INTRODUÇÃO
A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium tuberculosis, transmitida por aerossóis respiratórios1. O paciente acometido pela TB pode apresentar-se com tosse seca ou produtiva, febre vespertina, sudorese noturna e emagrecimento2. Embora o acometimento pulmonar represente aproximadamente 85% dos casos, a TB extrapulmonar também pode ocorrer, especialmente em imunocomprometidos3.
Em 2022, a Organização Mundial da Saúde estimou 1,3 milhão de casos de tuberculose em crianças menores de 15 anos, com mortalidade de aproximadamente 16% nessa faixa etária4. No Brasil, em 2023, foram registrados cerca de 2.880 casos em crianças e adolescentes, com aumento da incidência em menores de 15 anos desde 20201. Apesar de ser um importante problema de saúde pública, a tuberculose pediátrica passou a receber maior atenção apenas recentemente, com foco em estratégias de prevenção e cuidado5.
Ademais, o acometimento pediátrico da TB é frequentemente subestimado devido às dificuldades diagnósticas associadas à forma paucibacilar, que apresenta baixa positividade nos exames laboratoriais6. Nesse contexto, o presente estudo descreve um caso de tuberculose pulmonar bacilífera em um adolescente no município de Blumenau (SC), destacando a relevância do diagnóstico e tratamento precoces. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da FURB (CAAE: 84450624.1.0000.5370).
RELATO DE CASO
Paciente do sexo masculino, 13 anos, encaminhado ao Centro Especializado em Diagnóstico, Assistência e Prevenção (CEDAP) após imagem sugestiva de TB pulmonar. Durante a internação hospitalar, não foi possível obter amostra adequada de escarro para baciloscopia. Em maio de 2024, iniciou febre de múltiplos episódios diários, perda ponderal de aproximadamente 2kg e tosse seca contínua. Recebeu tratamento empírico com amoxicilina, amoxicilina + clavulanato e ceftriaxona por 5 dias, sem resposta clínica. Radiografia de tórax em 14/05/2024 evidenciou condensação em lobo inferior direito, sem outras alterações. Em 25/06/2024, novo exame mostrou progressão com condensações em lobo superior esquerdo, lobo inferior direito e lobo inferior esquerdo. Em 15/07/2024, verificaram-se condensações adicionais em terço médio do pulmão esquerdo e base pulmonar direita, além de cavitações (Figura 1).

Em 31/07/2024, procurou atendimento na atenção secundária devido à piora clínica e progressão radiológica, sendo referenciado para o hospital. Foi internado de 31/07/2024 a 02/08/2024, mantendo febre e tosse durante a internação. Na admissão, tomografia computadorizada (TC) de tórax mostrou opacidades nodulares centrolobulares, difusas e bilaterais, áreas de consolidação pulmonar com broncogramas aéreos e vidro fosco adjacente, mais evidentes no lobo superior esquerdo, sugestivos de processo inflamatório/infeccioso (Figura 2). Apresentou anti-HIV negativo, discreta leucocitose e PCR >170.

Em 05/08/24, consultou com pediatra no CEDAP, referindo sudorese noturna, produção de escarro e piora noturna dos sintomas. Faz uso de broncodilatadores B2 de curta duração para asma e bronquite. Vacinação em dia, exceto Influenza 2024. Mãe com tosse crônica, distinta da do filho. Nega outros contatos sintomáticos. Ao exame, sibilos em ápice direito, estertores crepitantes em base direita e esquerda, som maciço em lobo inferior esquerdo. Apresentou 35 pontos no escore do Ministério da Saúde. Solicitados PPD, coleta de escarro da criança e dos pais e iniciado RHZE supervisionado, com isolamento e notificação ao SINAN.
Em 08/08/24, retornou com PPD não reator, apenas hiperemia, e BAAR positivo. Manteve BAAR positivo em 06/09/24 e negativou primeira baciloscopia em 01/10/24. Em 07/10/24, foi reavaliado, sem febre há 7 dias, com ganho ponderal de 1kg e melhora radiológica (Figura 3).

DISCUSSÃO
O caso contempla um adolescente com sintomas respiratórios persistentes, perda ponderal e imagem radiológica compatível com tuberculose pulmonar, quadro clínico típico para a faixa etária. Em adolescentes, a apresentação é semelhante à de adultos, com alta carga bacilar, lesões cavitárias e maior positividade em exames bacteriológicos7. O diagnóstico foi confirmado por baciloscopia positiva para BAAR, evidenciando a importância da investigação microbiológica diante das limitações diagnósticas frequentemente observadas em crianças3. Destaca-se, ainda, o valor do escore clínico como ferramenta diagnóstica, especialmente na ausência de confirmação laboratorial1. Embora validado principalmente para menores de 10 anos, o escore mostrou-se útil neste caso, auxiliando na definição diagnóstica e conduta terapêutica1.
Há escassez de estudos voltados à tuberculose em crianças e adolescentes, especialmente quando comparados à população adulta8. Nessa faixa etária, a dificuldade diagnóstica e a baixa suspeição clínica contribuem para a subnotificação e subestimação dos dados epidemiológicos9. O caso apresentado ilustra os desafios na detecção precoce da doença em pacientes pediátricos, reforçando a importância da valorização dos sinais clínicos e manifestações específicas da tuberculose nessa população.
A literatura destaca a importância de relatar casos de diagnóstico e manejo da tuberculose, diante das elevadas taxas de subnotificação, abandono e baixa adesão ao tratamento, especialmente entre adolescentes e homens jovens, favorecendo a persistência da transmissão10. Como consequência, aumentam-se os riscos de desfechos adversos, incluindo mortalidade, falha terapêutica e resistência medicamentosa11.
Ademais, a validação diagnóstica no público pediátrico baseia-se, majoritariamente, na associação de achados clínicos, radiológicos e epidemiológicos, havendo a possibilidade de instituir métodos bacteriológicos em adolescentes3,7. Assim, a baciloscopia para pesquisa direta de BAAR, bem como a cultura do bacilo, tornam-se recursos complementares de grande relevância nessa faixa etária, dada a maior proporção de casos bacilíferos semelhante aos adultos3.
A radiografia de tórax permanece como exame inicial na investigação de tuberculose em adolescentes, por sua ampla disponibilidade e capacidade de identificar achados sugestivos, como adenomegalias hiliares, consolidações e infiltrações intersticiais12. Em casos com evolução clínica desfavorável ou imagens inconclusivas, a TC de tórax é indicada, devido à maior sensibilidade na detecção de opacidades nodulares centrolobulares, consolidações com broncograma aéreo e áreas em vidro fosco13. No caso descrito, a progressão das lesões e a persistência dos sintomas justificaram a realização da TC, cujos achados compatíveis com infecção ativa contribuíram para a confirmação diagnóstica e definição da conduta12.
O tratamento da TB em crianças e adolescentes segue um esquema semelhante ao dos adultos: rifampicina, isoniazida, pirazinamida e, em maiores de 10 anos, etambutol, por seis meses6. A introdução precoce do tratamento padrão é essencial para o controle da doença e prevenção de complicações14. No caso descrito, o paciente apresentou baciloscopia inicial positiva, com negativação posterior, melhora clínica progressiva, desaparecimento da febre e ganho ponderal. A adesão ao tratamento supervisionado foi mantida, sendo determinante para o sucesso terapêutico, prevenção de resistência, redução da transmissibilidade e de desfechos adversos.
Portanto, a TB na infância e adolescência exige ações integradas que envolvam diagnóstico precoce, vigilância ativa de contatos e fortalecimento da atenção primária à saúde12. Assim, o caso apresentado ilustra os principais desafios relacionados ao diagnóstico e manejo da TB na adolescência, evidenciando a importância do reconhecimento clínico, da utilização de ferramentas diagnósticas adequadas e da instituição oportuna do tratamento.
CONCLUSÃO
A estimativa global de tuberculose no público pediátrico é alarmante, com metade dos casos sem diagnóstico ou tratamento. Assim, o relato evidencia a complexidade do diagnóstico, especialmente em adolescentes, cuja apresentação clínica pode ser diversificada, além de reforçar a importância de uma abordagem criteriosa, baseada na associação entre achados clínicos, radiológicos e laboratoriais, diante da baixa sensibilidade de testes tradicionais nessa faixa etária.
Portanto, a detecção precoce e o início oportuno do tratamento são fundamentais para o controle da doença, prevenção de formas graves e interrupção da cadeia de transmissão. Entretanto, o atraso e a baixa suspeita do diagnóstico comprometem muito a saúde do paciente — como descrito no caso. Logo, ressalta-se a necessidade de capacitação das equipes de saúde, principalmente na porta de entrada do paciente e fortalecimento das ações de vigilância, com valorização à alta suspeição clínica.
REFERÊNCIAS
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Data de Recebimento: 17/05/2025
Data de Aprovação: 28/07/2025
Data de Publicação: 01/07/2026