Este editorial (1) publicado na revista Pediatric Critical Care Medicine aborda a aplicabilidade do ecocardiograma na beira do leito (cardiac POCUS = point-of-care cardiac ultrasonography) em pacientes pediátricos com choque séptico. O uso do ecocardiograma de forma rápida para pacientes com má perfusão tecidual podem guiar a avaliação mais precisa do uso de fluidos e aminas vasoativas nesses pacientes. A autora 4 questões:
1) Porque adivinhar quando você pode ver?
O uso do ecocardiografia ou ultrassonografia na beira do leito pode nos dar informações visuais sobre o coração, pulmão e veia cava inferior de forma rápida, não-invasiva e efetiva. Seu uso nas primeiras 72 horas de admissão hospitalar pode reconhecer patologias abordáveis como o tamponamento cardíaco, assim como guiar o tratamento do choque de forma dinâmica, sobretudo em pacientes não responsivos a doses elevadas de aminas vasoativas. Por ser um método diagnóstico de baixo custo e não invasivo, pode ser especialmente relevante em países de baixa e média renda- para isso é fundamental o treinamento de pessoas qualificadas e a regulação do seu uso.
2) Confiar apenas na imagem corre o risco de tratamento excessivo?
É fundamental que métodos diagnósticos sejam utilizados em conjunto com a avaliação clínica do paciente e métodos de monitorização hemodinâmica contínua (Figura 1).
3) Devemos pensar nas terapias de suporte hemodinâmico como tendo ações interligadas?
Para o uso completo do ecocardiograma na beira do leito precisamos de dois elementos:
- aquisição de boas imagens e adequada interpretação, correlacionadoas com a fisiologia cardiovascular;
- recursos de pessoas e equipamentos que permitem avaliações hemodinâmicas integradas, precoces e seriadas;
Os três principais alvos hemodinâmicos e sua terapias podem estar intimamente ligados à fisiopatologia evolutiva do choque:
- Paciente com hipovolemia x necessidade de fluido;
- Paciente com vasoplegia x uso de drogas vasopressoras;
- Paciente com disfunção cardíaca x necessidade de drogas inotrópicas.
É importante lembrar que a função cardíaca é dependente do tripé: pré-carga, pós-carga e contratilidade cardíaca e esses três elementos devem ser avaliados em conjunto. O ecocardiograma com a avaliação clínica na beira do leito ajudam a individualizar o tratamento, sobretudo em pacientes com choque refratário.
4) Saber o tipo de disfunção cardíaca séptica é importante?
A sepse é uma síndrome heterogênea e a disfunção orgânica, incluindo a cardiovascular, pode ser diferente em cada paciente. A disfunção sistólica em pacientes sépticos é a mais comum, porém outros tipos de disfunções podem ocorrer, como a disfunção diastólica, disfunção ventricular direita e disfunção hiperdinâmica de ventrículo esquerdo, que podem estar associadas a piores prognósticos e requerem tratamentos diferentes.
Concluindo, o uso do ecocardiograma na beira do leito pode guiar de forma mais precisa o manejo hemodinâmico de pacientes com choque séptico, sendo necessários mais estudos prospectivos para validar esse manejo e melhorar os desfechos clínicos desses pacientes.
REFERÊNCIA
1. Ranjit S. Is Rapid Bedside Echocardiography in Septic Shock Possible? Pediatr Crit Care Med. ago 2024; 25(8):758-761. DOI: 10.1097/pcc.0000000000003538
1. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG)- Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica - Rio de Janeiro – RJ - Brasil
2. Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG)- Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Unidade de Pesquisa Clínica - Rio de Janeiro – RJ - Brasil
Endereço para correspondência:
Vanessa Soares Lanziotti
Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG).
R. Bruno Lobo, 50 - Cidade Universitária
Rio de Janeiro - RJ, 21941-912
E-mail: vslanziotti@gmail.com
