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ISSN (On-line) 2236-6814

doi.org/10.25060/residpediatr

Relato de Caso

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Ectrodactilia: Uma rara malformação de membros

Ectrodactyly: A rare malformation of the limbs

Mariana Grossi1; Luciane Mattos Pereira2; Augusto Emilio Hinterholz1; Mariana Machado do Nascimento2; Daniela Miranda2; Fátima Cleonice de Souza3

RESUMO

OBJETIVO: Relatar um caso de paciente com ectrodactilia diagnosticado logo ao nascimento, apesar da possibilidade de verificação da anomalia por ecografia obstétrica.
MÉTODOS: Relato de caso baseado no exame físico do recém-nascido em sala de parto aliado a dados oriundos do prontuário médico do mesmo. Consulta nas bases de dados PubMed e SciELO orientaram a discussão e descrição dessa rara malformação congênita.
RESULTADOS: O paciente foi diagnosticado com ectrodactilia no primeiro exame físico, não sendo observadas outras malformações externas. Devido ao inadequado acompanhamento pré-natal, o diagnóstico nesse período não foi possível.
CONCLUSÕES: A ecografia permite a busca de anomalias congênitas e permite o preparo psicológico dos pais, para maior aceitação da condição física da criança e envolvimento precoce de equipe multiprofissional nos cuidados desta. O tratamento da ectrodactilia deve ser individualizado.

Palavras-chave: articulações dos dedos, deformidades congênitas da mão, ossos da mão.

INTRODUÇÃO

A ectrodactilia é uma anomalia congênita do desenvolvimento embriológico fetal, de herança autossômica dominante com penetrância variável, que acomete cerca de 1 paciente a cada 90 mil a 150 mil nascidos vivos1,2.

Em sua base anatômica está a ausência congênita dos raios centrais, formados pelo segundo, terceiro e quarto raios, gerando uma grande fenda mediana na mão, associada à aplasia/hipoplasia de metacarpos e/ou falanges2. A presença do primeiro raio, bem como do quinto, decorre basicamente da embriogênese se dar em períodos distintos, preservando-as2. Além das alterações das mãos, os pés também podem ser acometidos, compondo conjuntamente a síndrome da ectrodactilia3.

É classificada em dois subtipos básicos: forma típica (1/90.000 nascidos vivos) e atípica (1/150.000 nascidos vivos). Na forma típica, a ausência dos ossos do metacarpo e falanges resulta em um defeito em forma de V, dividindo a mão em porção cubital e porção radial. Na forma atípica, defeitos nos ossos do metacarpo dos quirodáctilos mediais geram uma ampla fenda, agora em formato de U4.

O relato de caso foi baseado em atendimento em sala de parto, sendo este descrito no prontuário do paciente. Realizou-se pesquisa em bases de dados, como PubMed e SciELO, obtendo-se melhor descrição para relatar essa rara malformação de membros.


RELATO DE CASO

R.N.S., sexo feminino, com 39 semanas e 3 dias de idade gestacional, nascida de parto cesárea, com Apgar 8/9, pesando 3795 gramas, medindo 51 cm, AIG. Mãe com história de um aborto prévio, pré-natal com três consultas, sorologias realizadas apenas no primeiro trimestre, todas negativas. História materna de tabagismo e uso de bebidas alcoólicas durante a gestação. História paterna de uso de drogas.

Sem intercorrências ao nascimento, apresentando-se ativa, movimentos respiratórios regulares, frequência cardíaca maior que 100 batimentos por minuto. Durante exame físico, logo após o nascimento, notou-se malformação em mãos, com ausência de segundo, terceiro e quarto quirodáctilos da mão esquerda e ausência do quarto quirodáctilo da mão direita, mobilidade preservada e preensão palmar adequada em ambas. Sem alterações em membros inferiores e demais aspectos do exame físico normais até o momento (Figuras 1 e 2).

Figura 1. Mão esquerda. Ausência de segundo, terceiro e quarto quirodáctilos.

Figura 2. Mão direita. Ausência do quarto quirodáctilo.



Após avaliação inicial e revisão da literatura, considerase como diagnóstico ectrodactilia, confirmada pelo médico cirurgião de mão com o qual o paciente deverá seguir acompanhamento para definir conduta futura.


DISCUSSÃO

A ectrodactilia pode apresentar-se isoladamente (forma não sindrômica), ou associar-se a outras malformações (forma sindrômica) como fenda palatina, displasia ectodérmica, envolvimento de pododáctilos, anomalias craniofaciais, aplasia tibial e associação com surdez neurossensorial, além de outras 40 associações já descritas em literatura3,5. A síndrome mais descrita é a caracterizada por ectrodactilia, displasia ectodérmica e fenda palatina/labial (síndrome EEC)5.

Além dos formatos da fenda (em V ou em U), outras alterações descritas na literatura buscam distinguir as formas típicas e atípicas4,5. De modo geral, sindactilia, lábio leporino associado, acometimento de pés, herança familiar, brotos digitais ausentes e bilateralidade são mais característicos do subtipo típico.

No caso relatado, o paciente obteve o diagnóstico no primeiro exame físico, não sendo observadas outras malformações externas (compondo, em princípio, a forma não sindrômica). Além disso, o paciente apresentou-se com características tanto da forma típica quanto atípica, pela bilateralidade da malformação, na ausência de história familiar para ectrodactilia ou outras malformações de membros, com lábio e palato íntegros e sem sindactilia.

Devido ao inadequado acompanhamento pré-natal, o diagnóstico nesse período não foi possível. Contudo, a ultrassonografia obstétrica é um importante arsenal para o diagnóstico da malformação ainda no primeiro trimestre de gestação2,5. Além de método diagnóstico, a ecografia permite a busca de anomalias congênitas associadas e, com o diagnóstico precoce da ectrodactilia, possibilita o preparo psicológico dos pais, para maior aceitação da condição física da criança e envolvimento precoce de equipe multiprofissional nos cuidados desta2,5.

Baseado na ampla gama de malformações associadas, o tratamento da ectrodactilia deve ser individualizado6. Com relação às alterações da mão, a base do manejo cirúrgico é a busca pela capacidade de preensão a partir da reconstrução da primeira comissura, além do fechamento da fenda gerada pelas alterações falangeanas e metacarpais4. O uso de próteses também pode ser indicado6,7. Além do bem-estar psicossocial, a cirurgia busca a maior funcionalidade possível do membro, frequentemente com boa adaptação dos pacientes aos defeitos residuais4,6. O manejo conservador é reservado para crianças com casos graves e déficits do desenvolvimento neuropsicomotor importantes4.

Devido à herança autossômica, o aconselhamento genético deve ser o pilar de prevenção da malformação, associado ao diagnóstico precoce ultrassonográfico pré-natal5.


REFERÊNCIAS

1. Gane BD, Natarajan P. Split-hand/feet malformation: A rare syndrome. J Family Med Prim Care. 2016;5(1):168-9. DOI: http://dx.doi.org/10.4103/2249-4863.184656

2. Pinette M, Garcia L, Wax JR, Cartin A, Blackstone J. Familial Ectrodactyly. J Ultrasound Med. 2006;25(11):1465-7. DOI: http://dx.doi.org/10.7863/jum.2006.25.11.1465

3. Jindal G, Parmar VR, Gupta VK. Ectrodactyly/split hand feet malformation. Indian J Hum Genet. 2009;15(3):140-2. DOI: http://dx.doi.org/10.4103/0971-6866.60191

4. França Bisneto EN. Deformidades congênitas dos membros superiores: parte I: falhas de formação. Rev Bras Ortop. 2012;47(5):545-52. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0102-36162012000500002

5. Arbués J, Galindo A, Puente JM, Vega MG, Hernández M, de la Fuente P. Typical isolated ectrodactyly of hands and feet: early antenatal diagnosis. J Matern Fetal Neonatal Med. 2005;17(4):299-301. DOI: http://dx.doi.org/10.1080/14767050500072839

6. Kalathia MB, Seta AA, Parmar PN. A case of ectrodactyly in a neonate. J Clin Neonatol. 2013;2(3):151-2. DOI: http://dx.doi.org/10.4103/2249-4847.120013

7. Barsky AJ. Cleft hand: Classification, incidence, and treatment. Review of the literature and report of nineteen cases. J Bone Joint Surg Am. 1964;46:1707-20.










1. Estudante - Interna do curso de Medicina, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil
2. Médica - Residente de Pediatria, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil
3. Pediatra com área de atuação em medicina intensiva pediátrica - Preceptora dos serviços de residência médica e internato médico, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil

Endereço para correspondência:
Luciane Mattos Pereira
Universidade de Santa Cruz do Sul - Hospital Santa Cruz
Avenida Independência, nº 2293, Bairro Universitário
Santa Cruz do Sul - RS. Brasil. CEP: 96815-900

Sobre os autores

1 Estudante - Interna do curso de Medicina, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

2 Médica - Residente de Pediatria, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

3 Pediatra com área de atuação em medicina intensiva pediátrica - Preceptora dos serviços de residência médica e internato médico, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

Endereço para correspondência:

Luciane Mattos Pereira

Universidade de Santa Cruz do Sul - Hospital Santa Cruz Avenida Independência, nº 2293, Bairro Universitário Santa Cruz do Sul - RS. Brasil. CEP: 96815-900

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Como citar este artigo:

Grossi, M, Pereira, LM, Hinterholz, AE, Nascimento, MM, Miranda, D, Souza, FC. Ectrodactilia: Uma rara malformação de membros. Resid Pediatr. 7(1):33-35. DOI: https://doi.org/10.25060/residpediatr-2017.v7n1-07

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