INTRODUÇÃO
O número de pacientes com transtornos do neurodesenvolvimento e condições psiquiátricas está aumentando de forma alarmante. O transtorno do espectro autista (TEA) foi uma condição encontrada em 1 a cada 36 crianças de oito anos nos Estados Unidos (2,8%) em 2020, um grande aumento em relação à proporção verificada de 1 a cada 68 crianças de oito anos em 20121; no Brasil, o TEA foi encontrado em 2,4 milhões de pessoas, correspondendo a 1,2% da população brasileira e a 2,6% das crianças entre 5 e 9 anos2. Para o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), a prevalência mundial situa-se entre 3% e 6%, e está associada a outras condições, como transtorno do espectro autista, transtornos de aprendizagem, transtornos da fala e condições psiquiátricas, como tiques, depressão, ansiedade e transtorno opositor desafiador3. A deficiência intelectual é a condição neuropsiquiátrica mais comum em crianças e adolescentes, afetando 1% a 3% da população geral; o transtorno de aprendizagem, especialmente a dislexia, afeta 5% a 10% das crianças, e os transtornos mentais, especialmente depressão e ansiedade, apresentam prevalência de 10% a 20% em crianças em todo o mundo4-6. Todas essas condições causam limitações nas atividades diárias e no desenvolvimento da aprendizagem, e as crianças enfrentam dificuldades durante os anos escolares. O diagnóstico definitivo é realizado por neurologistas, psiquiatras e pediatras especializados, após avaliação por equipe multidisciplinar incluindo psicólogos e fonoaudiólogos. Entretanto, com o aumento da prevalência dessas condições, por vezes é difícil obter avaliação especializada. Os pediatras são os primeiros médicos em contato com pacientes e famílias e são profissionais-chave para a suspeita e triagem dessas condições.
Um estudo demográfico recente sobre a população médica no Brasil mostrou, em janeiro de 2024, um número de 598.573 médicos (2,81 médicos por 100.000 habitantes)7. Nesse estudo, também foram identificados 48.654 pediatras (22,81 por 100.000 habitantes menores de 18 anos)8, 6.776 neurologistas e 13.880 psiquiatras. Considerando que os números de neurologistas e psiquiatras são totais, provavelmente menos da metade é especializada em crianças, e a maioria vive em áreas urbanas, e não rurais. Em um estudo sobre a população de psiquiatras em 2008, verificou-se que havia um psiquiatra especializado em crianças para cada 621.504 crianças e adolescentes9. Esse estudo mostra que a oferta de psiquiatras no Brasil não atende à demanda e não está de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 3,3 psiquiatras especializados em crianças atuando em tempo integral por 100.000 crianças e adolescentes10, nem com a sugestão de 12 psiquiatras especializados em crianças por 100.000 pessoas nos Estados Unidos11. Essa situação é exposta em outro artigo, que mostra que aproximadamente apenas 20% das crianças com problemas psiquiátricos recebem tratamento adequado12.
Diante do aumento das condições do desenvolvimento e dos transtornos de aprendizagem, os pediatras precisam estar preparados para suspeitar, realizar testes de triagem, encaminhar a especialistas e orientar crianças e suas famílias. Nesta revisão, selecionamos alguns testes de triagem fáceis e rápidos para as condições mencionadas, a fim de possibilitar encaminhamento mais precoce e adequado a profissionais capazes de estabelecer o diagnóstico final. Além disso, a revisão também poderia fornecer, em um único documento, testes simples de triagem validados para falantes de português para algumas das condições neuropsiquiátricas mais comuns que desafiam os pediatras atualmente. Sugerimos que os pediatras saibam aplicar alguns testes de triagem úteis e de fácil aplicação, como o Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT-R/F, revised with follow-up), Autism Behavior Checklist (ABC), Swanson, Nolan and Pelham, versão IV (SNAP-IV), Autism Behavior Checklist (ABC), Teste de Desempenho Escolar II (TDE II), Children's Depression Inventory (CDI) e Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders – Child Version (SCARED-C).
FONTE DOS DADOS
Realizamos buscas no PubMed, SciELO e em páginas do Google por artigos de revisão sobre testes de triagem para TEA, TDAH, deficiência intelectual, transtornos de aprendizagem, depressão e sintomas de ansiedade. Como há poucos testes de triagem traduzidos para falantes de português, os artigos de revisão de cada condição ajudaram a identificar esses testes de triagem e, quando havia mais de um disponível em português, ajudaram a identificar o mais utilizado. Os artigos originais que traduziram e validaram os instrumentos para o português foram todos lidos na íntegra.
Testes de triagem recomendados
Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised with Follow-Up (M-CHAT-R/F)
O M-CHAT é um teste de triagem para identificar precocemente o risco de TEA em crianças pequenas. Ele foi desenvolvido após um teste de triagem prévio chamado CHAT, criado inicialmente em 1999 por Diana Robins, Deborah Fein e Marianne Barton. Possui 23 perguntas a serem respondidas pelos pais sobre crianças de 18 a 24 meses. Com alta sensibilidade e especificidade, foi traduzido para o português apenas em 200813. Posteriormente, foi revisado (M-CHAT-R/F), e o documento final de triagem passou a conter 20 perguntas e a oferecer uma avaliação sequencial (follow-up) para melhorar a sensibilidade, uma vez que muitos pacientes recebem resultado falso-positivo no teste de triagem. O teste de triagem e a avaliação de follow-up podem ser baixados em endereço eletrônico14.
O M-CHAT-R/F é um instrumento em duas etapas. A primeira etapa consiste em 20 perguntas de resposta "sim" ou "não", que levam aproximadamente cinco minutos para serem respondidas. Uma resposta "não" para todas as perguntas, exceto 2, 5 e 12, atribui um ponto por pergunta, e uma resposta "sim" para as perguntas 2, 5 e 12 também atribui um ponto por pergunta. Se a pontuação obtida for igual ou inferior a dois no M-CHAT-R/F, a criança é considerada de baixo risco e não precisa de seguimento. Se a pontuação estiver entre 3 e 7, a avaliação de follow-up deve ser realizada. O follow-up é um questionário de segunda etapa, que leva de 5 a 10 minutos e fornece informações adicionais. Se, na avaliação de follow-up, a criança reduzir a pontuação para valor igual ou inferior a 1, a triagem é negativa e não requer avaliação adicional. Se a pontuação permanecer elevada, ela deve ser avaliada por profissional especializado e encaminhada para intervenção precoce, pois apresenta risco de TEA. Por fim, se a pontuação for igual ou superior a 8, a criança apresenta risco de TEA e deve ser encaminhada para avaliação especializada e intervenção precoce. Crianças com resultado positivo no M-CHAT-R/F têm 114 vezes mais probabilidade de receber diagnóstico de TEA do que aquelas com resultado negativo. Crianças menores de 24 meses devem sempre ser reavaliadas, conforme recomendado pela American Academy of Pediatrics15. Trata-se de um teste de triagem tão importante que foi incorporado à caderneta de vacinação brasileira desde 202416.
Autism Behavior Checklist (ABC)
Essa escala foi desenvolvida inicialmente como parte do estudo "Autism Screening Instrument for Educational Planning study (ASIEP-2 study)", apresentado em 2002, com cinco subescalas: Autism Behavior Checklist (ABC), Sample of Vocal Behavior, Interaction Assessment, Educational Assessment e Learning Rate Prognosis. O ABC contém uma lista de comportamentos atípicos e é destinado à triagem de TEA, sendo de fácil aplicação e baixo custo; por isso, tem sido utilizado na prática clínica e em pesquisas por profissionais de saúde em muitos países17. No Brasil, foi traduzido e validado para falantes de português em 2005 com o nome "Inventário de Comportamentos Autísticos" (ICA). Uma cópia dessa versão validada e traduzida para o português pode ser acessada em endereço eletrônico18.
Trata-se de um conjunto de 57 perguntas de resposta "sim" ou "não" para os pais sobre o comportamento de seus filhos menores de seis anos, em cinco áreas: sensorial, relacionamento, uso do corpo e de objetos, linguagem e autocuidado social, com pontuações de 1 a 4. Se a pontuação total for igual ou superior a 68, o paciente apresenta alto risco de TEA; pontuações de 54 a 67 indicam risco moderado de TEA; pontuações de 47 a 53 são inconclusivas; e pontuações inferiores a 47 indicam ausência de risco para TEA. Outro ponto de corte (49 ou 54) foi sugerido para aumentar a especificidade da triagem, mas o ponto de corte original permanece mais útil17,19.
Swanson, Nolan and Pelham, versão IV (SNAP-IV)
O SNAP-IV é uma escala para TDAH que sucedeu o SNAP-III e o SNAP-III-R (revisado), baseada no DSM-III (1980) e no DSM-IIIR (1987), respectivamente, com uma escala de gravidade de quatro níveis, variando de 0 (nem um pouco) a 3 (demais). Foi traduzido pela primeira vez para o português brasileiro em 200620 e validado em 201921. O SNAP-IV é composto por dezoito perguntas, nove com sintomas de desatenção, seis com sintomas de hiperatividade e três com sintomas de impulsividade, a serem respondidas pelos pais sobre seus filhos maiores de 5 anos. Uma cópia dessa versão validada e traduzida para o português pode ser acessada em endereço eletrônico22.
O SNAP-IV do Multimodality Treatment Study (MTA) é composto por 26 perguntas, incluindo oito perguntas com sintomas de transtorno opositor desafiador. Seis perguntas com respostas como "bastante" ou "demais" para desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade sugerem risco para TDAH. Um estudo para avaliar a validade do SNAP-IV em crianças de 1 a 5 anos está em andamento23.
Aberrant Behavior Checklist (ABC)
Infelizmente, não foi possível identificar um teste de triagem para coeficiente de inteligência que possa ser utilizado por pediatras. Versões anteriores do coeficiente de inteligência de Binet-Simon, que podiam ser aplicadas por professores e profissionais de saúde, foram substituídas ao longo dos anos por testes que só podem ser aplicados por psicólogos, como a Wechsler Intelligence Scale for Children IV (WISC-IV) e as matrizes progressivas de Raven6,24. Entretanto, o Aberrant Behavior Checklist é um teste de triagem para avaliar a resposta à terapia (farmacológica ou não farmacológica) em pacientes com deficiência mental, que pode ser aplicado por pediatras. Foi desenvolvido em 1985 na Nova Zelândia e traduzido e validado para falantes de português em 201125. É composto por 58 perguntas de quatro pontos sobre o comportamento no último mês, nas quais 0 significa "sem problema", 1 significa "problema leve", 2 significa "problema moderado" e 3 significa "problema grave". Há uma cópia dessa escala no apêndice do manuscrito25. Nessa triagem, a diferença nas pontuações antes e depois da intervenção demonstra a eficácia ou não da terapia26,27.
Teste de Desempenho Escolar, Test for School Achievement (TDE II)
O TDE é um teste inspirado no "Wide Range Achievement Test" (Wilkinson, 1993), que foi inicialmente elaborado e validado em 1994 para avaliar o desempenho escolar do primeiro ao sexto ano em leitura, escrita e matemática. Uma revisão do uso do TDE em artigos científicos mostrou que 222 artigos de 1994 a 2011 utilizaram esse teste de triagem; entretanto, com o passar dos anos e mudanças em algumas normas legais educacionais (ensino fundamental de nove anos em vez de oito), recomendou-se que a ferramenta fosse revisada28.
O TDE foi revisado e validado em 2019, e a nova versão foi denominada TDE II, com duas versões: uma do primeiro ao quarto ou quinto ano e outra do quinto ou sexto ao nono ano, avaliando habilidades de escrita, raciocínio matemático e leitura, nessa sequência. Em todos os testes, a dificuldade é menor no início e aumenta à medida que o teste avança; após dez respostas erradas nos testes de leitura e escrita e seis no teste de matemática, o teste é interrompido.
Ao final, as pontuações de cada área são comparadas em um gráfico com percentis e classificadas como inferiores, médias ou superiores para cada ano escolar e para estudantes de escola pública ou privada29-31. Pontuações baixas podem justificar uma investigação mais específica para diagnosticar transtornos de aprendizagem em crianças. Trata-se de um teste de amplo espectro para aplicação por professores e profissionais de saúde, mas não pode ser utilizado em crianças não alfabetizadas e só pode ser adquirido ao custo aproximado de US$ 142,00.
Children's Depression Inventory (CDI)
O Children's Depression Inventory foi o primeiro teste de triagem para depressão em crianças, criado em 1983, composto por 27 perguntas a serem aplicadas em crianças de 7 a 17 anos. É a ferramenta de triagem mais utilizada e foi validada para falantes de português em 1995, em uma versão curta de 20 perguntas a ser respondida em quinze minutos32. A versão original permanece mais consistente. As respostas às perguntas são ausência de sintoma (0 ponto), presença de sintoma (1 ponto) e presença de sintoma grave (2 pontos), de acordo com os sintomas vivenciados nas últimas duas semanas, com ponto de corte de 17. Uma cópia dessa versão longa e curta validada e traduzida para o português pode ser acessada em endereço eletrônico33,34. No entanto, são necessários mais estudos para definir o melhor número de perguntas (17, 20 ou 27), o melhor ponto de corte (16 ou 17) e outra metodologia (teoria de resposta ao item) para classificá-lo como um teste de triagem de alta qualidade35.
Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders – Child Version (SCARED-C)
O SCARED é um teste de triagem de 38 perguntas para ansiedade, criado em 1987, que compreende cinco domínios do DSM-IV: transtorno de ansiedade de separação, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade social e transtorno de ansiedade escolar, com três pontos para cada pergunta; 0 significa "quase nunca", 1 significa "um pouco" e 2 significa "muito". A pontuação máxima é de 76 pontos, e 25 é o ponto de corte para ansiedade patológica. Posteriormente, foi modificado em 1997, chegando a 66 perguntas para contemplar os últimos domínios remanescentes do DSM-IV: transtorno de estresse pós-traumático, transtorno obsessivo-compulsivo e fobia específica. No Brasil, uma escala de 41 perguntas foi traduzida e validada para o português em 2011, para ser aplicada em crianças sobre sintomas vivenciados nos últimos três meses36,37. Uma cópia dessa versão longa e curta validada e traduzida para o português pode ser acessada em endereço eletrônico38.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O diagnóstico precoce de condições do neurodesenvolvimento e psiquiátricas é necessário para melhorar as habilidades dos pacientes, promover adaptação ambiental e melhorar a qualidade de vida. Testes de triagem são ferramentas úteis para identificar pacientes em risco de uma doença ou condição. Os testes de triagem selecionados nesta revisão são todos traduzidos e validados para falantes de português, de fácil aplicação e os mais comumente utilizados na prática clínica regular e em pesquisas para suspeita de transtorno do espectro autista, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, transtornos de aprendizagem, depressão e ansiedade, bem como na avaliação do sucesso terapêutico em crianças com deficiência intelectual. Os pediatras são os primeiros médicos em contato com crianças e suas famílias e são profissionais-chave para levantar suspeitas diagnósticas precoces de condições do neurodesenvolvimento e psiquiátricas e encaminhar a profissionais especializados para diagnóstico final e intervenção. Portanto, os pediatras devem estar atentos a esses testes de triagem e aprimorar suas práticas clínicas com as versões mais recentes e mais utilizadas dessas ferramentas no Brasil. Além disso, esse conteúdo deve ser ensinado a estudantes de medicina, em programas de residência pediátrica e atualizado em congressos e atividades de educação continuada, a fim de ampliar o conhecimento dos profissionais sobre um tema tão atual.
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Data de Recebimento: 10/07/2025
Data de Aprovação: 25/09/2025
Data de Publicação: 11/08/2026