Gostaríamos de parabenizar os autores pelo artigo “Telemedicina em um Ambulatório de Síndrome de Down no Brasil durante a Pandemia de Covid-19”, publicado na presente revista1. Além disso, gostaríamos de compartilhar a experiência com a telemedicina vivenciada no Ambulatório de Pediatria do Hospital Universitário da UFSC, em Florianópolis.
O uso da telemedicina no atendimento pediátrico ainda não era realizado em nosso estado, embora a telemedicina síncrona tenha sido descrita como uma excelente alternativa para superar as barreiras de deslocamento e tempo, especialmente quando longas distâncias ou dificuldades de transporte separam os pacientes dos serviços de subespecialidades pediátricas2-5. Durante a pandemia de COVID-19, as necessidades de cuidados de saúde pediátricos ambulatoriais especializados rapidamente se adaptaram a um modelo predominantemente baseado na telessaúde. Revisões sistemáticas da literatura sobre telepediatria também começaram a surgir2.
Nossa experiência teve uma metodologia semelhante à do artigo descrito, porém com uma população distinta. Realizou-se um estudo transversal prospectivo, baseado em dados de prontuários dos pacientes e em dados primários (por meio da aplicação de um formulário eletrônico) de consultas realizadas por telemedicina nos ambulatórios de subespecialidades pediátricas (pneumologia, gastroenterologia e endocrinologia), no período de abril a novembro de 2020. Entretanto, diferentemente do artigo em questão, o objetivo foi avaliar a qualidade e a satisfação com o atendimento realizado por telemedicina, sem coleta de dados socioeconômicos.
Nos resultados descritos, verificamos que, apesar do grande número de questionários enviados (600), apenas 10,8% foram respondidos, representando uma grande perda de dados1. Em nosso estudo, observamos um fenômeno semelhante: de 134 pacientes atendidos, 116 formulários foram enviados via WhatsApp®, com uma taxa de resposta de 27,6% (32 pacientes de 116). No entanto, apenas 26 pacientes concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Dentre as barreiras para a resposta, destacaram-se o receio dos cuidadores de que a mensagem fosse falsa e contivesse um vírus eletrônico. Alguns pais contataram o médico assistente para verificar a veracidade da mensagem, o que nos levou a encaminhar uma carta assinada eletronicamente pelos médicos a todos os participantes, confirmando a autenticidade do questionário do estudo. Em outro estudo nacional, apenas 19,6% (50 pacientes) responderam ao questionário de satisfação, sugerindo que questões culturais, como a pouca valorização da pesquisa, possam influenciar esse resultado5.
A satisfação dos pacientes em nosso estudo foi de 96,2%, número semelhante ao descrito no artigo (96,9%)1. Outro ponto relevante foi que 84,6% dos participantes consideraram a telemedicina útil quando utilizada em conjunto com consultas presenciais, e 5,4% relataram que a modalidade economizou tempo de deslocamento até o hospital.
Na literatura, Sharawat et al. (2021)6 relataram que 96% dos participantes estavam satisfeitos com a qualidade geral da teleconsulta, 94% entenderam corretamente as instruções médicas, 98% consideraram que a teleconsulta economizou tempo, dinheiro e esforço, 86% gostariam de continuar utilizando a teleconsulta como substituição à consulta presencial após o fim do isolamento social, enquanto 10% não gostaram. Além disso, 84% dos entrevistados consideraram a teleconsulta equivalente às consultas presenciais anteriores, enquanto 16% discordaram dessa afirmação.
Outros grupos de pesquisa no Brasil também têm relatado achados semelhantes em estudos sobre telepediatria3,5. Um desses estudos avaliou a satisfação dos pais em atendimentos de emergência, relatando 86% de satisfação5. Um tema interessante para futuras pesquisas seria a comparação dos resultados obtidos nesses diferentes estudos.
Nossos achados também demonstraram que 71,9% dos pais concordaram totalmente que receberam a devida atenção durante a teleconsulta. Quanto ao acesso à consulta, 61,5% descreveram-no como fácil, 23,1% relataram dificuldades, 11,5% não conseguiram acessar o sistema e tiveram sua ligação atendida via WhatsApp® ou telefone, e 3,8% conseguiram acessar, mas consideraram o sistema de difícil utilização. Em um estudo nacional, 18% dos participantes relataram problemas com a conexão e 12% encontraram dificuldades no uso do aplicativo2.
Em nossa experiência, a maioria dos cuidadores relatou que o uso da telemedicina permitiu a comunicação do estado clínico da criança ao médico, possibilitou a compreensão das queixas e da condição da criança pelo profissional e facilitou o entendimento das diretrizes médicas pelos responsáveis.
Esta carta tem como objetivo, além de endossar o conteúdo publicado, trazer mais dados sobre a telemedicina, destacando-a como uma alternativa eficiente que otimiza o tempo durante o acompanhamento ambulatorial e garante a continuidade do tratamento, com alto grau de satisfação dos usuários.
REFERÊNCIAS
1. Bermudez BEBV, Oliveira ACV, Novadzki IM, Oliveira CM. Telemedicina em um Ambulatório de Síndrome de Down no Brasil durante a Pandemia do Covid-19. Resid Pediatr. 2024;14(1):1-5. DOI: https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n1-1114.
2. Shah AC, Badawy SM. Telemedicine in Pediatrics: Systematic Review of Randomized Controlled Trials. JMIR Pediatr Parent. 2021;24;4(1):e22696. DOI: https://doi.org/10.2196/22696.
3. Santana YE, Liberatore Jr RDR. Teleconsultation for pediatric patients with type 1 diabetes mellitus during the COVID-19 pandemic: experience of a university hospital in Brazil. J Pediatr (Rio J). 2022;98(6):587-9. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jped.2022.02.001.
4. Fitzgerald MJ, Thompson LA, Paradise-Black NM. What to Expect at a Pediatric Telemedicine Visit. JAMA Pediatr. 2021;175(11):1192. DOI: https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2021.2284.
5. Severini RDSG, Oliveira PC, Couto TB, Simon Junior H, Andrade APM, Nanbu DY, et al. Fast, cheap and feasible: Implementation of pediatric telemedicine in a public hospital during the Covid-19 pandemic. J Pediatr (Rio J). 2022;98(2):183-9. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jped.2021.05.007.
6. Sharawat IK, Panda PK. Caregiver Satisfaction and Effectiveness of Teleconsultation in Children and Adolescents With Migraine During the Ongoing COVID-19 Pandemic. J Child Neurol. 2021;36(4):296-303. DOI: https://doi.org/10.1177/0883073820968653.
Recebido em: 28/01/2025
Aceito em: 17/03/2025