INTRODUÇÃO
A torção testicular neonatal, também denominada torção testicular perinatal (TTP), é uma condição rara, com frequência estimada de 6,1 por 100.000 nascidos vivos. Na maioria dos casos, é unilateral e representa cerca de 10% de todas as torções testiculares na infância¹. A TTP pode ocorrer no período pré-natal, no pós-parto ou durante o parto. Sua fisiopatologia difere da torção que ocorre em outras faixas etárias, pois geralmente é indolor e de caráter extravaginal (85%–90%), o que dificulta o diagnóstico². Alguns fatores de risco foram descritos, como apresentação pélvica, recém-nascidos grandes para a idade gestacional e parto difícil3. A deformidade conhecida como “bell clapper” consiste em um defeito no gubernáculo testicular que deixa o testículo livre para girar dentro da túnica vaginal, predispondo à torção4.
A rotação do testículo em torno do cordão espermático resulta na torção, comprometendo o suprimento sanguíneo e podendo causar isquemia, que, se prolongada, pode levar à lesão testicular irreversível4.
As manifestações clínicas da TTP podem variar desde casos assintomáticos até alterações na coloração testicular, consistência endurecida ou presença de massa inguinal. Quando a TTP ocorre no período pós-parto, geralmente se apresenta com eritema local ou descoloração, edema e sensibilidade. É importante ressaltar que o reflexo cremastérico pode estar ausente nessa faixa etária, de modo que sua ausência não está necessariamente relacionada à TTP5.
De acordo com a literatura, há grande variabilidade no manejo dos casos de TTP. Estudos recentes sugerem que a cirurgia deve ser realizada de forma imediata, especialmente para preservar a viabilidade do testículo contralateral6,7. No entanto, existem questionamentos sobre essa abordagem de emergência, particularmente em relação ao momento da torção e considerando que, no período neonatal, a taxa de viabilidade testicular com essa conduta é de apenas 6%. Além disso, os procedimentos cirúrgicos envolvem riscos e a baixa probabilidade de se tratar de uma torção aguda leva muitos especialistas a sugerirem que a cirurgia eletiva seja a melhor abordagem8.
RELATO DE CASO
Tratava-se de um recém-nascido do sexo masculino, com peso ao nascer de 3.645g (percentil 50–90), idade gestacional de 40 semanas e 3 dias, comprimento de 52cm (percentil 50–90), adequado para a idade gestacional, nascido por parto vaginal. O trabalho de parto não foi prolongado; o Apgar no 5º minuto foi 9 e a apresentação foi cefálica. Não houve necessidade de reanimação neonatal. A mãe tinha 22 anos de idade e não apresentava comorbidades. Todos os exames sorológicos realizados durante a gestação foram negativos.
Durante o primeiro exame físico, imediatamente após o nascimento, ainda na sala de parto, o neonatologista palpou uma massa escrotal endurecida e indolor, sem eritema. Foi realizada ultrassonografia no primeiro dia de vida. O testículo direito apresentava volume de 1,2cm³ e o esquerdo de 0,4cm³. O testículo esquerdo apresentava forma normal, ecogenicidade e textura preservadas, além de fluxo sanguíneo normal ao Doppler, com epidídimo sem alterações. O cordão espermático esquerdo também apresentava fluxo sanguíneo normal ao Doppler. O testículo direito mostrava-se difusamente heterogêneo e aumentado de volume, com fluxo sanguíneo muito reduzido ao Doppler. O epidídimo direito e o cordão espermático estavam espessados e heterogêneos, ambos com fluxo sanguíneo diminuído. Os achados foram sugestivos de torção testicular extravaginal.
Após a ultrassonografia, o recém-nascido foi avaliado pelo cirurgião pediátrico, que indicou orquiectomia. Foram coletados exames pré-operatórios, sem alterações. No terceiro dia de vida, o neonato foi submetido ao procedimento cirúrgico, sem intercorrências. Durante a cirurgia, a inspeção revelou um testículo direito endurecido, de coloração vinoso-escura, com estenose do epidídimo (Figura 1). O testículo esquerdo também foi explorado, sendo realizada orquiectomia direita associada à orquiopexia contralateral.

A análise histopatológica revelou um testículo medindo 3,0 × 2,2 × 2,0 cm, com peso de 6 gramas, apresentando superfície externa escura e brilhante, sugestiva de infarto hemorrágico. O exame microscópico do testículo, do cordão espermático e do epidídimo evidenciou congestão vascular e hemorragia intensa, compatíveis com infarto hemorrágico.
O recém-nascido recebeu alta no terceiro dia pós-operatório, em boas condições clínicas, e permanece em acompanhamento ambulatorial com especialistas. Este relato de caso foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE 57842222.8.0000.5504) e conduzido de acordo com as diretrizes CARE9. O consentimento informado foi devidamente obtido.
DISCUSSÃO
A torção testicular perinatal é uma condição rara, e seu tratamento cirúrgico deve ser realizado idealmente entre 4 e 8 horas após o início da torção, quando esse momento é conhecido. Esse intervalo é denominado “tempo de ouro” para a cirurgia, pois as taxas de salvamento testicular são mais elevadas nessas circunstâncias5. Quando o momento de início da torção não é claro, há grande variabilidade na conduta cirúrgica. Alguns especialistas defendem a exploração eletiva, considerando que a taxa de salvamento testicular em neonatos é em torno de 6% e que existem riscos associados à anestesia10.
No presente caso, o recém-nascido apresentou exame escrotal alterado ainda na sala de parto, sem sinais de inflamação aguda, e o trabalho de parto não foi prolongado. Esses fatores sugerem que a torção testicular ocorreu no período pré-natal. Em um estudo com 17 neonatos, observou-se que 88% dos casos de torção testicular ocorreram no período pré-natal, sugerindo que essa apresentação é mais frequente nessa faixa etária10. Abraham et al. (2016)3 também observaram 28 casos de torção testicular perinatal, dos quais 85% ocorreram no período pré-natal.
O recém-nascido apresentou ultrassonografia com testículo direito difusamente heterogêneo, aumentado de volume e com fluxo sanguíneo muito reduzido ao Doppler. O diagnóstico foi estabelecido com base clínica e confirmado pela ultrassonografia. Reforça-se que a torção testicular é essencialmente um diagnóstico clínico, sendo a ultrassonografia testicular com Doppler o método de imagem ideal para confirmação. A redução ou ausência do fluxo sanguíneo testicular apresenta alta acurácia diagnóstica. O chamado “sinal do redemoinho” (whirlpool sign) é considerado um achado específico de torção testicular, porém pode estar ausente11. Destaca-se que a presença de heterogeneidade associada a aumento de volume e edema sugere ausência de viabilidade testicular12.
No presente caso, optou-se por uma abordagem eletiva. Essa decisão considerou as características clínicas que sugeriam torção ocorrida no período pré-natal e de forma unilateral. Nos casos em que há probabilidade de viabilidade testicular ou quando a torção ocorre no período pós-natal, a intervenção deve ser realizada de forma urgente. Quando o testículo é viável, a destorção do lado acometido associada à orquidopexia contralateral constitui a conduta mais adequada. Em lactentes, a torção testicular aguda é considerada uma emergência. Por outro lado, como o testículo direito parecia inviável no momento do diagnóstico no presente caso, sugerindo torção intrauterina, foi realizada orquiectomia eletiva.
O manejo da torção testicular perinatal permanece controverso, especialmente em razão da baixa taxa de salvamento testicular. Abraham et al. (2016)3 observaram apenas dois casos de salvamento testicular entre 28 casos de torção testicular perinatal³. A principal controvérsia refere-se ao momento da intervenção cirúrgica. DaJusta et al. (2013)13 e Callewaert et al. (2010)14 sugeriram uma abordagem emergencial para todos os casos de torção testicular perinatal, considerando a possibilidade de torção contralateral e o risco de anorquia bilateral. Em contrapartida, Djahangirian et al. (2010)6, em um estudo retrospectivo que incluiu 44 neonatos, sugeriram não haver vantagem na intervenção precoce, reforçando que a melhor estratégia de manejo ainda permanece indefinida.
Este estudo apresenta limitações. Por se tratar de um relato de caso, não é possível estimar taxas de frequência. Além disso, não dispomos de dados sobre o número total de casos de torção testicular perinatal previamente observados no hospital. O principal mérito deste relato reside na descrição do manejo clínico e cirúrgico de uma condição rara.
CONCLUSÃO
Neste relato de caso de torção testicular perinatal (TTP), o recém-nascido foi manejado por meio de uma abordagem cirúrgica eletiva, sendo realizada orquiectomia associada à orquidopexia contralateral, com boa evolução clínica. Estudos futuros são necessários para determinar a melhor estratégia de manejo para os casos de torção testicular perinatal.
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Recebido em: 17/01/2025
Aceito em: 03/02/2025