INTRODUÇÃO
A tuberculose (TB) é uma doença infecciosa e transmissível, causada pelo Mycobacterium tuberculosis (Mtb). A doença afeta prioritariamente os pulmões (forma pulmonar), embora também possa acometer outros órgãos e/ou sistemas, sendo então classificada como forma extrapulmonar. A transmissão da TB acontece por via respiratória, pela eliminação de aerossóis produzidos pela tosse, fala ou espirro de uma pessoa com TB ativa (pulmonar ou laríngea), sem tratamento, e a inalação de aerossóis por um indivíduo suscetível1.
Todas as faixas etárias podem ser acometidas. Estima-se que 850.000 adolescentes — definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como indivíduos compreendidos entre 10 e 19 anos — adoecem com TB a cada ano2,3. Somado a esse grupo, ao incluir também os adultos jovens (20 a 24 anos), estima-se aproximadamente 18% da incidência global de TB2,4. Embora seja uma doença evitável e um tratamento bem estabelecido, a TB ainda é uma das principais causas de morte entre essa população mundialmente5.
Os adolescentes podem ainda ser divididos em “adolescentes jovens” para aqueles com idades entre 10 e 14 anos, e “adolescentes velhos” com idades entre 15 e 19 anos, como caracterizado por Snow et al. (2023)3, que também considera o grupo entre 20 e 24 anos como “jovens adultos”.
No período da vida entre 10 e 24 anos, os indivíduos passam por uma transição crucial em que ocorre um rápido crescimento e desenvolvimento, além de modificações físicas, cognitivas, emocionais, sociais e econômicas que servem como base para alcançar saúde e bem-estar na vida adulta6,7.
Durante a adolescência e a idade adulta jovem, a incidência da TB aumenta consideravelmente, conforme evidenciado pelas taxas de notificação em todos os locais, e tal fato decorre, provavelmente, por uma combinação de fatores. Primeiro, a força da infecção por TB aumenta durante esse período. Em segundo lugar, o risco depende da idade de progressão da infecção por Mtb para a doença — que é mais alta nos primeiros cinco anos de vida e depois diminui durante os anos escolares primários, aumenta na adolescência e atinge o pico novamente entre as idades de 20 a 29 anos2. Estudos de coorte de meados do século 20 também demonstraram que esse risco era maior para meninas adolescentes na época da menarca. As razões subjacentes a esse aumento do risco de progressão permanecem obscuras, mas provavelmente decorrem de alterações relacionadas à puberdade na resposta imune ao Mtb8. Além disso, muitas vezes há dificuldade na identificação do caso-fonte, convívio em aglomerações e uso de substâncias ilícitas, que contribuem para o adoecimento nesse grupo9.
Dado o grande número de adolescentes e jovens adultos afetados pela TB e a importância dessa fase do desenvolvimento para o estabelecimento dos fundamentos de uma vida adulta saudável e produtiva8, é fundamental o empenho em explorar o impacto de como a doença afeta esses indivíduos, bem como caracterizar as possíveis variáveis que influenciam todo esse processo. Somado a isso, muitas vezes há dificuldade na identificação do caso-fonte, o convívio em aglomerações e uso de drogas, como fatores de risco para adoecimento neste grupo.
MATERIAIS E MÉTODOS
Estudo retrospectivo e transversal, do tipo série de casos. Foram incluídos pacientes de 10-20 anos com diagnóstico de TB, internados na enfermaria do hospital universitário, no período de janeiro de 2022 a dezembro de 2023. Os dados foram obtidos através de coleta em prontuário. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, sob CAAE número 76148923.6.0000.5259.
RESULTADOS
Foram incluídos 6 pacientes com perfil clínico descrito no Quadro 1. Dentre eles, 2 são do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Além disso, 2 eram previamente hígidos e 4 apresentavam alguma comorbidade prévia. Quanto à história de contato, apenas um possuía história epidemiológica positiva. Em relação às formas de apresentação, 2 dos casos correspondiam à forma pulmonar e 4 à forma extrapulmonar, sendo eles caracterizados por 1 caso de TB peritoneal, 1 caso de TB ganglionar, 1 de TB pericárdica e 1 à forma combinada (peritoneal e pleural).

A adenosina deaminase (ADA) é produzida por linfócitos e monócitos, e está aumentada nas doenças em que essas células estão ativadas, que é o caso da TB1. Na população estudada, no caso em que ela foi empregada, houve positividade ao método, contribuindo para o diagnóstico.
Dentre os exames realizados para diagnóstico, o Xpert MTB/RIF (Xpert) foi o que apresentou maior positividade entre os casos analisados, totalizando 4/6 resultados positivos, confirmando o diagnóstico. No paciente de número 2, apesar da não confirmação bacteriológica, a pericardite constritiva, associada à não melhora do derrame pericárdico com tratamento para germes comuns, corroboraram com diagnóstico de TB. No de número 6, além da não resposta clínica e radiológica com antibioticoterapia, o resultado do IGRA indeterminado contribuiu para o diagnóstico. Todos os pacientes apresentaram melhora clínica e/ou radiológica após 2 meses do início do tratamento da TB.
DISCUSSÃO
Apesar de a TB pulmonar ser a forma mais prevalente em todas as faixas etárias10, o predomínio da forma extrapulmonar provavelmente deu-se pela presença de comorbidades na população estudada11. As comorbidades foram prevalentes pelo fato de o estudo ter sido realizado em um hospital universitário, que atende especialidades pediátricas, por sua vez, estão relacionadas a algum grau de imunossupressão pela própria doença ou pelo uso de medicamentos imunossupressores12-14, que favorecem a disseminação hematogênica do Mtb e, assim, o desenvolvimento da TB extrapulmonar15-17. Dentre os casos de TB extrapulmonar, a peritoneal foi a mais prevalente, apesar de habitualmente rara, como demonstrado na literatura18.
Em relação ao isolamento bacteriológico, o Xpert apresentou grande contribuição, principalmente nas formas extrapulmonares que habitualmente são paucibacilares11. Esse teste molecular é baseado na amplificação de ácidos nucleicos para a detecção de DNA dos bacilos do complexo Mtb e triagem de cepas resistentes à rifampicina pela técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR) em tempo real, com resultados em aproximadamente 2h. É importante ressaltar que o fato de o método ser baseado em PCR em tempo real, sua sensibilidade se aproxima à da cultura, o que auxilia no diagnóstico das formas em que a população bacilar é baixa19. Os espécimes avaliados pelo método se enquadram naqueles recomendados nas normas nacionais, para avaliação desse, que foram líquidos cavitários, macerados de tecidos, linfonodo e amostra respiratória20. Em relação aos marcadores da infecção pelo Mtb, a prova tuberculínica (PT) é baseada na resposta imune intradérmica celular aos antígenos celulares das micobactérias. Já os testes IGRA detectam os níveis in vitro do interferon-gama produzido por células T que tenham sido estimuladas por antígenos de TB purificados ou sintetizados. Portanto, ambos são testes indiretos que medem as respostas imunológicas. Entre eles, o IGRA apresentou maior contribuição nos casos em que foi realizado, provavelmente pela maior positividade acontecer em adolescentes e adultos21.
Apesar de amplamente utilizado no rastreio da ILTB, o IGRA enfrenta desafios em grupos específicos, como crianças menores de 5 anos e imunossuprimidos22. Nessas populações, os resultados indeterminados são mais comuns devido à imaturidade imunológica em crianças e à disfunção do sistema imunológico em imunossuprimidos, que comprometem a produção adequada de IFN-γ pelos linfócitos T22,23. Isso pode ocorrer, por exemplo, em pacientes com HIV, em uso de imunobiológicos ou com imunodeficiências primárias, resultando em falha do controle positivo do teste. O IGRA foi incorporado ao Sistema de pontuação para TB, do MS, em 2022, de forma que o resultado “indeterminado tivesse a mesma pontuação que “positivo”, tornando-se assim mais uma ferramenta para auxiliar no diagnóstico dos casos de TB pulmonar presumida em crianças24.
Entre os diferentes métodos de abordagem inicial dos pacientes com TB presumida, os exames de imagem contribuem para o diagnóstico e, entre eles, estão incluídas a radiografia de tórax e a tomografia computadorizada. Em dois dos casos descritos, verificou-se a radiografia sem alterações significativas, entretanto as tomografias correspondentes eram alteradas. Embora a radiografia do tórax seja o mais importante método de imagem no diagnóstico e acompanhamento de pacientes com TB, a tomografia é mais sensível e específica que a radiografia do tórax, podendo demonstrar alterações iniciais ainda imperceptíveis pelo método radiográfico, estando indicada sua realização em casos de maior complexidade e dificuldade diagnóstica19.
Com base nos dados analisados, podemos concluir que muitos adolescentes ainda são acometidos pela TB, entre as mais diversas formas de apresentação, mesmo, muitas vezes, não possuindo uma clara relação com contatos positivos prévios. A resposta imunológica dessa população à TB pode estar enfraquecida devido à puberdade, coinfecções, comorbidades prévias, uso de substâncias e desnutrição, impactando na patogênese da doença. Já o risco de exposição à TB pode ser influenciado por mudanças na vida social e/ou cotidiana desses indivíduos25-27. Além disso, podemos considerar também a importância de manter uma triagem contínua entre os imunossuprimidos — sobretudo HIV-positivos, mas também sob bloqueio de TNF-α/uso de imunossupressores, ou em desnutrição — visto o risco aumentado de acometimento12-14,28. Ademais, podemos ratificar ainda a significativa contribuição que os testes moleculares demonstram para o diagnóstico da doença.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Financiamento: Os autores declaram que não receberam financiamento específico para a realização deste estudo.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Número CAAE de aprovação no Comitê de Ética: 76148923.6.0000.5259
REFERÊNCIAS
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Data de Recebimento: 10/07/2025
Data de Revisão: 10/07/2025
Data de Aprovação: 11/08/2025
Data de Publicação: 10/09/2026