As infecções respiratórias representam uma das cinco principais causas de óbito em crianças menores de cinco anos de idade nos países em desenvolvimento, sendo responsáveis por cerca de 3 milhões de mortes/ano. Porém, das infecções respiratórias, apenas 2-3% evoluem para pneumonia1. A incidência anual é de 150,7 milhões de casos novos de PAC (pneumonia adquirida na comunidade), dos quais 11 a 20 milhões (de 7 a 13%) necessitam de internação hospitalar devido à gravidade2.
A PAC em crianças continua a ser um problema de saúde pública global em virtude de sua alta morbimortalidade, sendo a doença que mais mata crianças entre 0 e 5 anos de idade no mundo3.
Se a criança permanece com febre ou clinicamente instável após 48-72h da admissão por PAC, possivelmente trata-se de um quadro de PAC complicada4.
MÉTODOS
Descrever o perfil clínico dos pacientes com PAC complicadas com idades de 0 a 13 anos, internadas em determinado hospital, entre abril de 2006 e abril de 2018. Estudo observacional, descritivo e retrospectivo. Foram levantados dados dos pacientes com PAC complicadas internados em um hospital pediátrico, no período de abril de 2006 até abril de 2018.
RESULTADOS
Inicialmente selecionou-se 433 casos que foram internados em um hospital pediátrico no período de abril de 2006 até abril de 2018, sendo as PAC complicadas correspondentes a um total de 118 casos.
As complicações pulmonares encontradas foram: atelectasias, abscesso, derrame pleural, pneumatocele. As complicações extrapulmonares tiveram uma frequência de 37 casos (31,3%), incluindo sepse, síndrome torácica aguda, rebaixamento do nível de consciência, queimadura facial por máscara fullface, convulsão e diarreia.
Foi observado que 20 crianças que desenvolveram PAC complicadas frequentavam creches no momento do diagnóstico (24,6%), considerando-se as crianças com idade inferior a 4 anos.
Dos casos avaliados, 29 (24,5%) apresentavam comorbidades com diagnóstico prévio a PAC.
A vacinação estava atualizada em 37 (63,8%) crianças e adolescentes após o ano de 2010, época em que a vacinação antipneumocócica foi introduzida no calendário vacinal do Ministério da Saúde.
As principais manifestações clínicas presentes à admissão foram: tosse em 48,3%, febre em 46,6% e dispneia em 38,9%.
Apesar da evolução complicada, inicialmente 28 crianças (23%) se apresentaram em bom estado geral. A taquipneia estava presente em 86 pacientes (72,8%) no momento da admissão hospitalar. Em relação a ausculta pulmonar, o mais prevalente foi a redução do murmúrio vesicular, presente em 74 crianças, correspondendo a 62,7% dos casos. Também foram encontrados estertores em 39 (33%), sibilos em 23(19,4%) e mais raramente, sopro tubário, presente em 2 (1,7%) pacientes.
Foi encontrado no estudo um valor satisfatório de coleta de hemoculturas, presentes em 114 (96,6%) dos casos. Destes, apenas 14 (12,2%) apresentaram crescimento bacteriano.
DISCUSSÃO
O presente trabalho evidenciou que em determinado hospital pediátrico, a maioria dos pacientes que apresentou PAC complicadas encontra-se na faixa etária menor que cinco anos de idade. A Organização Mundial da Saúde estimou, para o ano de 2013, que aproximadamente 3,257 milhões de crianças com idades inferiores a 5 anos morreram por doenças infecciosas em todo o mundo, sendo que dessas, 14,9% tiveram como principal causa as PACs5.
No presente estudo não se obteve a cobertura preconizada de vacinação para redução no número de casos, já que apenas 63,8% das crianças internadas em determinado hospital pediátrico, após 2010, com PAC complicada, estavam com a vacinação atualizada. O Ministério da Saúde preconiza como 95% a taxa ideal de cobertura vacinal capaz de dar eficiência à vacina pneumocócica 10‐valente na redução de casos de PAC e outras doenças pneumocócicas invasivas2.
Entre as hemoculturas positivas neste hospital pediátrico, 50% foram identificados pneumococos, sendo os outros 50% divididos em igual frequência entre Staphylococcus aureus, coagulase negativo, Streptococcus hominis e Haemophylus influenzae. Na literatura relata-se que a positividade das amostras de hemoculturas é inferior a 10%, valor muito próximo ao encontrado no trabalho (12,2% de hemoculturas positivas)6.
Em relação às PAC complicadas, a complicação mais frequente relatada na literatura é o derrame pleural7.
Quase 60% dos nossos pacientes desenvolveram empiema. Segundo Pabary et al. (ANO)8, 0,7% das crianças hospitalizadas com PAC desenvolvem empiema.
CONCLUSÃO
O seguinte trabalho evidenciou o perfil das PAC complicadas neste hospital pediátrico, evidenciando que as manifestações clínicas, radiológicas e principais agentes, são semelhantes aos encontrados na literatura mundial, incluindo as frequências encontradas.
REFERÊNCIAS
1. Diretrizes brasileiras em PAC adquirida na comunidade em pediatria - 2007. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2007;33:s31–50.
2. Farha T, Thomson AH. The burden of PAC in children in the developed world. Paediatric Respiratory Reviews. 1° de junho de 2005;6(2):76–82.
3. Mathur S, Fuchs A, Bielicki J, Van DenAnker J, Sharland M. Antibiotic use for community-acquired PAC in neonates and children: WHO evidence review. Paediatric Int Child Health. novembro de 2018;38(sup1):S66–75.
4. Harris M, Clark J, Coote N, Fletcher P, Harnden A, McKean M, et al. British Thoracic Society guidelines for the management of community acquired pneumonia in children: update 2011. Thorax. 1o de outubro de 2011;66(Suppl 2):ii1–23.
5. Liu L, Oza S, Hogan D, Perin J, Rudan I, Lawn JE, et al. Global, regional, and national causes of child mortality in 2000–13, with projections to inform post-2015 priorities: an updated systematic analysis. The Lancet. 31 de janeiro de 2015;385(9966):430–40
6. Sant’Anna CC. Pneumonias agudas na infância. Revista médica oficial do hospital universitário da UFJF, 2004. VOL 30 (2-3).
7. Diretrizes brasileiras em PAC adquirida na comunidade em pediatria - 2007. Jornal Brasileiro de Pneumologia. 2007;33:s31–50.
8. Pabary R, Balfour-Lynn IM. Complicated pneumonia in children. Breathe. 1o de março de 2013;9(3):210–22.
UFRJ, Pediatria - Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
Endereço para correspondência:
Laís de Paiva Gabriel
UFRJ
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E-mail: laispaivagab@yahoo.com.br
Data de Submissão: 24/07/2020
Data de Aprovação: 14/10/2020
Recebido em: 24/07/2020
Aceito em: 14/10/2020