O suicídio entre adolescentes tem crescido de forma alarmante nos últimos anos, sendo fundamental na formação do pediatra geral a detecção de fatores de risco e de estratégias de prevenção. Esta revisão sistemática1 analisou 97 estudos randomizados e controlados e 30 estudos epidemiológicos. O foco do artigo é identificar métodos de prevenção para comportamento suicida que sejam estratégias replicáveis e passíveis de implementação em larga escala para políticas públicas. O risco de suicídio pode ser compreendido por meio do modelo diátese-estresse, no qual se observa como provável ponto de partida um estressor interno, em geral um transtorno psiquiátrico. A diátese envolve uma combinação de fatores: percepção exacerbada de sofrimento psíquico, maior propensão a decisões influenciadas pela emoção, dificuldades no aprendizado e na capacidade de resolução de problemas e uma cognição social com hipersensibilidade a sinais sociais negativos. Uso de álcool e substâncias ilícitas também influenciam o risco estimado no modelo, pelo impacto no humor e/ou pela desinibição. As estratégias de prevenção descritas atuam nas diferentes etapas do modelo (figura 1).

Podem-se listar entre as intervenções efetivas:
- Educação de médicos não psiquiatras e profissionais da atenção primária: treinamento direcionado a rastreio, diagnóstico e tratamento do transtorno depressivo maior.
- Psicoeducação para adolescentes e jovens adultos: ensino sobre saúde mental, depressão e comportamento suicida mostrou-se significativamente efetivo quando aplicado em ambiente escolar para alunos do ensino médio.
- Busca ativa e seguimento de rotina após tentativa de suicídio ou crise suicida: considera-se o período de maior risco de comportamento suicida aquele após alta da emergência ou internação por suicidalidade aguda, com 80% das mortes por suicídio ocorrendo no primeiro ano após tentativa não fatal. Observou-se prevenção efetiva com seguimentos tão simples quanto o envio de cartões postais; também constatada com busca ativa via ligações telefônicas visando à maior adesão ao tratamento pós-alta.
- Terapia farmacológica: antidepressivos parecem reduzir mais consistentemente ideação suicida do que comportamento suicida, tendo resultados frequentemente contraditórios e variáveis com a faixa etária. Uma revisão de ensaios clínicos randomizados de 2005 mostrou associação entre inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) e aumento em tentativas de suicídio na população pediátrica. No entanto, a maioria dos estudos posteriores mostraram maiores benefícios do que riscos nos ISRS, inclusive para prevenção de comportamento suicida, nas faixas etárias pediátrica e adulta.
- Psicoterapia: terapia cognitivo comportamental (TCC), com a proposta de melhorar estratégias de enfrentamento ante a estressores e situações gatilho, mostrou-se efetiva em reduzir o risco de comportamento suicida em adultos e adolescentes com depressão.
- Restrição a meios disponíveis e altamente letais: acesso restrito a armas de fogo — usadas em metade dos suicídios nos Estados Unidos e cujo porte apresenta forte associação com suicídios por arma de fogo — reduziu significativamente a taxa de suicídios em diferentes países. Além disso, agrotóxicos são usados em um terço dos suicídios no mundo, mais comumente na Ásia e América Latina rurais, tendo-se visto redução efetiva nas mortes por suicídio com a aplicação de produtos de menor toxicidade pela indústria e com armazenamento trancado dos químicos.
REFERÊNCIA
1. Mann JJ, Michel CA, Auerbach RP. Improving Suicide Prevention Through Evidence-Based Strategies: A Systematic Review. Am J Psychiatry. 2021 Jul;178(7):611-24. DOI: https://doi.org/10.1176/appi.ajp.2020.20060864.
Data de Recebimento: 18/03/2025
Data de Aprovação: 24/03/2025
Data de Publicação: 17/06/2026