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Relato de Caso

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Distrofia Muscular Congênita Tipo Megaconial: um relato de caso

Maria Luiza de Andrade Correia1; Eugenio Grillo2; Raphaela Maintinguer3

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2025.v15n4-1352 Residência Pediátrica, 15(4), 1-3

RESUMO

OBJETIVO: Descrever um caso de Distrofia Muscular Congênita tipo Megaconial. As distrofias musculares congênitas pertencem a um grupo de doenças crônicas que se manifestam com fraqueza muscular e hipotonia. Essas condições podem surgir desde o nascimento ou nos primeiros meses de vida, impactando o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança. A Distrofia Muscular Congênita tipo Megaconial é uma doença rara, causada por mutação no gene CHKB que, além das manifestações típicas de distrofia muscular, pode apresentar deficiência intelectual, cardiomiopatia dilatada, comportamentos autistas, problemas de linguagem e alterações cutâneas semelhantes à ictiose.
RELATO DE CASO: Paciente do sexo masculino, 1 ano e 6 meses de idade, com atraso no desenvolvimento motor, hipotonia generalizada, arreflexia e lesões cutâneas. A análise genética revelou miopatia de herança autossômica recessiva com mutação nonsense em homozigose no gene CHKB, cuja variante está ausente em aproximadamente 140 mil indivíduos da população mundial e nunca foi previamente descrita na literatura médica.
CONCLUSÃO: Este relato de caso reforça a necessidade de ampliar o conhecimento sobre as distrofias musculares congênitas como diagnóstico diferencial na pediatria, especialmente em pacientes com atraso no desenvolvimento motor. Além disso, destaca a importância da realização de painel genético para a identificação de possíveis novas variantes.

Palavras-chave: Distrofias musculares, Miopatias mitocondriais, Colina quinase.

INTRODUÇÃO

As distrofias musculares congênitas são doenças de caráter distrófico e progressivo, com enfraquecimento da musculatura esquelética, podendo ser de herança autossômica recessiva ou dominante e recessiva ligada ao X1. As manifestações são ao nascimento ou primeiro ano de vida, com hipotonia, fraqueza muscular, retardo do desenvolvimento motor, atrofia muscular e, posteriormente, retrações fibrotendíneas e deformidades esqueléticas2.

A Distrofia Muscular Congênita tipo Megaconial (DMCM) foi primeiramente descrita por Nishino et al. (1998)3 após avaliação de 4 casos distintos que apresentavam fraqueza muscular, hipotonia e atraso do desenvolvimento, tendo até o presente momento 58 casos de 51 famílias não dependentes relatados4,5.

A doença tem padrão autossômico recessivo, e além do comprometimento muscular, pode apresentar-se com deficiência intelectual, estigmas autistas, comportamento agressivo, distúrbios do sono, convulsões, lesões de pele ictiose-like e comprometimento cardíaco, sendo o principal a miocardiopatia dilatada, podendo levar à morte precoce6.

Tendo em vista o impacto na morbimortalidade causado pelas distrofias musculares, no presente estudo visa-se relatar um caso de DMCM, com intuito de fomentar a base de dados sobre esta patologia para reconhecimento como diagnóstico diferencial de distrofia muscular congênita na pediatria.


RELATO DE CASO

K. P. G., masculino, 1 ano e 6 meses, iniciou acompanhamento em ambulatório de neurologia pediátrica devido a atraso de desenvolvimento. Havia passado em consulta previamente aos 2 meses de idade, porém com perda de seguimento devido à pandemia de COVID-19. Durante avaliação notou-se dificuldade para se sentar, mesmo com apoio, hipotonia generalizada com diminuição da consistência e aumento da passividade, e arreflexia.

De antecedentes gestacionais e neonatais, é o segundo filho de pais consanguíneos, a genitora teve amniorrexe prematura com 25 semanas, evoluindo para adrâmnia e centralização fetal, com necessidade de interrupção da gestação. Nasceu prematuro (29 semanas), via cesárea, com peso adequado para idade gestacional, APGAR 6 e 9. Necessitou de reanimação em sala de parto devido à hipotonia e respiração irregular, sendo intubado em sala de parto devido a desconforto respiratório importante.

Permaneceu internado em UTI neonatal até 51 dias de vida, com uso de ventilação mecânica apenas nos 2 primeiros dias. De comemorativos do período neonatal teve icterícia, taquicardia supraventricular e hemorragia de matriz germinativa grau IV à direita que em ultrassonografia de controle não mostrava alterações.

De antecedentes familiares tem uma irmã com atraso global severo, hipotonia e arreflexia generalizadas que faleceu por volta dos 10 anos.

Durante o primeiro ano de vida, o atraso do desenvolvimento neuropsicomotor (DNPM) foi primeiramente atribuído à prematuridade, mas a hipotonia generalizada associada à arreflexia levantou o diagnóstico diferencial de doença neuromuscular.

Foram solicitados exames complementares com ecocardiograma demonstrando disfunção sistólica leve de ventrículo esquerdo, eletroencefalograma normal, creatinofosfoquinase (CPK) de 1333 U/L e sua fração MB (CK-MB) de 57 U/L. Realizado painel genético constatando-se miopatia de herança autossômica recessiva com mutação nonsense em homozigose no gene CHKB (OMIM: 612395).


DISCUSSÃO

As distrofias musculares congênitas (DMC) compreendem um grupo de doenças hereditárias, em sua maioria com padrão autossômico recessivo, que se caracterizam por hipotonia e fraqueza muscular que podem estar evidentes desde o nascimento ou nos primeiros meses de vida. Atualmente há mais de 35 genes descobertos como responsáveis por diferentes fenótipos7.

Quanto à epidemiologia, os registros variam conforme a população. Na população inglesa, a prevalência é de aproximadamente 0,76 x 100.0008, enquanto na população italiana é de 0,563 per 100.0009. Não foram encontrados dados sobre a América do Sul.

As DMC podem ser divididas em 3 principais categorias que diferem fenotipicamente entre si: as colagenopatias, que são relacionadas a defeitos no colágeno tipo VI, merosinopatias, associadas à mutação no gene LAMA2, e distroglicanopatias, relacionadas ao α-distroglicano. Além dessas categorias, há outras DMC raras não categorizadas10.

Quanto à distrofia muscular congênita tipo megaconial (DMCM), é um tipo raro de distrofia muscular, de caráter autossômico recessivo, em que a fisiopatologia decorre de uma mutação no gene CHKB, com consequente diminuição da fosfatidilcolina, afetando a conformação da membrana mitocondrial muscular, predispondo aos achados histopatológicos de grandes mitocôndrias localizadas na periferia da célula muscular e ausência dessas no centro do sarcoplasma11.

Das manifestações clínicas, além da hipotonia e fraqueza muscular esperada das distrofias musculares, os indivíduos afetados podem manifestar-se com convulsões, alterações de pele similar à ictiose, atraso no desenvolvimento da linguagem, com características de autismo (ecolalia, movimentos de mãos estereotipados) e graves alterações de comportamento (comportamento agressivo, automutilação), perda auditiva, microcefalia e leves características dismórficas (face alongada, orelhas proeminentes)6.

Quanto ao neurodesenvolvimento do paciente relatado, apresentou atraso significativo dos marcos, obtendo preensão voluntária aos 12 meses e sentou-se sem apoio aos 22 meses. Não engatinha e não compreende comando simples (atualmente com 4 anos e 8 meses). Chegou a apresentar comportamento de autoagressão, porém com melhora.Comprometimento cardíaco, principalmente com desenvolvimento de cardiomiopatia dilatada, também foi relatado nesses pacientes, englobando desde um defeito congênito até uma cardiopatia que se desenvolveu nos primeiros anos de vida. Tal comprometimento pode resultar em morte precoce por insuficiência cardíaca6,12.

No caso em questão, o paciente apresentou episódio de taquicardia supraventricular no período neonatal, sem novos episódios até a presente data. Sua irmã mais velha, que apresentava características fenotípicas semelhantes, apresentava cardiomiopatia dilatada grave.

O diagnóstico atualmente é estabelecido através da coleta de painel genético em que se evidenciam variantes patogênicas no gene CHKB resultando em perda de função deste. Não há cura para DMCM, sendo o tratamento voltado para melhora de qualidade de vida, com redução de complicações. Devido ao caráter autossômico recessivo da doença, torna-se imprescindível o aconselhamento genético aos pais13.

Conclui-se, com este relato de caso, a importância de incluir as DMCs como diagnóstico diferencial em pacientes com atraso do neurodesenvolvimento, mesmo quando estes apresentem comemorativos de prematuridade. Sendo assim, o diagnóstico precoce das DMCs, em especial da DMCM, contribui para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, com terapia de suporte adequada e diminuição de suas complicações. Além disso, é importante a coleta de painel genético não só para o diagnóstico, mas para registro de possíveis novas variantes relacionadas às DMCs, ampliando assim a base de dado a respeito dessas doenças.


REFERÊNCIAS

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1. Universidade Federal de Santa Catarina, Pediatria, Residência pediátrica - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
2. Universidade Federal de Santa Catarina, Neurologia pediátrica, Pediatria - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
3. Universidade Federal de Santa Catarina, Pediatria, Medicina - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil

Endereço para correspondência:

Maria Luiza de Andrade Correia
Universidade Federal de Santa Catarina.
Rua Roberto Sampaio Gonzaga Florianópolis,
Florianópolis, SC, Brasil. CEP: 88040-900.
E-mail: maluandradexx@gmail.com

Data de Submissão: 06/10/2024
Data de Aprovação: 06/01/2025

Recebido em: 06/10/2024

Aceito em: 06/01/2025

Sobre os autores

1 Universidade Federal de Santa Catarina, Pediatria, Residência pediátrica - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil.

2 Universidade Federal de Santa Catarina, Neurologia pediátrica, Pediatria - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil.

3 Universidade Federal de Santa Catarina, Pediatria, Medicina - Florianópolis - Santa Catarina - Brasil.

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Maria Luiza de Andrade Correia

Universidade Federal de Santa Catarina Rua Roberto Sampaio Gonzaga Florianópolis Florianópolis, SC, Brasil. CEP: 88040-900

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Como citar este artigo:

Correia, MLA, Grillo, E, Maintinguer, R. Distrofia Muscular Congênita Tipo Megaconial: um relato de caso. Resid Pediatr. 15(4):1-3. DOI: 10.25060/residpediatr-2025.v15n4-1352

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