INTRODUÇÃO
A Aplasia Cútis Congênita (ACC) é uma condição neonatal rara, caracterizada pela ausência de pele ao nascimento, afetando majoritariamente o couro cabeludo em cerca de 96,4% dos casos1. Quando as lesões se estendem a camadas mais profundas, incluindo a dura-máter, há um aumento expressivo no risco de infecção e hemorragia2. Diante dessas potenciais complicações, as opções terapêuticas variam desde medidas tópicas até procedimentos cirúrgicos complexos3.
Embora a sulfadiazina de prata seja amplamente utilizada no manejo de lesões cutâneas, ela é contraindicada em neonatos e lactentes com menos de 60 dias devido ao risco de hiperbilirrubinemia e kernicterus4. Como alternativa, pesquisas vêm explorando a utilização de matrizes dérmicas acelulares e enxertos de epitélio cultivado5,6. Paralelamente, cresce o interesse em produtos naturais — ácidos graxos essenciais (AGEs), óleo de copaíba e óleo de melaleuca —, dadas suas propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias7-9. Contudo, casos extensos de ACC são raros e a decisão de conduta terapêutica continua um desafio, ressaltando a importância de documentar experiências clínicas que possam respaldar futuras decisões.10
Neste relato, descreve-se o manejo conservador de um neonato com ACC e exposição parcial de meninges, com uso de protocolo de curativos com ácidos graxos essenciais, óleo de copaíba e óleo de melaleuca, associado ao uso de antibioticoterapia sistêmica.
RELATO DE CASO
Recém-nascida do sexo feminino, idade gestacional de 38 semanas e 6 dias, com peso adequado (3090 g) e apgar 9/9. Ao nascimento, observou-se extenso defeito de couro cabeludo que envolvia percentual significativo da calota craniana, associado à disjunção das suturas. A dura-máter estava parcialmente exposta, sem fístula de liquor, mas com áreas de granulação adjacentes (figura 1).

Aos três dias de vida foi transferida para hospital de referência. Iniciou-se ampicilina + gentamicina. Tomografia computadorizada evidenciou grande separação da sutura sagital, com exposição bilateral do parênquima frontoparietal, sem hidrocefalia (figura 2).

No oitavo dia, a paciente evoluiu com febre e taquicardia. Introduziram-se vancomicina e cefepime, além de tratamento conservador da lesão com curativos realizados diariamente pela equipe de estomaterapia, estéreis, com gazes de raiom embebidas em ácidos graxos essenciais (AGE), vitaminas A/E, óleo de copaíba e óleo de melaleuca. A hemocultura revelou Staphylococcus epidermidis resistente à oxacilina e sensível à vancomicina; a urocultura foi negativa. Persistindo febre e piora laboratorial, substitui-se cefepime por meropenem.
No 14º dia, ocorreu sangramento periférico ao defeito craniano, controlado com compressão local usando gaze embebida em adrenalina. Após 14 dias de vancomicina e 10 dias de meropenem, os antibióticos foram suspensos devido à melhora clínica e laboratorial.
Com quadro estabilizado, manteve-se a estomaterapia com AGE e óleos essenciais. A alta hospitalar ocorreu aos 23 dias de vida, em bom estado geral, afebril e hemodinamicamente estável, apresentando cicatrização satisfatória da lesão craniana sem sinais de fístula liquórica ou infecção ativa.
DISCUSSÃO
Em casos de aplasia cútis congênita (ACC), há exposição de dura-máter e, não raro, do seio sagital superior, aumentando o risco de meningite, trombose ou hemorragia fatal1. O consenso tem sido o fechamento cirúrgico precoce desses defeitos extensos3.
Ainda assim, relatos de tratamento conservador bem-sucedido têm sido feitos nas últimas décadas. Em um estudo de 2025, um recém-nascido com defeito de 12 × 6cm evoluiu para epitelização completa em nove semanas com aplicação de solução superoxidada e de hidrogel à base de ácido hipocloroso11. Em abordagem similar, Bouali et al. (2024)12 documentaram cicatrização total de lesão de 9 × 10 cm, com seio sagital exposto, após conduta conservadora sem complicações. Esses casos, aliados ao presente relato, sugerem que, em pacientes hemodinamicamente estáveis, a estomaterapia especializada permite cicatrização parcial ou total da lesão, adiando ou evitando intervenção cirúrgica.
No entanto, o sucesso do manejo não cirúrgico depende da prevenção de infecção e estimulação eficiente da cicatrização. Nesse ponto, a combinação tópica de ácidos graxos essenciais (AGE), óleo de melaleuca e óleo de copaíba ganha relevância clínica. Os AGE, ricos em ácido linoleico, formam uma barreira lipídica que mantém o ambiente úmido, reduz perda transepidérmica de água e, sobretudo, modulam a inflamação: atraem macrófagos, favorecem debridamento autolítico e aceleram angiogênese e migração de queratinócitos7. Estudos pré-clínicos mostram redução consistente de tempo de cicatrização em feridas tratadas com AGE, evidenciando melhoras em indicadores de reepitelização e organização da matriz extracelular13. Em nosso relato, a aplicação da emulsão de AGE permitiu formação de tecido de granulação, conferindo substrato sólido sobre a dura-máter antes mesmo da epitelização periférica completa.
O óleo essencial de melaleuca agrega significativa atividade antimicrobiana. Ensaios clínicos e in vitro demonstram que o terpinen-4-ol, principal componente do óleo, rompe membranas de bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, reduzindo contagem de Staphylococcus aureus e Pseudomonas em feridas crônicas; além disso, regula citocinas pró-inflamatórias e encurta o tempo de fechamento cutâneo8. No presente caso, a ausência de colonização purulenta ou odor fétido durante estomaterapia reforça a eficácia antisséptica do tratamento, permitindo conduta sem antibióticos sistêmicos e redução do risco de resistência bacteriana.
Já o óleo de copaíba distingue-se por ação anti-inflamatória e pró-angiogênica atribuída a sesquiterpenos como β-cariofileno9. No nosso neonato, a superfície inicialmente translúcida da meninge foi recoberta por tecido fibrovascular, sugerindo efeito sinérgico entre AGE e copaíba na matriz de reparo.
Apesar de relatos de caso promissores, cabe ressaltar limitações no uso dos agentes citados. Primeiro, a literatura carece de ensaios controlados que comparem diretamente AGE-melaleuca-copaíba com curativos convencionais em ACC. Segundo, óleos essenciais, embora naturais, podem causar dermatite de contato; vigilância de sinais de irritação deve ser constante, especialmente em neonatos com pele imatura14. Terceiro, o fechamento cutâneo não soluciona inevitavelmente a falha óssea; muitos pacientes exigirão cranioplastia tardia para proteção e estética15. Entretanto, adiar a reconstrução permite utilizar materiais definitivos em crânio já crescido, reduzindo complicações de crescimento desigual e reabsorção de enxertos.
CONCLUSÃO
Nesta experiência isolada, o uso tópico de ácidos graxos essenciais, óleo de copaíba e óleo de melaleuca associou-se ao controle local de infecção e à regeneração tecidual, sem necessidade de intervenção cirúrgica imediata. Embora promissora, esta abordagem requer investigação adicional, com possíveis estudos multicêntricos ou séries de casos para validar segurança, eficácia e desfechos de longo prazo. Ressalta-se a importância da individualização da conduta e do monitoramento rigoroso em neonatos com essa condição rara.
Não obstante, os achados derivam de um único caso, com período de seguimento ainda curto para avaliar plenamente calcificação craniana tardia, desenvolvimento neurológico e necessidade futura de cranioplastia. Assim, estudos prospectivos controlados, envolvendo amostras maiores e acompanhamento longitudinal, são imprescindíveis para confirmar a eficácia, a segurança e o custo-benefício dessa estratégia conservadora na população neonatal. Até que tais evidências estejam disponíveis, recomenda-se que a decisão terapêutica seja individualizada, ponderando extensão do defeito, estabilidade clínica e recursos locais, sempre em diálogo multidisciplinar entre neonatologia, neurocirurgia e estomaterapia.
REFERÊNCIAS
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Data de Recebimento: 31/05/2025
Data de Aprovação: 18/12/2025
Data de Publicação: 01/07/2026