INTRODUÇÃO
A amamentação é um ato crucial para a saúde materna e infantil, influenciando diretamente o desenvolvimento e bem-estar do recém-nascido e a relação mãe-bebê, além de ser responsável por conferir importantes benefícios à saúde pública1-3. Os estudos demonstram os diversos benefícios do aleitamento materno (AM) tanto para as mulheres, na redução do câncer de mama e ovário, como para as crianças, os quais são de curto a longo prazo: aumento da inteligência, diminuição da obesidade, diabetes, infecções, entre outros4.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), recomendam o Aleitamento Materno Exclusivo (AME) até o sexto mês de vida da criança, seguida da introdução de alimentação complementar saudável, mas sugere manter a amamentação por dois anos de idade ou mais5. Nota-se que, apesar dessa recomendação, o país tem ainda dificuldade de promover o AM para as crianças brasileiras, mesmo com os avanços significativos6,7.
A adequada orientação da amamentação tem como consequência estimular o aleitamento materno (AM) através do suporte às mulheres nas práticas corretas, assim como nas dificuldades na pega, na sucção, na insegurança e nos medos maternos. Ressaltar a importância do ato para criança e para a mãe é também fundamental para um bom suporte técnico. Nota-se que esse apoio profissional, além de impactar os fatores que aumentariam o desmame, garante mais credibilidade e segurança ao aleitamento materno, o que evita o abandono da amamentação7.
O presente estudo tem como objetivo avaliar o nível de conhecimento das mães sobre a amamentação e as funções e repercussões maternas e infantis, de forma a produzir insights e base de formulação para estratégias de educação em saúde puerperal sobre o aleitamento materno.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo observacional do tipo transversal, descritivo e quantitativo realizado na Maternidade Hilda Brandão da Santa Casa de Belo Horizonte.
A coleta de dados ocorreu com 300 mulheres que frequentaram a Maternidade. Esses dados foram adquiridos por meio de um questionário online anônimo sobre conhecimento em amamentação, adaptado de instrumentos previamente validados na literatura portuguesa. Os levantamentos foram realizados entre os meses de setembro a dezembro de 2024. Durante a pesquisa, foram coletadas informações demográficas, como idade, escolaridade, renda mensal, número de filhos, consultas de pré-natal e a respectiva região da cidade, para análise descritiva. O questionário abordou aspectos como técnicas de amamentação, benefícios para o bebê e para a mãe, possíveis complicações e contraindicações.
Os critérios de inclusão foram os seguintes: mulheres lactantes com idades compreendidas entre 13 e 45 anos, com crianças com idades entre 0 e 6 anos, com parto normal ou cesariana, internadas, assistidas ou referenciadas na maternidade acima descrita. Foram utilizados como critérios de exclusão: mães que não desejam participar dos estudos, crianças e adolescentes menores de 13 anos, mulheres que não possuem filhos.
Os dados obtidos foram compilados em uma planilha eletrônica do software Excel 2019, para a devida identificação dos valores absolutos e relativos e avaliação das variações percentuais no período (VPP) referido.
Todas as participantes responderam ao instrumento somente após leitura, aceite e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE ou Termo de Assentimento Livre e Esclarecido. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob parecer de nº 7.004.944, CAEE nº 79534424.7.0000.5138.
RESULTADOS
Dentre os dados epidemiológicos das mulheres entrevistadas, observou-se que 48% (n=145) apresentavam ensino médio completo, 23% (n=70) ensino médio incompleto, 12% (n=35) ensino fundamental incompleto, 7% (n=20) ensino fundamental completo, 6% (n=18) ensino superior incompleto e 4% (n=12) ensino superior completo. Ao analisar a renda mensal do grupo em questão, 72% apresentavam um ganho de até 2 salários mínimos (37% até 2 salários mínimos e 35% até 1 salário mínimo), 16% (n=48) indicaram uma renda de até 3 salários mínimos, 9% (n=26) relataram uma renda até 4 salários mínimos e 3% (n=8) possuíam uma renda superior a 5 salários mínimos.
Nota-se que, ao analisar o acompanhamento gestacional dessas pacientes, 66,66% (n=200) realizaram um pré-natal de risco habitual, enquanto 33,33% (n=100) foram pacientes de alto risco. Ao estudar o número de consultas efetuadas, 47,66% (n=143) fizeram mais de 10 consultas, 16,33% (n=49) fizeram até 9 consultas, 4,1% (n=37) realizaram até 8 consultas, 9,33% (n=28) efetuaram até 7 consultas e 13% (n=39) fizeram menos de 6 consultas. Percebe-se que dentre essas 300 mulheres, 253 fizeram todo acompanhamento na região de Belo Horizonte, enquanto 65 realizaram em outras cidades de Minas Gerais: 1 em Aranha, 2 em Betim, 5 em Contagem, 7 em Ribeirão das Neves, 4 em Nova Lima, 40 em Sabará, 3 em Santa Luzia, 2 em Sete Lagoas e 1 em Vargem Alegre.
As perguntas direcionadas ao passado das entrevistadas incluíram: a amamentação da mãe, o número de filhos e o aleitamento prévio. Percebeu-se que 82% (n=246) das mulheres entrevistadas foram amamentadas quando crianças (gráfico 4). Dessas mulheres, 50,6% (n=152) não souberam informar até qual idade foram amamentadas, mas 38,29% (n=36) das que foram amamentadas receberam o LM por dois anos ou mais (gráfico 5). Ao investigar o histórico de amamentação da mulher, 75% (n=225) já tinham amamentado e 25% (n=75) ainda não tinham amamentado no momento da entrevista, 10,66% (n=8) por falta de desejo ou contraindicação e 89,34% (n=67) por espera de orientação de profissionais, insegurança ou outras causas. Por fim, perguntou-se a respeito do número de filhos dessas entrevistadas: viu-se que 53,33% (n=160) possuíam 1 filho, 17,33% (n=52) tinham 2 filhos, 11% (n=33) tinham 3 filhos, 18,33% (n=55) possuíam 4 filhos ou mais.
De acordo com as mães do estudo, o meio social (amigos e familiares) foi o local descrito como de maior apoio e incentivo para amamentação, destacado por 47% (n=141) das participantes, seguido da maternidade Santa Casa, representado por 29,66% (n=89). Adiante, o local em que foi realizado o pré-natal foi responsável por 10% (n=30) das respostas, seguido pelas redes sociais e grupos “online” de mães, os quais equivalem a 6% (n=18). Por fim, outros meios 5,33% (n=16) e outras regiões de assistência à saúde, que equivalem a 2,3% (n=7) das respostas. Deve-se destacar que os outros meios citados incluíram: desejo prévio, incentivo do parceiro, experiência profissional, experiência com filho anterior, caderneta da gestante (figura 1).

No que diz respeito ao conhecimento materno sobre a amamentação, 88% (n=264) das mães se identificaram como conhecedoras razoáveis do assunto, enquanto 12% (n=36) relataram não apresentar conhecimentos. Das 264 que relataram aprendizado, 36,36% (n= 96) destacaram ter aprendido por meio de médicos e enfermeiros, 23,1% (n=61) informaram que aprenderam por meio de amigos e familiares, 21,9% (n=58) referiram aprendizado por leitura em redes sociais, enquanto 18,4% (n= 49) aprenderam com a miscelânea das maneiras supracitadas.
Outro ponto analisado nas mulheres que indicaram conhecimento sobre o tema foi o aleitamento materno exclusivo (AME): nota-se que 64,66% (n=194) das mulheres indicaram que o AME deve ser feito até o 6º mês de vida da criança, 18% (n=54) referiram que o AME deve ser feito enquanto a mãe tiver leite disponível, 7,3% (n=22) não sabiam responder a essa pergunta, 6,6% (n=20) relataram ser até 4 meses e 3,3% (n=10) responderam que a criança deve receber só o leite materno enquanto ainda aumentar de peso adequadamente.
A avaliação do uso de chupetas e mamadeiras na amamentação mostrou que 60,33% (n=181) das mães acreditavam que poderiam atrapalhar a amamentação, enquanto 39,44% (n=119) acreditavam não haver influência. No que se refere à queda das mamas, 59,33% (n=178) das mulheres associaram o ato de amamentar com a flacidez, 30% (n=90) não concordaram com a afirmativa e 10,66% (n=32) não sabiam responder a essa pergunta. (figura 2)

As perguntas referentes à oferta e qualidade do leite indicaram que 60,66% (n=182) acreditavam que não existe “leite fraco”, 33,33% (n=100) acreditavam que há “leite fraco” e 6% (n=18) não sabiam responder a essa pergunta. Vê-se, porém, que 66,66% (n=200) das entrevistadas responderam que o leite de uma mãe desnutrida é muito diferente do leite de uma mãe saudável, e também 53,33% (n=160) relataram que o mesmo se repete quando se compara o leite de uma mãe obesa com o de uma mãe saudável.
A avaliação dos benefícios do aleitamento materno mostrou que 62,33% (n=187) julgavam que o ato seja benéfico para mãe e para o bebê, 21,66% (n=65) relataram ter benefícios apenas para as crianças, 11,33% (n=34) disseram que o benefício se dá para toda sociedade e 3,33% (n=10) acredita que seja para toda a família. Após essa questão, perguntou-se acerca dos benefícios da amamentação para a mãe. Observou-se que 69,33% (n=208) das mães acreditavam que o ato de amamentar colabora para redução do peso adquirido na gestação, 57,33% (n=172) concordou com a diminuição do câncer de mama e ovário em mulheres que amamentaram, 50,6% (n=152) acreditavam que a lactação colabora para uma melhor qualidade do sono, enquanto 10,6% (n=32) disseram não acreditar em benefícios maternos.
A análise da qualidade da amamentação foi feita por: ganho de peso, ganho de estatura, diurese, evacuação, desenvolvimento neuropsicomotor, ectoscopia, sono e sucção. Observou-se que 94,66% (n=284) das entrevistadas acreditavam na relação ganho de peso e boa qualidade de amamentação, 47,33% (n=142) referenciavam essa relação com o ganho de estatura, 83,33% (n=250) compararam a boa mamada com uma pele hidratada, corada e brilhante; 70% (n=210) correlataram com a diurese, 76% creem ter relação com a evacuação diária, 30,66% associaram à sucção do dedo, 86,66% (n=260) relacionaram com o bom desenvolvimento neuropsicomotor, 73,33% (n=220) acreditavam ser relacionado a longos períodos de sono durante o dia e 49,33% (n=148) relataram relação de boa amamentação quando o bebê não acorda durante a madrugada para realizar outra mamada.
O questionamento sobre a possibilidade da amamentação de mais de um filho simultaneamente evidenciou que 49,33% (n=148) das mães creem nesse fato, 34,66% relataram que amamentariam se fossem gêmeos e 16% responderam que não pode ser realizado. No que se diz respeito à amamentação cruzada, 34% (n=102) acreditavam ser um ato seguro, 58% (n=174) responderam como uma prática incorreta e 8% (n=24) não sabiam responder a essa pergunta.
O estudo sobre a existência de técnica da amamentação evidenciou que 63,33% (n=190) das entrevistadas relataram existir técnica, 28,33% (n=85) responderam que não existe técnica e 8,33% (n=25) não sabiam responder. As mulheres que acreditavam na técnica da amamentação foram submetidas a perguntas relacionadas à pega e tempo de mamada. A avaliação do conhecimento da pega foi feita por 2 imagens, sendo a primeira uma imagem real e a segunda um esquema gráfico. Observou-se que 63% (n=119) responderam que a imagem real apresentava uma pega correta, apesar de não ser a resposta adequada. Já ao analisar a imagem gráfica, 65,3% (n=124) responderam o esquema gráfico corretamente, explicitando uma dificuldade ao visualizar a cena real ao se comparar com imagens fictícias.
No que se refere à interrupção da amamentação, foram questionadas causas como a presença de fissuras, o uso de medicamentos, resfriado ou gripe, a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e se a manutenção da amamentação é a compatível com período laboral. Viu-se que 27,33% (n=82) das entrevistadas suspenderiam a amamentação se houvesse fissura mamária, 56% (n=168) correlacionaram o trabalho como fator incompatível com o AM, 14,66% (n=44) dessas mulheres interromperiam o LM se estivessem usando ou se usassem paracetamol, antidiabéticos ou anti-hipertensivos, 69,33% (n=208) continuariam amamentando em caso de resfriado ou gripe e, no que se diz respeito ao HIV: 30,66% (n=92) não souberam responder, 51,33% (n=154) acreditam ser uma contraindicação da amamentação e 18% (n=54) responderam que a mulher poderia amamentar normalmente.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo possibilitaram identificar que a maioria tinha ensino médio completo e renda de até dois salários mínimos, com pré-natal adequado. Apesar de terem sido amamentadas na infância, muitas desconheciam a duração, o que reflete a falta de incentivo. O apoio familiar foi o principal motivador para a amamentação, embora o conhecimento sobre o tema tenha sido adquirido, em grande parte, por profissionais de saúde. A pesquisa revelou que mitos como “leite fraco” e flacidez mamária persistem, e que barreiras como o trabalho e a falta de conhecimento sobre a pega correta, especialmente em imagens reais, ainda dificultam a prática.
Ao analisar o passado das entrevistadas, percebe-se que grande maioria das participantes relatou ter sido amamentada na infância, porém cerca da metade não sabia informar sobre o período de amamentação. Esse fato evidencia e fortalece a falta de incentivo e o desprezo social pelo ato de amamentar2,3.
A análise do ambiente de incentivo para a amamentação demonstrou que quase metade das mulheres tiveram maior apoio no meio social de amigos e familiares. Esse dado não só contradiz como reforça a importância da capacitação e encorajamento dos profissionais de saúde a realizarem o estímulo da amamentação, principalmente de forma a garantir as informações corretas e garantir a amamentação como pioneiros na sociedade1-5,7. Contrariamente ao incentivo de amamentar, no que se refere ao conhecimento sobre a amamentação, pode-se inferir que grande parte das mulheres aprendeu sobre o tema por meio de profissionais de saúde, seguido de familiares e redes sociais. Observa-se, porém, que, apesar da afirmação do conteúdo, fazem-se necessárias melhorias na qualidade da disseminação e apresentação da informação das práticas corretas do aleitamento materno, principalmente pela realidade das frequentes respostas errôneas encontradas no questionário5,7 .
A pesquisa sobre as percepções e práticas do aleitamento materno evidenciaram o conhecimento significativo sobre a importância do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida, apesar de divergências em relação à duração ideal da amamentação e dificuldade sobre a sua permanência após os 6 meses5,7. A terminologia sobre o “leite fraco” e a associação entre amamentação e flacidez mamária ainda são frequentes, evidenciando a necessidade de desmistificar essas crenças e fornecer informações corretas sobre a fisiologia da lactação. Vê-se que o apoio social foi determinado como importante fator para a manutenção da amamentação, com os amigos e familiares sendo os principais incentivadores1-3,5,7.
CONCLUSÃO
Por fim, é importante ressaltar as dificuldades e barreiras enfrentadas no aleitamento materno. Nota-se que a compatibilidade com o trabalho foi apontada como uma das principais dificuldades para a continuação da amamentação. Além disso, a falta de conhecimento sobre técnicas de amamentação, como a pega correta, também foi identificada como um obstáculo. O estudo permitiu identificar uma dificuldade maior do entendimento das mulheres por meio de imagens reais, visto que quase metade das participantes não souberam identificar a pega correta em fotos, enquanto entendiam os erros em esquemas gráficos.
REFERÊNCIAS
1. McGowan C, Bland R. The benefits of breastfeeding on child intelligence, behavior, and executive function: a review of recent evidence. Breastfeed Med. 2023;18(3):172-87. DOI: https://doi.org/10.1089/bfm.2022.0192.
2. Binns C, Lee M, Low WY. The long-term public health benefits of breastfeeding. Asia Pac J Public Health. 2016;28(1):7-14. DOI: https://doi.org/10.1177/1010539515624964.
3. Sattari M, Serwint JR, Levine DM. Maternal implications of breastfeeding: a review for the internist. Am J Med. 2019;132(8):912-20. DOI: https://doi.org/10.1016/j.amjmed.2019.02.021.
4. Minosso KC, Toso BRGO, Piva EK, Christoffel MM. Validação para o português da escala de conhecimento acerca do aleitamento materno. Acta Paul Enferm. 2020;33:eAPE20190067.
5. World Health Organization (WHO). Protecting, promoting and supporting breastfeeding in facilities providing maternity and newborn services. Geneva: World Health Organization; 2018; [cited 2018 Nov 8]. Available from: http://www.who.int/nutrition/publications/guidelines/breastfeeding-facilities-maternity-newborn/en/.
6. Machado MOF, Paula MSR, Parreira BDM, Stefanello J, Sponholz FG. Comparação do conhecimento de puérperas sobre aleitamento materno. Rev Enferm UERJ, 2013;21(1):66-72.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Saúde da criança: nutrição infantil: aleitamento materno e alimentação complementar. Brasília: Ministério da Saúde; 2009; [citado 2015 Out 11]. Disponível em: http://www.sbp.com.br/pdfs/Aleitamento_Complementar_MS.pdf.
Data de Recebimento: 24/05/2025
Data de Aprovação: 14/11/2025
Data de Publicação: 01/07/2026