Endocardite infecciosa é uma doença em que patógenos invadem as superfícies endocárdicas, produzindo inflamação e danos. Decorre de uma infecção causada por bactérias, vírus, fungos, micobactérias ou rickettsias. Na maioria das vezes, ocorre em pessoas com anormalidades pré-existentes do sistema cardiovascular1,2. A prevalência de endocardite infecciosa na população geral foi estimada entre 14 e 38 casos por milhão de habitantes, compreendendo cerca de 0,2% a 0,5% de todas as internações pediátricas no mundo1-3. No período neonatal, a endocardite é rara e pode estar associada à elevada mortalidade. O diagnóstico, muitas vezes, é um achado de necropsia.
RELATO DE CASO
Recém-nascido de 34 semanas, sexo feminino; mãe fez acompanhamento pré-natal irregular, com quatro consultas; gestação gemelar. Realizou sorologia do Iped/Apae para erros inatos do metabolismo (http://www.ipedapae.org.br/noticia/iped-conta-com-alta-tecnologia-em-triagem-neonatal-4) de primeiro trimestre, todas não reagentes. Sorologias de terceiro trimestre não realizadas. Negava infecções durante gestação. Paciente nasceu de parto cesáreo, em boas condições de nascimento, Índice de Apgar 8/9 ao nascimento. Não estava fazendo uso de medicações e não possuía acesso central.
Com 10 dias de vida, realizado ecocardiograma de rotina : evidenciada imagem pedunculada, pouco móvel na junção da veia cava com átrio direito, medindo aproximadamente 3x3 mm. A paciente apresentava-se assintomática, porém, o hemograma mostrava anemia (hemoglobina = 8,7 mg/dl). Iniciada antibioticoterapia com ampicilina e gentamicina; solicitada hemocultura (HMC), que foi positiva para Staphyilococcus epidermidis resistente à gentamicina. Após discussão com a Comissão de controle de infecção hospitalar (CCIH), optou-se pela manutenção de ampicilina e gentamicina. Após 7 dias de antibioticoterapia, foi solicitada nova HMC, para controle do tratamento, que persistia positiva para Staphyilococcus epidermidis. Persistia a anemia sem outras alterações. No 14º dia de antibioticoterapia, nova HMC ainda foi positiva para Staphyilococcus epidermidis, resistente à gentamicina e sensível à oxacilina, teicoplamina e vancomicina. Anemia com reticulocitose de 3%. Realizado novo ecocardiograma: persistência da imagem pedunculada em junção da veia cava com átrio direito. Optou-se, então, pela troca de antibioticoterapia por teicoplamina e tazocin.
Com 7 dias de início da antibioticoterapia com teicoplamina e tazocin, foi realizada nova hemocultura, que foi negativa; hemograma com anemia e reticulocitose de 22%. Mantida a antibioticoterapia. HMC de controle novamente negativa; hemograma com Hb - 11,8 mgdl, reticulócitos de 11%. Novo ecocardiograma foi normal. Progressivamente, houve melhora da anemia (Hb = 9 mgdl e reticulócitos = 1%). Mantida terapia antibiótica por 28 dias conforme protocolo, totalizando seis semanas de antibioticoterapia. Houve boa evolução.
DISCUSSÃO
A endocardite infecciosa (EI) no período neonatal é uma doença rara. Até a década de 1980, o diagnóstico da doença em neonatos era extremamente difícil, realizado quase sempre através de necropsia; a letalidade era de 100%. A presença de cardiopatia congênita é considerada um importante fator de risco, sendo observada em 8% dos neonatos com endocardite. Em crianças sem malformação cardíaca, com cateter venoso central, a formação de trombo e colonização bacteriana ou fúngica representam a forma mais comum de infecção do endocárdio2-4.
A cultura positiva é um dos achados mais relevantes para o diagnóstico. Os principais agentes da EI são: Streptococcus do grupo viridans (S. milleri, S. mitior, S. salivarius, S. mutans e S. sanguis), em especial nos pacientes com cardiopatia congênita; Staphylococcus aureus, geralmente está associado ao uso de cateter venoso central e de drogas injetáveis; Staphylococcus epidermidis acomete geralmente pacientes em pós-operatório de cirurgia cardíaca e recém-nascidos e prematuros que fazem uso de cateter venoso central.
No recém-nascido, a apresentação é inespecífica. São frequentes as embolias sépticas com localizações exteriores ao coração, como: ossos, meninge ou pulmão. Os critérios para diagnóstico da endocardite mais aceitos atualmente são os critérios de Duke, que incluem os parâmetros do exame ecocardiográfico.
Critérios maiores3,4
Critérios menoresHemocultura positiva para EI; Micro-organismo típico para EI de duas hemoculturas isoladas (Streptococcus viridans, Streptococcus bovis, grupo HACEK ou Staphylococcus aureus); Hemoculturas persistentemente positivas; Evidência de envolvimento endocárdico, ecocardiograma positivo para EI; Novo sopro regurgitante;
Predisposição: lesão cardíaca prévia; Febre maior que 38 ºC; Fenômenos vasculares (ex.: lesões de Janeway); Fenômenos imunológicos (ex.: nódulos de Osler); Evidência microbiológica: hemocultura positiva, mas sem critério maior; Ecocardiograma: consistente com endocardite, mas sem critério maior;
No nosso paciente, após o surgimento da endocardite bacteriana, houve o desenvolvimento de anemia, com níveis aumentados de reticulócitos, provavelmente devido ao processo infeccioso. Na doença crônica, atuam pelo menos três mecanismos: alterações na eritropoese, diminuição da sobrevida das hemácias e resposta inadequada da medula à hemólise. Após a invasão bacteriana, ocorre a resposta inflamatória com a liberação de alguns mediadores, como as citocinas: interleucina-1 (IL-1), interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (FNTα) e interferon gama (INFγ). Tais mediadores atuam inibindo a eritropoese, diminuindo a disponibilidade do ferro para as bactérias, aumentando a síntese de ferritina, suprimindo a assimilação do ferro intestinal, aumentando a retenção de ferro pelos macrófagos, induzindo a retirada de ferro dos locais de invasão bacteriana pela apolactoferrina e provocando a síntese de anticorpos contra o sistema de captação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A endocardite é uma doença de diagnóstico difícil, principalmente no período neonatal, que requer uma investigação detalhada. Deve ser considerada em todo recém-nascido sob cuidados intensivos por período prolongado e com culturas positivas. Este caso raro de endocardite infecciosa no período neonatal reforça a importância do conhecimento dos fatores de risco e dos sinais sugestivos deste diagnóstico, de forma a instituir medidas diagnósticas e terapêuticas adequadas.
REFERÊNCIAS
1. Costa MAC, Wollmann Jr DR, Campos ACL, Cunha CLP, Carvalho RG, Andrade DF, et al. Índice de risco de mortalidade por endocardite infecciosa: um modelo logístico multivariado. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2007;22(2):192-200. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-76382007000200007
2. Carceller A. Endocardite infecciosa. An Pediatr (Barc). 2005;63(5):383-9.
3. Barbosa MM. Endocardite infecciosa: perfil clínico em evolução. Arq Bras Cardiol. 2004;83(3):189-90. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2004001500002
4. Pereira CAZ, Rocio SCGP, Ceolin MFR, Lima APNB, Borlot F, Pereira RST, et al. Achados clínico-laboratoriais de uma série de casos com endocardite infecciosa. J Pediatr (Rio J.). 2003;79(5):423-8.
Medico residente em pediatria
Endereço para correspondência:
Emerson Wacholz Garcia
Hospital Regional Rosa Pedrossian
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Campo Grande - MS, Brasil