INTRODUÇÃO
O tumor edematoso de Pott (PPT) é uma entidade clínica rara caracterizada por osteomielite do osso frontal, com um ou mais abscessos subperiosteais comunicantes. Essa doença é uma complicação potencial da rinossinusite frontal ou etmoidal, mas também pode estar associada a traumatismo craniano, uso abusivo de drogas por via intranasal e doenças dentárias. Quando causada por colonização bacteriana, geralmente envolve mais de um microrganismo, incluindo principalmente Streptococcus (35,5%), Staphylococcus (21,2%), Fusobacterium (5,3%), Pseudomonas (3,4%) e Prevotella (2,2%)1.
Essa comorbidade manifesta-se por edema localizado na cabeça, face ou região periorbitária, acompanhado de sinais inflamatórios. Os sintomas associados incluem cefaleia, fotofobia, rinorreia, febre, náuseas, vômitos, letargia, convulsões e déficits neurológicos focais, caso haja envolvimento cerebral2. A infecção pode migrar dos seios paranasais para o espaço periorbitário e resultar em celulite orbitária ou abscesso orbitário. Além disso, pode atingir o espaço intracraniano por meio das veias diploicas e resultar na formação de abscessos epidurais, abscessos subdurais, meningite e encefalite3.
O PPT geralmente é tratado com antibióticos associados a uma intervenção cirúrgica. As intervenções cirúrgicas endoscópicas ou abertas, com ou sem drenagem externa, são técnicas frequentemente necessárias após o tratamento medicamentoso2. Relatamos um caso de PPT ocorrido em um hospital no extremo Sul do Brasil, acompanhado de uma breve revisão da literatura.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo feminino, 10 anos de idade, previamente hígida e sem uso de medicamentos contínuos, relatou cefaleia e edema facial, com febre de 38°C, durante cinco dias. Apresentou previamente uma infecção do trato respiratório superior, tratada com amoxicilina e clavulanato, sem melhora. Após três dias, evoluiu com edema periorbitário bilateral, fotofobia, cefaleia e febre. Foram prescritos ceftriaxona, hidrocortisona e prometazina, com melhora parcial do edema periorbitário.
Ao exame físico, apresentava edema periorbitário bilateral e edema na região frontal, com dor à palpação, sem sinais inflamatórios associados. Os exames laboratoriais na admissão mostraram leucocitose discreta, com predomínio de neutrófilos segmentados, e proteína C-reativa de 170.3 (valor de referência: <10 mg/L). Foi solicitada tomografia computadorizada (TC) da face e das órbitas com contraste, que evidenciou pansinusopatia inflamatória/infecciosa aguda, com celulite periorbitária e frontotemporal bilateral, abscesso subgaleal frontal e edema subdural frontal esquerdo (Figura 1).

Vancomicina e metronidazol intravenosos foram associados à ceftriaxona, além de lavagem nasal com solução salina. Foi realizada ressonância magnética (RM) do encéfalo com contraste, demonstrando a presença de um abscesso determinado pela continuidade do seio frontal com o tecido celular subcutâneo, empiema subdural na convexidade frontal esquerda e sinais de paquimeningite (Figura 2). Diante dos achados de imagem e da condição clínica da paciente, foi estabelecido o diagnóstico de PPT.

Após oito dias de antibioticoterapia intravenosa, sem redução do abscesso, foram drenados 25 mL de conteúdo pio-hemático por meio de punção frontal. Foram coletadas amostras para cultura, que não apresentaram crescimento bacteriano. Seis dias depois, foi realizada uma nova tomografia computadorizada do encéfalo com contraste, indicando redução significativa da coleção subgaleal frontal.
A paciente permaneceu hospitalizada por 25 dias, sob tratamento conservador. A antibioticoterapia teve duração de 22 dias. Uma RM do encéfalo com contraste, realizada antes da alta hospitalar, mostrou apenas sinusite inflamatória. A paciente recebeu alta com prescrição de amoxicilina com ácido clavulânico por duas semanas. Uma semana após a alta, encontrava-se assintomática.
DISCUSSÃO
O PPT é uma complicação rara da rinossinusite crônica, na qual a infecção invade os tecidos e o osso frontal, com formação de abscesso subperiosteal e osteomielite frontal4. A doença é mais comum entre adolescentes devido ao aumento do fluxo sanguíneo das veias diploicas que drenam o seio frontal nesse período da vida, à conexão menos compacta entre a medula óssea e os seios frontais e à pneumatização incompleta dos seios paranasais até os 15 anos de idade5. Suas apresentações clínicas são variadas, mas o edema progressivo dos tecidos frontais é característico da doença e pode ser acompanhado de cefaleia, febre, fadiga e inapetência5,6. Em casos complicados com envolvimento intracraniano, os pacientes podem apresentar sintomas característicos de meningite, encefalite, abscesso cerebral e aumento da pressão intracraniana (PIC). Além da sinusite, outros fatores facilitadores podem levar ao desenvolvimento do PPT, como histórico de neurocirurgia, trauma, infecções dentárias, uso abusivo de drogas e imunossupressão5. A história natural mais comum da doença é a evolução de uma infecção sinusal não resolvida, causada por bactérias das famílias dos estreptococos e estafilococos, e a maioria dos diagnósticos é tardia, após o aparecimento de edema na região frontal e/ou envolvimento intracraniano com sintomas neurológicos6,7. Exames de imagem são comumente utilizados para confirmar o diagnóstico, sendo a tomografia computadorizada e a ressonância magnética os mais utilizados para avaliar a extensão da doença e o envolvimento intracraniano5.
Há uma ampla variedade de tratamentos disponíveis para o PPT, embora não existam diretrizes estabelecidas. O tratamento cirúrgico endoscópico ou aberto tem como objetivo drenar a secreção, reparar o osso afetado e, por vezes, realizar cirurgias dos seios paranasais. Apesar disso, antibióticos intravenosos de amplo espectro são frequentemente utilizados8. Neste caso, foi realizado tratamento com os antibióticos ceftriaxona, vancomicina e metronidazol, além de punção frontal, sem realização de intervenção cirúrgica. A indicação do procedimento cirúrgico não é clara, e podemos observar, em um relato de caso com características semelhantes às da nossa paciente, que a resolução do caso após o procedimento cirúrgico foi semelhante9, embora, nesse caso, não houvesse risco cirúrgico associado. Vale ressaltar que uma minoria dos casos, cerca de 5%, de acordo com uma revisão sistemática recente, foi tratada apenas com antibióticos8, destacando o caráter excepcional deste relato.
CONCLUSÃO
No presente caso, optou-se pelo manejo conservador, mesmo com o envolvimento das meninges, sob um regime de antibioticoterapia intravenosa e realização de punção para reduzir o volume do abscesso. Este caso pode ser considerado um exemplo de conduta, exigindo uma avaliação cuidadosa da necessidade de intervenção cirúrgica em casos complicados.
Concluímos que o PPT ainda é uma complicação pouco conhecida pelos médicos devido à sua taxa de diagnóstico tardio e que são necessários mais estudos para estabelecer uma uniformidade em seu tratamento, especialmente no que diz respeito ao uso de uma abordagem conservadora ou cirúrgica.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Financiamento: Os autores declaram que não receberam financiamento específico para a realização deste estudo.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Número CAAE de aprovação no Comitê de Ética: 79362024.0.0000.5324
REFERÊNCIAS
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3. Tibesar RJ, Azhdam AM, Borrelli M. Pott’s puffy tumor. Ear Nose Throat J. 2021;100(6 Suppl):870S-2S. DOI: https://doi.org/10.1177/01455613211039031
4. Min HJ, Kim KS. Odontogenic sinusitis-associated Pott’s puffy tumor: a case report and literature review. Ear Nose Throat J. 2022;101(4):NP186-8. DOI: https://doi.org/10.1177/0145561320952203
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7. Behbahani M, Burokas L, Rosinski CL, Rosenberg DM, Chaudhry NS, Sherman JM, et al. Treatment of pediatric extra-axial sinogenic infection: case series and literature review. Childs Nerv Syst. 2020;36(4):755-66. Doi: https://doi.org/10.1007/s00381-019-04378-8
8. Sideris G, Davoutis E, Panagoulis E, Maragkoudakis P, Nikolopoulos T, Delides A. A systematic review of intracranial complications in adults with Pott puffy tumor over four decades. Brain Sci. 2023;13(4):587. DOI: https://doi.org/10.3390/brainsci13040587
9. Furtado LMF, Nunes LCG, Fernandes CG, Pinto PCG, Filho JACV. Clinical management and neurosurgical approach of Pott’s puffy tumor: a case report. Cureus. 2024;16(7):e63686.
Data de Recebimento: 31/10/2024
Data de Revisão: 31/10/2024
Data de Aprovação: 29/06/2026
Data de Publicação: 10/09/2026