INTRODUÇÃO
A torção esplênica em crianças é uma condição rara, representa menos de 0,2% das esplenectomias e tem como principal causa uma anormalidade congênita nos ligamentos esplenorrenal e gastroesplênico. Essa anormalidade possibilita a hipermobilidade do órgão, tornando-o suscetível à torção pedicular. Os sintomas são característicos de abdome agudo e faz-se necessária intervenção cirúrgica de urgência para a estabilização do paciente1. Ainda que seja necessário um manejo rápido para que o paciente não evolua a óbito, o prognóstico pós-cirúrgico é favorável, apesar das deficiências imunes que a ausência do baço gera2. Os objetivos deste trabalho visam descrever uma condição clínica incomum, no intuito de divulgar o conhecimento adquirido com esse caso para a comunidade médica.
RELATO DE CASO
Criança de 3 anos, pesando 13kg, sexo masculino, foi hospitalizada às 18h do dia 23/11/2022 devido à inapetência, dor abdominal difusa e intensa, êmese e febre há 4 dias. Relatava constipação há 3 dias. Apresentava-se pálido, choroso, prostrado e com defesa abdominal principalmente em fossa ilíaca esquerda. A suspeita inicial foi de gastroenterite e o paciente foi medicado com ampicilina EV, metronidazol EV, dipirona, metoclopramida e solução fisiológica para hidratação e manutenção da volemia. Foi realizado ultrassom de abdome, no qual não se visualizou o apêndice cecal. Tendo em vista a dificuldade de identificação das estruturas do apêndice, realizou-se uma tomografia computadorizada sem contraste, cuja imagem apresentou distensão gasosa e fecal do trato gastrointestinal, sem outras alterações. Procedeu-se com enema glicerinado obtendo a eliminação de fezes em pequena quantidade e alívio dos sintomas. Além disso, foi coletado hemograma que demonstrou leucocitose com desvio à esquerda, sendo necessária a troca do antibiótico ampicilina para ceftriaxona. Devido ao agravamento dos sintomas foi revisada a tomografia, na qual se identificou esplenomegalia. Por piora clínica e aumento do volume esplênico, o paciente foi encaminhado ao serviço de referência em Cirurgia Pediátrica. Dia 24/11, às 01h30, na emergência do hospital referenciado, o paciente foi avaliado, apresentando-se em regular estado geral, prostrado, com o abdome depressível e indolor na fossa ilíaca direita, blumberg negativo e sem sinais de peritonite. A palpação profunda do lado esquerdo era dolorosa e foi verificada uma massa, o que levou à suspeita de invaginação intestinal. Outras hipóteses diagnósticas foram consideradas, como apendicite aguda e adenite mesentérica. Paciente foi encaminhado para internação, orientou-se jejum, hidratação EV, avaliação laboratorial e ecografia abdominal. As imagens de tomografia computadorizada foram revisadas por radiologista, que visualizou apêndice de aspecto normal e baço em topografia anômala, em fossa ilíaca esquerda, com ingurgitamento vascular, sugerindo torção. Solicitou-se ecografia com doppler, que evidenciou ecoestrutura heterogênea, aumento de volume para 11,4cm, sem fluxo vascular ao doppler colorido, sugerindo isquemia. Nesse momento, foi indicada laparotomia. Durante a cirurgia, o baço estava em posição pélvica, isquêmico e com pedículo vascular torcido quatro vezes. Desfeito o volvo esplênico, sinais de discreta reperfusão ao doppler transoperatório e melhora da coloração foram observados e o órgão foi fixado na parede abdominal em sua posição anatômica. Além disso, foi realizada apendicectomia de oportunidade, cujo laudo patológico demonstrou hiperplasia linfoide da submucosa e ectasia luminal com fezes e presença de serosite aguda. Após a recuperação, o paciente foi encaminhado para a unidade de internação, a família foi orientada sobre a possibilidade de infecção e de atrofia esplênica, sendo necessária uma possível esplenectomia. O paciente obteve uma boa evolução hospitalar, apresentando plaquetopenia temporária e alta no quarto dia pós-operatório, com orientações de ecografia abdominal com doppler após sete dias, amoxicilina profilática até realização das vacinas Pneumocócica e Meningocócica e retorno em três semanas. Em doze dias de pós-operatório, fez-se uma ecografia que mostrou o baço em posição tópica, medindo 9,9cm, com discreto aspecto heterogêneo, sem evidência de fluxo sanguíneo hilar ou intraparenquimatosa. Cinquenta dias pós-operatório, na ecografia, baço estava medindo 7cm, sem fluxo e parênquima heterogêneo. Em controles realizados ao longo de 23 meses, o baço apresentava diminuição de volume e ausência de fluxo ao doppler, sendo a última evolução do baço com 3,3x1,2 cm, quando o paciente recebeu o diagnóstico de asplenia funcional pós-torção esplênica.
DISCUSSÃO
O baço fica localizado dentro da cavidade peritoneal, na porção posterior do quadrante superior esquerdo do abdome, abaixo do diafragma, adjacente às costelas inferiores ao estômago, à flexura esplênica do cólon e ao rim esquerdo, com seu hilo em estreita aproximação à cauda do pâncreas. A artéria esplênica, derivada da artéria celíaca, fornece sangue arterial ao baço com pouco fluxo colateral. A veia esplênica une-se com a veia mesentérica superior para se tornar a veia porta. O baço é fixado ao estômago e ao rim por meio dos ligamentos gastroesplênico e esplenorrenal3. As funções do órgão estão associadas aos processos de filtragem, imunológicos e hematopoiéticos4.
A torção esplênica ocorre devido à uma má-formação fetal nos ligamentos esplenorrenal e gastroesplênico, o que torna o órgão suscetível à torção do pedículo1. Quando a torção é parcial, o sangue arterial chega ao baço, porém fica retido, causando esplenomegalia devido à obstrução de uma parcela do fluxo de saída do órgão. Quando a torção é completa, ocorre a obstrução total da circulação sanguínea, o que leva à isquemia do baço5.
Os principais sintomas da torção esplênica são dores abdominais inferiores que podem irradiar para o dorso, náuseas, êmese, distensão abdominal e flatulência. À medida em que ocorre o agravamento do infarto esplênico, o quadro de abdome agudo descrito se intensifica6. No exame físico, encontra-se uma tríade de achados que incluem massa abdominal palpável, dura e ovoide no hipocôndrio esquerdo, movimento indolor da massa em direção cranial, mas limitado em todas as outras direções e, ainda, timpanismo à percussão no quadrante superior esquerdo. Tais achados não são unânimes, dessa forma, faz-se necessária a associação com exames de imagem. Os achados da tomografia computadorizada incluem esplenomegalia, baço ectópico e sinal de redemoinho, já a ultrassonografia duplex é utilizada para avaliar o fluxo sanguíneo do pedículo esplênico7,8.
A torção esplênica é um caso cirúrgico, sendo a esplenectomia a primeira escolha de tratamento. Já a esplenopexia pode substituir a esplenectomia nos casos em que não há infarto do órgão1. Quando não há possibilidade de preservar o baço ou a sua função, o indivíduo corre maior risco de infecção por bactérias encapsuladas, sendo recomendada, após a esplenectomia ou asplenia funcional, vacinação para Neisseria meningitidis, Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae7,9.
No caso citado, o paciente evoluiu para asplenia funcional. Apesar de o órgão estar presente, ele não desempenha as suas funções. A gestão inclui vacinação citada anteriormente e acompanhamento ambulatorial regular. Em crianças, o calendário vacinal deve ser seguido normalmente após as primeiras vacinas pós-cirúrgicas. Indivíduos com asplenismo funcional podem viver por muitos anos com boa qualidade de vida, desde que sigam os cuidados médicos adequados9.
CONCLUSÃO
Um caso de torção pedicular do baço na primeira infância é apresentado com sintomas compatíveis aos de abdome agudo. Apesar de ser uma condição rara, os exames tomográficos são essenciais para o diagnóstico. No caso relatado, foi realizada uma laparotomia em caráter de urgência, devido ao agravamento dos sintomas por isquemia do órgão. Assim, torna-se importante realizar o diagnóstico precocemente para reverter o quadro do paciente e, se possível, preservar o baço.
REFERÊNCIAS
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3. McClain KL. Approach to the child with an enlarged spleen. In: UpToDate. Waltham (MA): UpToDate Inc.; 2023; [cited 2024 Oct 30]. Available from: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-the-child-with-an-enlarged-spleen.
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9. Hijazi LS, Zahra F, Yarrarapu SNS, et al. Functional asplenism. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2024; [cited 2025 Jun 19]. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK499949/.
Data de Recebimento: 30/05/2025
Data de Aprovação: 20/06/2025
Data de Publicação: 01/07/2026