O adolescente, assim como a criança, encontra-se susceptível a diversas doenças, necessitando ser imunizado. O esquema vacinal a ser aplicado será diferente para o adolescente que completou o calendário básico de imunizações (previamente imunizados) daquele que, por algum motivo, não tenha tido a possibilidade de ser vacinado (não vacinado). No caso do adolescente ter sido vacinado durante a infância, apenas as vacinas que necessitam de reforço deverão ser aplicadas1-3. O quadro abaixo resume os dois cenários (Quadro 1).
Abaixo, serão discutidas as particularidades de cada vacina em relação ao adolescente previamente vacinado, ou não.
Dupla adulto (dT - difteria, tétano)1-4
Febre amarela1-4Via intramuscular profunda No caso de esquema primário para tétano e difteria incompleto ou desconhecido, um esquema de três doses deve ser indicado, sendo a primeira dose com a vacina tríplice bacteriana acelular - difteria, tétano, coqueluche - dTpa e as demais com dT. As duas primeiras doses devem ter um intervalo de dois meses (no mínimo de quatro semanas) e a terceira dose seis meses após a segunda. Alternativamente, pode ser aplicada em três doses com intervalo de dois meses entre elas (intervalo no mínimo de quatro semanas)1,3. Adolescentes previamente vacinados devem receber 1 dose de reforço a cada 10 anos, sendo que preferencialmente o primeiro reforço deve ser realizado com a vacina dTpa1-4. A vacina dTpa além de ser menos reatogênica, quando comparada com a vacina dT, causando menos efeitos adversos1, também reduz a transmissão da bactéria Bordetella pertussis (presente na vacina dTpa), principalmente para os lactentes, que é uma faixa etária suscetível, com alto risco de complicações1,4. Efeitos adversos (dT - dTpa) febre (3%-14%) cefaleia (40%-44%) prostração (27%-37%)
Hepatite A1-4Vacina de vírus atenuado Via subcutânea 1 dose, no caso do adolescente não ter sido imunizado previamente, e 10 anos depois, fazer 1 dose de reforço2. Efeitos adversos bem tolerada e pouco reatogênica febre, cefaleia, mialgia (2%-5%) Adolescentes previamente vacinados até os 5 anos de idade não necessitam de dose de reforço3. Não deve ser administrada em adolescentes imunocomprometidos1,3,4 Indicada para residentes ou viajantes para as áreas com doença endêmica (no Brasil, todos os estados das regiões Norte e Centro Oeste, Minas Gerais e Maranhão; alguns municípios dos estados do Piauí, Bahia, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Aplicar a vacina pelo menos 10 dias antes da viagem2-4. Não deve ser administrada no mesmo dia que a vacina tríplice viral devido ao risco de interferência e diminuição de imunogenicidade. O intervalo recomendado entre a aplicação destas vacinas é de 30 dias3. Mulheres lactantes que foram inadvertidamente vacinadas deverão ter suspenso o aleitamento materno, no mínimo por 15 dias1,3.
Hepatite B1-4Vacina de vírus inativado Via intramuscular 2 doses, com intervalo de 0 e 6 meses Eventos adversos dor no local da aplicação (53%-56%) cefaleia (14%-16%) mal-estar (7%) Contraindicação para seu uso: história de hipersensibilidade ao hidróxido de alumínio
HPV (papilomavírus humano)1-4Vacina de vírus inativado Via intramuscular 3 doses, com intervalo de 0, 1 e 6 meses Efeitos adversos bem tolerada e pouco reatogênica dor no local da aplicação febre baixa Adolescentes não vacinados na infância para as hepatites A e B devem ser vacinados o mais precocemente possível para essas infecções. A vacina combinada para as hepatites A e B é uma opção e pode substituir a vacinação isolada para as hepatites A e B1,4 A vacina combinada hepatite A e hepatite B (apresentação adulto) pode ser utilizada na primovacinação de adolescentes até 15 anos de idade, em 2 doses, com intervalo de seis meses entre elas. A última dose da vacina hepatite B será aplicada, então, com a vacina convencional. Acima de 16 anos, o esquema deverá ser com três doses, como descrito acima1,3.
Influenza1,3Vacina de vírus inativado Via intramuscular (deltoide) 3 doses (0, 1, 6 meses) ou (0, 2, 6 meses), dependendo do tipo de vacina Efeitos adversos Os adolescentes devem estar sentados no momento da aplicação da vacina e devem ser observados por 15 minutos após a imunização, devido ao risco de síncope1. dor no local da aplicação Existem 2 tipos de vacina disponíveis no Brasil: HPV2-bivalente (vacina com os VLPs (partículas semelhantes aos vírus - "virus-like particle" dos tipos 16 e 18), indicada para meninas maiores de 9 anos de idade, adolescentes e mulheres, com três doses (0, 1 e 6 meses após a primeira dose), e a vacina HPV4-quadrivalente (VLPs dos tipos 6, 11, 16 e 18), indicada para meninos, meninas, adolescentes e adultos jovens, de 9 a 26 anos, também três doses (0, 2 e 6 meses após a primeira dose)3,4 O Programa Nacional de Imunizações (PNI) adotou no Brasil, a partir de 2014, esquema de vacinação estendido: 0, 6 e 60 meses com a HPV4. A população alvo é composta por adolescentes do sexo feminino, entre 11 e 13 anos de idade no ano da introdução da vacina (2014), na faixa etária de 9 a 11 anos no segundo ano (2015) e de 9 anos de idade do terceiro ano (2016) em diante3,4. Vacina contraindicada para gestantes1,4
Meningocócica Conjugada (ACWY)1-4Vacina de vírus inativado Via intramuscular 1 dose na primovacinação e 1 dose/ano, pois como a influenza é uma doença que cursa com mudanças de uma ou mais cepas a cada ano, a vacina tem a sua constituição alterada anualmente1,3 Eventos adversos: são leves e pouco frequentes dor no local da aplicação (ocorre em 1/3 dos vacinados) febre (1% dos vacinados, 6 a 8 horas após a aplicação) reações alérgicas como urticária, angioedema, asma alérgica (raro) Por se uma doença sazonal, a vacina deverá ser realizada antes do período de maior prevalência da gripe (inverno), sendo aplicada geralmente no outono1,3 Não deve ser administrada a pessoas com história de hipersensibilidade anafilática a proteínas do ovo da galinha1.
Pneumocócica1,3Via de administração intramuscular Não vacinados: 1 dose, com 1 dose de reforço após cinco anos. Se a primeira dose for aplicada em adolescentes com 16 anos ou mais, não é necessário aplicar a dose de reforço1,2 Previamente vacinados durante a infância: 1 dose de reforço a partir dos 11 anos de idade, devido à rápida diminuição dos títulos de anticorpos associados à proteção, evidenciada com todas as vacinas meningocócicas conjugadas1,3 Na indisponibilidade da vacina meningocócica conjugada ACWY, substituir pela vacina meningocócica C conjugada1,3,4 Efeitos adversos bem tolerada dor no local da aplicação irritabilidade cefaleia fadiga
Tríplice Viral (sarampo, caxumba, rubéola)1-4Via intramuscular Efeitos adversos eritema doloroso ou não no local da aplicação febre, irritabilidade sonolência, sono agitado, hiporexia vômitos e diarreia A vacina deve ser aplicada em adolescentes que não foram imunizados na infância, que apresentem as seguintes situações de risco: asplenia funcional ou anatômica, infecção pelo HIV ou outra doença que leve à imunodeficiência, implante coclear1. Adolescentes com doença pneumocócica invasiva (DPI), vacinados previamente durante a infância, deverão receber, até 18 anos de idade, uma dose adicional com a vacina 13 valente3.
Varicela1,4Vacina de vírus atenuados Via subcutânea 2 doses, com intervalo mínimo de quatro semanas entre elas Contraindicada para adolescentes imunodeprimidos e gestantes1,4 Efeitos adversos bem tolerada e pouco reatogênica febre, exantema de curta duração artralgia e artrite
REFERÊNCIASVacina de vírus atenuados Via subcutânea 2 doses, com intervalo mínimo de quatro semanas Efeitos adversos reações locais como dor, vermelhidão e edema (25%) febre (15%) exantema no local da vacinação (4%) A vacinação pode ser indicada na profilaxia pós-exposição dentro de cinco dias após o contato, preferencialmente nas primeiras 72 horas1 Contraindicada para gestantes e adolescentes imunodeprimidos1,4
1. Pickering LK, ed., Red Book, Report of Committee on Infectious Diseases. Elk Grove Village: American Academy of Pediatrics; 2012.
2. Brasil. Ministério da Saúde. [Acesso 9 Abr 2015]. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/o-ministerio/principal/leia-mais-o-ministerio/197-secretaria-svs/13600-calendario-nacional-de-vacinacao
3. Sociedade Brasileira de Pediatria [Acesso 9 Abr 2015]. Disponível em: http://www.sbp.com.br
4. Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) [Acesso 9 Abr 2015]. Disponível em: http://www.sbim.org.br
Doutora em Ciências, Médica Pediatra do Serviço de Doenças Infecciosas do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz
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Ana Cláudia Mamede Wiering de Barros
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