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ISSN (On-line) 2236-6814

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Relato de Caso

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Trombose venosa cerebral pós-celulite orbitária em adolescente

Cerebral venous thrombosis after orbital cellulitis in an adolescent: case report

Adriane Vianna Carbone; Maitê Bastos Gomes; Maria Antônia Félix dos-Santos; Pedro Massaroni Peçanha

RESUMO

INTRODUÇÃO: A trombose séptica do seio cavernoso é uma complicação encefálica rara, frequentemente decorre da disseminação de infecções orbitárias ou de seios paranasais. Seu diagnóstico é desafiador, pois depende de uma boa análise clínica e exames complementares. A sintomatologia típica se apresenta com febre, vômitos, edema periorbital, cefaleia, ptose e paralisia dos músculos oculares. Nesse contexto, faz-se necessária uma intervenção terapêutica precoce para reduzir os desfechos negativos. Este trabalho relata um caso clínico de um paciente pediátrico que apresentou trombose do seio cavernoso secundária à celulite orbitária, e evoluiu com abscesso cerebral e óbito.
OBJETIVOS: Relatar o caso da complicação rara de trombose de seio cavernoso secundária à celulite orbitária com desfecho óbito.
MÉTODOS: Revisão de prontuário de paciente com trombose do seio cavernoso secundária à celulite orbitária atendido em hospital.
RESULTADOS: Paciente adolescente, previamente hígido, deu entrada no serviço com quadro de hiperemia e edema em face após extração manual de lesão acneica em fronte esquerda. Foram realizados exames laboratoriais e de imagem, que confirmaram o diagnóstico de trombose do seio cavernoso. Optou-se por iniciar antibioticoterapia e posteriormente realizar microcirurgia de drenagem de abscesso. Paciente evoluiu com óbito.
CONCLUSÃO: O caso relatado trouxe a evidencia um evento raro de infecção cerebral grave secundária à celulite orbitária. Dessa forma, espera-se o melhor entendimento da evolução do quadro, a antecipação dos riscos associados e a prevenção do desfecho ocorrido em outros pacientes com a mesma clínica.

Palavras-chave: Trombose; Trombose venosa; Trombose do corpo cavernoso; Celulite orbitária

Abstract

INTRODUCTION: Septic cavernous sinus thrombosis is a rare cerebral complication, often resulting from the spread of orbital or paranasal sinus infections. Its diagnosis is challenging, as it depends on a thorough clinical analysis and complementary tests. Typical symptoms include fever, vomiting, periorbital oedema, headache, ptosis, and paralysis of the ocular muscles. In this context, early therapeutic intervention is necessary to reduce negative outcomes. This paper reports a clinical case of a paediatric patient who presented with cavernous sinus thrombosis secondary to orbital cellulitis, which progressed to cerebral abscess and death.
OBJECTIVES: To report the case of a rare complication of cavernous sinus thrombosis secondary to orbital cellulitis with a fatal outcome.
METHODS: Review of the medical records of a patient with cavernous sinus thrombosis secondary to orbital cellulitis treated at a hospital.
RESULTS: A previously healthy adolescent patient was admitted to the service with hyperemia and oedema on the face after manual extraction of an acne lesion on the left forehead. Laboratory and imaging exams were performed and the diagnosis of cavernous sinus thrombosis was confirmed. It was decided to start antibiotic therapy and subsequently perform microsurgery to drain the abscess. The patient died.
CONCLUSION: The reported case provided evidence of a rare event of severe brain infection secondary to orbital cellulitis. Thus, it is hoped that there will be a better understanding of the evolution of the condition, anticipation of the associated risks, and prevention of the outcome in other patients with the same clinical presentation.

Keywords: Thrombosis; Venous thrombosis; Cavernous sinus thrombosis; Orbital cellulitis

INTRODUÇÃO

A trombose do seio cavernoso é uma complicação importante, formada a partir de um trombo, que pode ter origem asséptica ou séptica. Na séptica, a formação do trombo tem como substrato uma infecção, onde os agentes infecciosos, sendo o principal deles o Staphylococcus aureus1–4, instalam-se no organismo através da face, boca, olhos, dentes e seios da face. A trombose séptica do seio cavernoso (TSSC) é uma condição incomum5 e possui uma alta morbimortalidade6. Seu diagnóstico pode ser demorado pois outras infecções orbitárias podem se assemelhar bastante com o quadro clínico5. A dificuldade diagnóstica impacta diretamente o prognóstico da doença e, por isso, faz-se necessária uma intervenção terapêutica precoce para diminuir sequelas e desfechos insatisfatórios pela afecção.

A sintomatologia se apresenta com febre, vômitos, edema periorbital, cefaleia, ptose e paralisia dos músculos oculares6–8. De sintomas locais tem-se a tríade quemose conjuntival, edema de pálpebra e exoftalmia9,10. Assim, este trabalho relata um caso de um paciente pediátrico proveniente de um serviço terciário que, após a extração de acne na região da face, evoluiu com quadro infeccioso, onde foi diagnosticado com trombose do seio cavernoso pós-celulite periorbital e, posteriormente, óbito. Com isso, objetiva-se relatar o caso de uma complicação rara, a trombose do seio cavernoso secundária à celulite periorbitária, que teve evolução e prognósticos ruins associados ao diagnóstico tardio. Espera-se, portanto, que haja um melhor entendimento acerca da evolução natural da doença, que se aumente a previsão dos riscos ameaçadores de vida e seja possível contribuir para o reconhecimento precoce da condição.

 

RELATO DE CASO

Paciente, 14 anos, previamente hígido, apresentava lesão acneica em fronte esquerda, realizou extração manual dessa no dia 25/10/23 que evoluiu com hiperemia e edema ao redor, a qual se estendeu para as pálpebras e restante da face. Procurou atendimento médico e foi prescrito penicilina benzatina dose única e liberado para domicílio. O quadro evoluiu com dificuldade de abertura ocular, vômitos, inapetência e confusão mental. Foi encaminhado para um hospital terciário no dia 25/10 e admitido na unidade de terapia intensiva pediátrica, com avaliação das equipes de neurocirurgia e cirurgia vascular. Foi instituído tratamento antimicrobiano de amplo espectro com ceftriaxona, vancomicina e oxacilina endovenosos. No dia 29/10, o paciente realizou uma angiotomografia contrastada de crânio que identificou uma trombose infraorbitária superior esquerda com extensão para o seio cavernoso (Figura 1), sendo iniciado enoxaparina. No dia 01/11, o adolescente apresentava cefaleia leve, aumento da hemorragia conjuntival, picos febris e infiltrado intersticial em bases no raio-x de tórax. A dose de oxacilina foi otimizada e a vancomicina foi substituída por linezolida. Dois dias após, o enfermo relatou piora da cefaleia, início de dor cervical e mialgia. No exame físico, havia rigidez de nuca e febre, optou-se por retornar com a vancomicina, associar metronidazol e fenitoína profilática.

 

 

No dia 03/11, o adolescente relatou piora da cefaleia, início de dor cervical e mialgia durante a noite. Ao exame físico, estava com rigidez de nuca e apresentou pico febril. Foi prescrita dieta zero e solicitado parecer da infectologia, que descartou a presença de abscesso cerebral e a necessidade de uso de metronidazol. O resultado de tomografia de crânio evidenciou cerebrite temporal esquerda com provável abscesso em organização e sinais indiretos de aumento da pressão intracraniana (PIC). Por isso, foi optado pelo retorno da vancomicina associada ao metronidazol. Diante do quadro, paciente retornou à unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP) e foi iniciada fenitoína profilática. Foi registrado, também, o resultado do EcoDoppler transtorácico sem anormalidades.

No dia 04/11, o paciente manteve febre e dor ocular. Diante do quadro, foram administrados morfina, enoxaparina sódica profilática, colírio de dexametasona e ciprofloxacino. Foi realizada avaliação pela cirurgia de cabeça e pescoço, que descartou conduta cirúrgica naquele momento. Demais condutas anteriores mantidas.

No dia 05/11, o enfermo apresentou piora do padrão neurológico, caracterizado por agitação psicomotora, não obedeceu a comandos e pupila direita em midríase fotorreativa. A tomografia de crânio contrastada evidenciou abscesso cerebral. Devido à persistência da febre, foram suspensos ceftriaxona e metronidazol e iniciado meropenem.

Nos dois dias subsequentes, apesar da oscilação do quadro clínico, com manutenção da cefaleia, sonolência e febre, as demais condutas foram mantidas. Aguardavam o resultado da ressonância de crânio para definir conduta.

No dia 07/11/23, o laudo da ressonância de crânio e órbitas foi disponibilizado e descrevia o seguinte: coleções orbitárias intracanais mais proeminentes à esquerda, de provável natureza infecciosa. Achados sugestivos de apicite petrosa à esquerda e presença de coleções heterogêneas extra-axiais com captação periférica pelo gadolínio na base do crânio em contiguidade, conforme descrito no relatório, mais proeminentes no seio cavernoso esquerdo, junto à borda anterior do tentório, na margem anteromedial da fossa temporal esquerda do crânio, na sela turca, na cisterna pré-pontina e na margem lateral esquerda do compartimento infratentorial. Sinais de leptomeningite associada na base do crânio, com áreas de impregnação na superfície pial predominando ao nível da ponte e do mesencéfalo, recobrindo os nervos oculomotores e trigêmeo esquerdo, na cisterna supraselar e na fissura silviana esquerda. Pequenas falhas de enchimento compatíveis com trombose na porção mais alta das veias jugulares internas. Tênues focos de injúria isquêmica recente dispersos nos centros semiovais e no cerebelo à esquerda, presumidamente secundários ao quadro de leptomeningite supracitado. Nenhuma conduta a mais foi realizada após o resultado da ressonância.

Nos dias seguintes, a clínica do paciente oscilava entre cefaleia ocasional e febre, além de laboratoriais com alteração de hiponatremia, hipocalemia e hipomagnesemia com devidas correções. Aguardavam agendamento da abordagem cirúrgica das lesões pré-orbitária, temporal e pré-pontina.

No dia 12/11/23, o adolescente estava em dieta via oral livre, manteve febre, exoftalmia e edema esquerdo com amaurose (Figura 2). O tratamento com meropenem e vancomicina foi continuado, e aguardava-se a reavaliação pela equipe de oftalmologia. Foi prescrito carbamazepina 200 mg, a cada 12 horas.

 

 

No dia 13/11, o paciente estava alerta, porém oscilando com períodos de sonolência, afasia de expressão, proptose, rubor e secreção amarelada no olho esquerdo. Desse modo, no dia seguinte, foi submetido a uma microcirurgia de drenagem do abscesso temporal e infraorbitário sem intercorrências.

No dia 15/11, o doente apresentou novos episódios febris. A nova tomografia de crânio mostrou coleção epidural frontoparietal esquerda com importante efeito de massa e foi realizado novo tratamento cirúrgico de urgência para drenagem. O adolescente possuía pupila direita fixa, não reagente, com reflexo corneopalpebral presente, sem reflexo de tosse e sem drive respiratório.

No dia 16/11, estava em coma com sinais de herniação e isquemia difusa em tomografia de crânio, associados a choque neurogênico, sem resposta ao tratamento instituído.

Evoluiu com parada cardiorrespiratória às 16h34 e o óbito foi confirmado.

 

DISCUSSÃO

A trombose séptica do seio cavernoso tem incidência rara, e mortalidade de 20% a 30% após o advento de antibióticos e prevalência de 1% como complicação de celulite orbital11. O relato de caso foi um exemplo em que o diagnóstico tardio e o tratamento inicial inadequado levaram a um desfecho insatisfatório em um adolescente de 14 anos.

A equipe médica assistente não se atentou aos sinais de alerta de edema e hiperemia na pálpebra direita e restante da face. O tratamento inicial foi realizado com penicilina benzatina, antibiótico inadequado para tratar afecção de partes moles12. Segundo a literatura, o diagnóstico da celulite orbitária a partir do exame físico é desafiador. Os exames de imagem são recomendados na presença de sinais de alerta e o tratamento inclui antibioticoterapia de amplo espectro intravenosa com cefalosporina de terceira geração associada a vancomicina, doxiciclina e metronidazol a depender da evolução do quadro clínico4,5,12 e, como vimos anteriormente, essa medida foi instituída já tardiamente ao adolescente.

A infecção facial (celulite orbitária) progrediu por contiguidade, com a formação de trombose do seio cavernoso e, posteriormente, à formação de abscesso cerebral. Outro ponto crítico foi a demora da intervenção cirúrgica pela equipe médica assistente, visto que, segundo a literatura, a cirurgia do foco primário deve ser realizada o mais breve possível1,13. A antibioticoterapia adotada foi ceftriaxona, vancomicina e oxacilina, ainda não totalmente conforme a recomendação de associar vancomicina, metronidazol e cefalosporina de terceira geração1,2,9. As medidas para controle de aumento da pressão intracraniana, como manitol e dexametasona, são recomendadas, assim como anticoagulantes, e foram realizadas no caso relatado.

Desse modo, percebe-se que a condução de um caso de celulite orbitária que evoluiu com trombose venosa cerebral é difícil de manejar, devido à sua gravidade e raridade. Nesse contexto, é necessário que os profissionais de saúde se atentem para os sinais de alerta iniciais, a fim de mudar os desfechos e prognósticos desses casos. Na literatura há poucas recomendações terapêuticas, sobretudo de casos com evolução fatal, como este presente relato de caso1,9.

 

REFERÊNCIAS

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Data de Recebimento: 19/06/2025

Data de Aprovação: 13/10/2025

Data de Publicação: 11/08/2026

Sobre os autores

Informações sobre os autores não disponíveis.

Endereço para correspondência

Adriane Vianna Carbone
Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória
Av. Nossa Sra. da Penha, 2190 - Santa Luíza
Vitória - ES, 29045-402
E-mail: carbone.adri@gmail.com

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Como citar este artigo:

Carbone, AV, Gomes, MB, dos-Santos, MAF, Peçanha, PM. Trombose venosa cerebral pós-celulite orbitária em adolescente. Resid Pediatr. 16(2):1-4. DOI: 10.25060/residpediatr-2026-1504

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