0,0001 (0,01%), (Tabela 2 e Gráfico 2).


Relativamente à variável sexo, observou-se uma ligeira prevalência do sexo masculino, que representou 51,55% (n=4.268) do total de 8.279 internações por cardiopatias congénitas, enquanto o sexo feminino correspondeu a 48,44% (n=4.011).
Detalhadamente, em cada diagnóstico/CID10, o Q20: n= 452 (59,23%) e n= 311 (40,76%) correspondem ao sexo masculino e feminino, respectivamente. Q21: n=1668 (49,73%), masculino, e n= 1686 (50,26%), feminino. Q22: n= 434 (49,20%), masculino, e n= 448 (50,79%), feminino. Q23: ambos n= 340 (50%) masculino e feminino. Q24: n= 399 (50,12%), masculino, e n= 397 (49,87%), feminino. Q25: n= 975 (54,04%), masculino, e n= 829 (45,95%), feminino. No teste qui-quadrado, X2=30.25 e P<0.0001.
Na variável cor/raça, do total de internações por cardiopatias, 8.279 casos ocorreram em menores de 1 ano de idade, 5.446 (65,78%) apresentavam cor branca, 378 (4,56%) cor preta, 1.386 (16,74%) cor parda, 31 (0,37%) amarela, 2 (0,05%) indígena, 1.036 (12,51%) sem informação.
Especificamente, o Q20 - 67,88% para cor branca, 4,06% preta, 16,38% parda, 0,39% amarela, indígena não houve caso, 11,27% sem informação. Q21 – 66,99% para cor branca, 3,48% preta, 17,32% parda, 0,41% amarela, indígena não houve caso, 11,77% sem informação. Q22 – 70,97% para cor branca, 4,98% preto, 12,35% parda, 0,22% amarelo, 0,11% indígena, 11,33% sem informação. Q23 – 75, 29% para cor branca, 7,20% preta, 10,29% parda, 0,58% amarela, indígena não houve caso, 6,61% sem informação. Q24 – 44,84% para cor branca, 4,39% preta, 26% parda, 0,12% amarela, indígena não houve caso, 24,62% sem informação.
Já a última classificação, o Q25 – 65,74% para cor branca, 5,65% preta, 16,29% parda, 0,38% amarela, 0,05% indígena, 11,86% sem informação. A variável cor/raça foi submetida ao teste qui-quadrado X2=278,91 e P<0.0001.
DISCUSSÃO
O boletim epidemiológico analisou a situação das anomalias congênitas no Brasil entre os anos de 2010 e 2021, as cardiopatias congênitas encontram-se em segundo lugar de anomalias mais prevalentes nesse período (11/10.000 nascidos vivos), no Estado do Amapá (2/10.000 nascidos vivos) e em São Paulo (35/10.000 nascidos vivos). Dentre as regiões do país, a Região Sudeste evidenciou como prevalente as cardiopatias congênitas15.
Neste estudo, observa-se que, significantemente, o maior número dos casos de internações hospitalares foi por malformações congênitas dos septos cardíacos, Q21 (40,51%). De acordo com a Classificação Internacional de Doenças – CID 10, o Q21 compreende: Comunicação interventricular - CIV (Q21.0), Comunicação interatrial - CIA (Q21.1), Comunicação atrioventricular/Defeito do septo átrio ventricular - DSAV (Q21.2), Tetralogia de Fallot – T4F (Q21.3), Comunicação aortopulmonar (Q21.4), outras malformações congênitas dos septos cardíacos (Q21.8), Malformação congênita não especificada de septo cardíaco (Q21.9)14.
Em um estudo sobre crianças hospitalizas por cardiopatia congênita, os diagnósticos mais observados foram as comunicações septais – CIV e CIA16. Outras pesquisas, de caráter descritivo sobre mortalidade, apontam que as malformações do aparelho circulatório são mais notáveis nos primeiros anos de vida17,18. Dentre a principais cardiopatias no período neonatal, encontram-se as dependentes do canal arterial19-20.
A importância do cuidado à criança com cardiopatia congênita de forma integral inicia-se desde a atenção ao pré-natal, pós-natal e seguimento6, isto é, considerando a realização de triagens pré e neonatal, assim como o acompanhamento (ultrassonografia e ecocardiografia fetal, teste do coraçãozinho/oximetria de pulso, ecocardiograma do recém-nascido)4. O diagnóstico durante o período fetal, possibilita o nascimento em hospital com estrutura e equipe especializada.
A ecocardiografia é um método de diagnóstico, necessário para rastreamento de cardiopatias congênitas críticas, a depender da modalidade, pode ser realizado no pré ou pós-natal10. Neste estudo, houve um aumento no intervalo de 9 anos dos ECO TT no Município de São Paulo, de forma geral, em crianças menores de 1 ano, exceto em 2020.
O desenvolvimento e a disseminação da ecocardiografia têm auxiliado o diagnóstico das cardiopatias congénitas (CC); contudo, a taxa de sobrevivência pós-natal permanece reduzida10. Com relação ao aspecto tecnológico, esta pesquisa colabora com o avanço técnico, pois o aumento de ECO TT pode ocorrer por melhorias de acessos aos serviços, políticas implementadas e atualizações na atenção à saúde e recursos humanos capacitados. Mas, apesar dos benefícios citados, ainda existe uma distância da condição ideal.
Para ambos os grupos, tanto os procedimentos de ECO TT, de forma geral, como para as crianças menores de 1 ano, o decréscimo no ano de 2020 coincide com o período de início da pandemia da Covid-19. Nesse período, o acesso ao serviço de saúde não relacionado à Covid-19 — avaliação médica e procedimentos/exames — foi reduzido por temor ao risco de infecção e disseminação do vírus21, o que pode ser visto em todo Brasil.
Na variável relacionada ao sexo, observa-se, nesta pesquisa, um predomínio do sexo masculino, principalmente, com diagnóstico Q20 e Q25, do sexo feminino em Q22, já os CIDs Q21, Q23 e Q24 em ambos os sexos. Em um estudo descritivo e transversal, em crianças com CC entre 5 e 13 anos, 53,8% eram do sexo feminino, neste mesmo estudo, o diagnóstico ocorreu com idade inferior a 6 meses22. Em outra pesquisa, o sexo masculino representou 52,09% dos nascidos vivos com CC23.
Neste estudo, com relação à variável cor/raça, observa-se um predomínio da cor/raça branca nas internações hospitalares em pacientes cardiopatas menores de 1 ano de idade. Pesquisa de caráter epidemiológico de nascidos vivos com CC, a cor branca teve destaque, correspondendo a 51,71%22, em consonância com este estudo.
As cardiopatias congênitas são as principais causas de internações hospitalares e mortalidade em crianças menores de um ano. Este estudo conclui que as internações hospitalares nos cardiopatas congênitos, no intervalo de 9 anos, tiveram como principal diagnóstico o CID Q21 (CIV, CIA, DSAV, T4F, Comunicação aortopulmonar, outras Malformações congênitas dos septos cardíacos, Malformação congênita não especificada de septo cardíaco). Com relação às variáveis sexo e cor/raça, houve predomínio do sexo masculino, diferenciando de acordo com o CID10, e cor branca.
Além disso, os procedimentos de Ecocardiograma Transtorácico, durante o mesmo intervalo, tiveram um aumento, exceto no ano de 2020. Esse aumento pode ser explicado pelos avanços tecnológicos na área, acesso aos serviços, políticas implementadas e atualizações na atenção à saúde e recursos humanos capacitados. Porém, ainda existe uma distância da condição ideal, dada a importância do exame ECO TT para o diagnóstico da CC. Já o ano de 2020 representou uma exceção devido ao início da pandemia da Covid-19. Portanto, há necessidade contínua de desenvolvimento em pesquisas de perfil epidemiológico em CC.
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Data de Recebimento: 15/03/2025
Data de Aprovação: 16/09/2025
Data de Publicação: 17/06/2026