Quando comecei a ler o livro Todo Paciente Tem uma História para Contar1, uma frase das primeiras páginas chamou imediatamente minha atenção. Ao abordar diagnósticos difíceis “com erros e tudo”, a autora afirma que “estes médicos não se distinguem por seus erros, mas sim pela disposição em discuti-los”. A partir dessa perspectiva da medicina como arte, paixão e aprendizado constante, decidi elaborar esta resenha descritiva da obra, que resgata aspectos históricos, emocionais, filosóficos e éticos da prática médica, além de promover reflexões importantes sobre nossa prática cotidiana e a formação médica atual.
O livro inspirou elementos da série televisiva House, da qual a Dra. Lisa Sanders, formada pela Universidade de Yale, participou como consultora técnica. A leitura é fluida, envolvente, marcada por linguagem acessível e momentos de humor. A obra aborda o processo diagnóstico, especialmente os casos difíceis, por meio da apresentação de diferentes histórias clínicas. A autora define esses casos como situações em que os sintomas são pouco sugestivos, o exame físico pouco esclarecedor e os exames complementares potencialmente enganosos. Nesses contextos, a medicina revela-se novamente como arte, exigindo do médico uma postura investigativa sobre a história, os detalhes do exame físico negligenciados e os exames que podem levar ao diagnóstico correto.
Ao longo do livro, Sanders discute o erro diagnóstico e suas causas, reforçando a importância da história clínica mesmo em uma época marcada por grande avanço tecnológico. Contudo, para a autora, não basta apenas coletar informações; o diferencial está na forma como a história é construída. A boa anamnese é apresentada como um processo colaborativo entre médico e paciente, em detrimento da prática de querer saber “apenas os fatos”. Ao citar William Osler — “É muito mais importante saber que tipo de paciente tem a doença do que que tipo de doença o paciente tem” —, Sanders enfatiza que o paciente deve contar sua história de maneira livre e completa, já que o adoecimento, mais que uma série de sintomas, envolve sentimentos, significados e percepções individuais que podem influenciar a comunicação.
Outro ponto importante da obra é o resgate da humanização da prática médica. A autora pondera que, “ao confundir a história que criaram sobre a doença com o paciente em si”, este pode ser reduzido apenas ao diagnóstico, contribuindo para o distanciamento emocional entre médico e paciente. Assim, surge o risco de formação de profissionais tecnicamente competentes, mas incapazes de enxergar o paciente como um ser humano.
Sanders também discute a perda da centralidade do exame físico no processo diagnóstico, incorrendo em algumas práticas equivocadas e perigosas como o exame por cima das roupas. Entre as razões apresentadas estão a crescente confiança nos métodos tecnológicos, principalmente em situações de gravidade, e a dificuldade com o exame físico por ser “psicologicamente intimidante”.
Acredito que todos nós queremos ser melhores médicos, e esse livro traz o alerta para o constante monitoramento de nossas práticas e de nossos alunos, inclusive as dimensões humanísticas. É um lembrete importante em qualquer momento, mas principalmente em tempos de Inteligência Artificial. Vale a pena ler!
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
Financiamento: Os autores declaram que não receberam financiamento específico para a realização deste estudo.
Conflito de interesses: Os autores declaram não haver conflito de interesses.
Número CAAE de aprovação no Comitê de Ética: Não se aplica.
REFERÊNCIA
1. Sanders L. Todo paciente tem uma história para contar: mistérios e aventuras da arte do diagnóstico. Rio de Janeiro: Zahar; 2010.
Data de Recebimento: 11/06/2026
Data de Revisão: 11/06/2026
Data de Aprovação: 12/06/2026
Data de Publicação: 20/10/2026