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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

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Relato de Caso

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Relato de caso: Torção esplênica em criança

Case report: Splenic torsion in a child

Pedro José Prá1; Larissa Lucas Scremin2; Willian Sangalli1; Letícia Lorenzon1; Franco Augusto Alberti1

RESUMO

Relato de caso de uma criança de 3 anos, submetida à laparotomia de urgência por torção esplênica. Essa condição rara ocorre por defeito nos ligamentos que fixam o baço e pode levar à isquemia do órgão. Os sintomas são característicos de abdome agudo, como dor abdominal intensa, náusea e distensão. Os achados de imagem são fundamentais para o diagnóstico da patologia. Na tomografia, é possível observar principalmente o aumento do órgão, enquanto, no Doppler, é visível o ingurgitamento vascular, caso haja isquemia do órgão. O prognóstico pós-operatório geralmente é favorável se for realizado diagnóstico precoce e intervenção cirúrgica urgente, em casos de isquemia realiza-se esplenectomia e, quando o órgão não está infartado, a esplenopexia pode ser considerada. No caso descrito, o baço do paciente foi preservado devido à intervenção cirúrgica, porém, ao longo de dois anos em acompanhamento ambulatorial, foi diagnosticada asplenia funcional.

Palavras-chave: Baço; Abdome agudo; Criança

Abstract

Case report of a 3-year-old child who underwent emergency laparotomy due to splenic torsion. This rare condition occurs due to a defect in the ligaments that fix the spleen and can lead to ischemia of the organ. Symptoms are characteristic of acute abdomen, such as severe abdominal pain, nausea, and distension. Imaging findings are essential for the diagnosis of the pathology. On tomography, it is mainly possible to observe the enlargement of the organ, while on Doppler, vascular engorgement is visible, if there is ischemia of the organ. The postoperative prognosis is generally favorable if early diagnosis and urgent surgical intervention are made. In cases of ischemia, splenectomy is performed and when the organ is not infarcted, splenopexy can be considered. In the case described, the patients spleen was preserved due to surgical intervention, but over the course of two years of outpatient follow-up, functional asplenia was diagnosed.

Keywords: Spleen; Abdomen; acute; Child

INTRODUÇÃO

A torção esplênica em crianças é uma condição rara, representa menos de 0,2% das esplenectomias e tem como principal causa uma anormalidade congênita nos ligamentos esplenorrenal e gastroesplênico. Essa anormalidade possibilita a hipermobilidade do órgão, tornando-o suscetível à torção pedicular. Os sintomas são característicos de abdome agudo e faz-se necessária intervenção cirúrgica de urgência para a estabilização do paciente1. Ainda que seja necessário um manejo rápido para que o paciente não evolua a óbito, o prognóstico pós-cirúrgico é favorável, apesar das deficiências imunes que a ausência do baço gera2. Os objetivos deste trabalho visam descrever uma condição clínica incomum, no intuito de divulgar o conhecimento adquirido com esse caso para a comunidade médica.

 

RELATO DE CASO

Criança de 3 anos, pesando 13kg, sexo masculino, foi hospitalizada às 18h do dia 23/11/2022 devido à inapetência, dor abdominal difusa e intensa, êmese e febre há 4 dias. Relatava constipação há 3 dias. Apresentava-se pálido, choroso, prostrado e com defesa abdominal principalmente em fossa ilíaca esquerda. A suspeita inicial foi de gastroenterite e o paciente foi medicado com ampicilina EV, metronidazol EV, dipirona, metoclopramida e solução fisiológica para hidratação e manutenção da volemia. Foi realizado ultrassom de abdome, no qual não se visualizou o apêndice cecal. Tendo em vista a dificuldade de identificação das estruturas do apêndice, realizou-se uma tomografia computadorizada sem contraste, cuja imagem apresentou distensão gasosa e fecal do trato gastrointestinal, sem outras alterações. Procedeu-se com enema glicerinado obtendo a eliminação de fezes em pequena quantidade e alívio dos sintomas. Além disso, foi coletado hemograma que demonstrou leucocitose com desvio à esquerda, sendo necessária a troca do antibiótico ampicilina para ceftriaxona. Devido ao agravamento dos sintomas foi revisada a tomografia, na qual se identificou esplenomegalia. Por piora clínica e aumento do volume esplênico, o paciente foi encaminhado ao serviço de referência em Cirurgia Pediátrica. Dia 24/11, às 01h30, na emergência do hospital referenciado, o paciente foi avaliado, apresentando-se em regular estado geral, prostrado, com o abdome depressível e indolor na fossa ilíaca direita, blumberg negativo e sem sinais de peritonite. A palpação profunda do lado esquerdo era dolorosa e foi verificada uma massa, o que levou à suspeita de invaginação intestinal. Outras hipóteses diagnósticas foram consideradas, como apendicite aguda e adenite mesentérica. Paciente foi encaminhado para internação, orientou-se jejum, hidratação EV, avaliação laboratorial e ecografia abdominal. As imagens de tomografia computadorizada foram revisadas por radiologista, que visualizou apêndice de aspecto normal e baço em topografia anômala, em fossa ilíaca esquerda, com ingurgitamento vascular, sugerindo torção. Solicitou-se ecografia com doppler, que evidenciou ecoestrutura heterogênea, aumento de volume para 11,4cm, sem fluxo vascular ao doppler colorido, sugerindo isquemia. Nesse momento, foi indicada laparotomia. Durante a cirurgia, o baço estava em posição pélvica, isquêmico e com pedículo vascular torcido quatro vezes. Desfeito o volvo esplênico, sinais de discreta reperfusão ao doppler transoperatório e melhora da coloração foram observados e o órgão foi fixado na parede abdominal em sua posição anatômica. Além disso, foi realizada apendicectomia de oportunidade, cujo laudo patológico demonstrou hiperplasia linfoide da submucosa e ectasia luminal com fezes e presença de serosite aguda. Após a recuperação, o paciente foi encaminhado para a unidade de internação, a família foi orientada sobre a possibilidade de infecção e de atrofia esplênica, sendo necessária uma possível esplenectomia. O paciente obteve uma boa evolução hospitalar, apresentando plaquetopenia temporária e alta no quarto dia pós-operatório, com orientações de ecografia abdominal com doppler após sete dias, amoxicilina profilática até realização das vacinas Pneumocócica e Meningocócica e retorno em três semanas. Em doze dias de pós-operatório, fez-se uma ecografia que mostrou o baço em posição tópica, medindo 9,9cm, com discreto aspecto heterogêneo, sem evidência de fluxo sanguíneo hilar ou intraparenquimatosa. Cinquenta dias pós-operatório, na ecografia, baço estava medindo 7cm, sem fluxo e parênquima heterogêneo. Em controles realizados ao longo de 23 meses, o baço apresentava diminuição de volume e ausência de fluxo ao doppler, sendo a última evolução do baço com 3,3x1,2 cm, quando o paciente recebeu o diagnóstico de asplenia funcional pós-torção esplênica.

 

DISCUSSÃO

O baço fica localizado dentro da cavidade peritoneal, na porção posterior do quadrante superior esquerdo do abdome, abaixo do diafragma, adjacente às costelas inferiores ao estômago, à flexura esplênica do cólon e ao rim esquerdo, com seu hilo em estreita aproximação à cauda do pâncreas. A artéria esplênica, derivada da artéria celíaca, fornece sangue arterial ao baço com pouco fluxo colateral. A veia esplênica une-se com a veia mesentérica superior para se tornar a veia porta. O baço é fixado ao estômago e ao rim por meio dos ligamentos gastroesplênico e esplenorrenal3. As funções do órgão estão associadas aos processos de filtragem, imunológicos e hematopoiéticos4.

A torção esplênica ocorre devido à uma má-formação fetal nos ligamentos esplenorrenal e gastroesplênico, o que torna o órgão suscetível à torção do pedículo1. Quando a torção é parcial, o sangue arterial chega ao baço, porém fica retido, causando esplenomegalia devido à obstrução de uma parcela do fluxo de saída do órgão. Quando a torção é completa, ocorre a obstrução total da circulação sanguínea, o que leva à isquemia do baço5.

Os principais sintomas da torção esplênica são dores abdominais inferiores que podem irradiar para o dorso, náuseas, êmese, distensão abdominal e flatulência. À medida em que ocorre o agravamento do infarto esplênico, o quadro de abdome agudo descrito se intensifica6. No exame físico, encontra-se uma tríade de achados que incluem massa abdominal palpável, dura e ovoide no hipocôndrio esquerdo, movimento indolor da massa em direção cranial, mas limitado em todas as outras direções e, ainda, timpanismo à percussão no quadrante superior esquerdo. Tais achados não são unânimes, dessa forma, faz-se necessária a associação com exames de imagem. Os achados da tomografia computadorizada incluem esplenomegalia, baço ectópico e sinal de redemoinho, já a ultrassonografia duplex é utilizada para avaliar o fluxo sanguíneo do pedículo esplênico7,8.

A torção esplênica é um caso cirúrgico, sendo a esplenectomia a primeira escolha de tratamento. Já a esplenopexia pode substituir a esplenectomia nos casos em que não há infarto do órgão1. Quando não há possibilidade de preservar o baço ou a sua função, o indivíduo corre maior risco de infecção por bactérias encapsuladas, sendo recomendada, após a esplenectomia ou asplenia funcional, vacinação para Neisseria meningitidis, Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae7,9.

No caso citado, o paciente evoluiu para asplenia funcional. Apesar de o órgão estar presente, ele não desempenha as suas funções. A gestão inclui vacinação citada anteriormente e acompanhamento ambulatorial regular. Em crianças, o calendário vacinal deve ser seguido normalmente após as primeiras vacinas pós-cirúrgicas. Indivíduos com asplenismo funcional podem viver por muitos anos com boa qualidade de vida, desde que sigam os cuidados médicos adequados9.

 

CONCLUSÃO

Um caso de torção pedicular do baço na primeira infância é apresentado com sintomas compatíveis aos de abdome agudo. Apesar de ser uma condição rara, os exames tomográficos são essenciais para o diagnóstico. No caso relatado, foi realizada uma laparotomia em caráter de urgência, devido ao agravamento dos sintomas por isquemia do órgão. Assim, torna-se importante realizar o diagnóstico precocemente para reverter o quadro do paciente e, se possível, preservar o baço.

 

REFERÊNCIAS

1. Bond LM, Doud AN, Downard CD, Bond SJ. Acute presentation of pediatric splenic torsion. J Pediatr Surg Case Rep. 2019;48:101267. DOI: https://doi.org/10.1016/j.epsc.2019.101267.

2. Boana R. Elective (diagnostic or therapeutic) splenectomy. In: UpToDate. Waltham (MA): UpToDate Inc.; 2025; [cited 2024 Oct 30]. Available from: https://sso.uptodate.com/contents/elective-diagnostic-or-therapeutic-splenectomy.

3. McClain KL. Approach to the child with an enlarged spleen. In: UpToDate. Waltham (MA): UpToDate Inc.; 2023; [cited 2024 Oct 30]. Available from: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-the-child-with-an-enlarged-spleen.

4. Eichner ER. Splenic function: normal, too much and too little. Am J Med. 1979;66(2):311-20. DOI: https://doi.org/10.1016/0002-9343(79)90511-9.

5. Santos MAF, Reis CM, Melo EG, Miranda EG, Bastos Filho LC. Baço flutuante como diagnóstico diferencial de dor abdominal. Relatos Casos Cir [Internet]. 2018; [citado 2024 Out 24]; 4(1):1-4. Disponível em: https://relatosdocbc.org.br/exportar-pdf/140/v4n1_a03.pdf.

6. Ayaz UY, Dilli A, Ayaz S, Api A. Wandering spleen in a child with symptoms of acute abdomen: ultrasonographic diagnosis. Med Ultrason. 2022; [cited 2024 Oct 30]. Available from: https://www.medultrason.ro/wandering-spleen-in-a-child-with-symptoms-of-acute-abdomen-ultrasonographic-diagnosis-case-report/.

7. Bough GM, Gargan KE, Cleeve SJ, Farrell S. Diagnosis, management and outcome of splenic torsion: a systematic review of published studies. Surgeon. 2022;20(5):e296-305. DOI: https://doi.org/10.1016/j.surge.2021.10.002.

8. Cohen O, Baazov A, Samuk I, Schwarz M, Kravarusic D, Freud E. Emergencies in the treatment of wandering spleen. Isr Med Assoc J. 2018;20(6):354-7.

9. Hijazi LS, Zahra F, Yarrarapu SNS, et al. Functional asplenism. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024; [cited 2025 Jun 19]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK499949/.

Data de Recebimento: 30/05/2025

Data de Aprovação: 20/06/2025

Data de Publicação: 01/07/2026

Sobre os autores

1 Universidade Franciscana, Faculdade de Medicina - Santa Maria – Rio Grande do Sul - Brasil.

2 Hospital Universitário de Santa Maria, Programa de Residência Médica em Pediatria - Santa Maria - Rio Grande do Sul - Brasil.

Endereço para correspondência

Pedro José Prá
Universidade Franciscana.
Rua Silva Jardim, 1175 - Nossa Senhora do Rosário, Santa Maria - RS, CEP 97010-491.
E-mail: p.pra@ufn.edu.br

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Como citar este artigo:

. Relato de caso: Torção esplênica em criança. Resid Pediatr. 16(2):1-3. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1487

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