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ISSN (On-line) 2236-6814

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Relato de Caso

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Kerion celsi: Um relato de caso

Kerion Celsi: A case report

Gabriela Miranda Mendes1; Brunnella Alcantara Chagas de Freitas2; João Ricardo Leão Oliveira3; Matheus Fonseca Cardoso3; Eduardo Costa Pacheco3; Hugo Henrique Morais da Vitória3

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2019.v9n1-10 Residência Pediátrica, 9(1), 66-69

RESUMO

OBJETIVOS: Relatar o caso de um paciente com infecção fúngica superficial da haste capilar e folículos do couro cabeludo, denominada Kerion celsi.
MÉTODOS: Paciente do sexo masculino, 7 anos de idade, com lesões eritematodescamativas, alopecia e linfadenomegalia cervical, acompanhado durante internação por 7 dias e por mais 60 dias em retornos periódicos. Foi estabelecido o diagnóstico de Kerion celsi e realizado tratamento com griseofulvina (500 mg/dia) por 60 dias e cetoconazol xampu.
RESULTADOS: Houve resolução completa das lesões após o tratamento com griseofulvina (500 mg/dia) por 60 dias e cetoconazol xampu, porém com permanência da alopecia.
CONCLUSÕES: A Tinea capitis é uma infecção fúngica do couro cabeludo que, na maioria das vezes, apresenta-se com áreas pruriginosas de descamação e perda de cabelo. O Kerion celsi é uma manifestação grave da Tinea capitis resultante de uma intensa resposta imune à infecção causada pelo fungo Microsporum canis. Neste relato de caso, ressalta-se a importância do diagnóstico precoce e do tratamento para que se possa evitar o aumento da transmissão e das sequelas deixadas por essa infecção fúngica.

Palavras-chave: Infecção, Fungos, Griseofulvina, Cetoconazol.

INTRODUÇÃO

As lesões de couro cabeludo possuem um amplo diagnóstico diferencial, como dermatite seborreica, alopecia areata, tricolomania, psoríase, foliculite decalvante ou pioderma2 e lesões fúngicas. Dentre as infecções fúngicas, a Tinea capitis é uma infecção que, na maioria das vezes, apresenta-se com áreas pruriginosas de descamação e perda de cabelo. As principais etiologias são as espécies de Trichophyton, Microsporum e, raramente, Epidermophyton3,6. A Tinea capitis, causada por fungos do gênero Microsporum, é a dermatofitose mais comum da infância, particularmente entre os 6 e 10 anos, podendo ser muitas vezes contraída de outro humano ou animal por meio do contato direto3,6.

Os achados clínicos mais comuns são áreas escamosas únicas ou múltiplas com alopecia e pontos pretos nos orifícios foliculares que representam pelos quebrados. A doença pode ter várias apresentações clínicas, desde uma descamação não inflamatória até uma severa erupção pustular com alopecia, designada de Kerion celsi2,6. Kerion é uma manifestação grave da Tinea capitis resultante de uma intensa resposta imune à infecção5. É caracterizada pelo desenvolvimento de uma placa inflamatória com pústulas e crosta espessa e, se persistente, pode levar a alopecia cicatricial5,6.

Os autores pretendem alertar para uma situação que requer alta suspeição diagnóstica e tratamento ágil para minimizar os efeitos permanentes.


DESCRIÇÃO DO CASO

Paciente do sexo masculino, 7 anos de idade, procurou serviço de pediatria com lesão eritematodescamativa, presença de alopecia e nódulos supurativos em região occipital direita, com evolução de aproximadamente 3 semanas. Negava febre, presença de imunodepressão ou trauma recente. Relatava contato permanente com animais domésticos (gato e cachorro). Havia sido tratado previamente com cefalexina (500 mg de 6/6 horas) durante 7 dias, pensando-se em abscesso bacteriano. Ao exame físico apresentava lesão em placa na região occipital direita, eritemato-descamativa, dolorosa, com intensa supuração e queda de cabelo localizada, medindo aproximadamente 4 cm de diâmetro (Figura 1). Apresentava também linfonodomegalia palpável em cadeias cervicais anteriores e posteriores e cadeia occipital direita, todos móveis, de consistência fibroelástica, indolor, não supurativo e não aderido a planos profundos.

Figura 1. Lesão em placa na região occipital D.



Após o diagnóstico clínico, pelo exame da lesão, foi iniciado tratamento com ceftriaxona e clindamicina, por suspeição de uma infecção bacteriana secundária. Foram solicitados exames laboratoriais, como hemograma e PCR, para confirmar a hipótese diagnóstica, além de obtenção de amostras para cultura através de raspado da lesão. Os exames laboratoriais não mostraram alterações significativas. Após 4 dias de evolução foram observadas lesões vesico-papulares (Figura 2), com halo eritematoso, e pruriginosas em região cervical posterior, abdominal e em MMSS. Não foi iniciado nenhum tratamento específico para essas lesões, por se tratar de miliária, que o paciente apresentava além da lesão de couro cabeludo. A miliária foi resolvida apenas com higiene local.

Figura 2. Lesões vesico-papulares na região cervical posterior.



Na cultura do raspado da lesão occipital, isolou-se o fungo Microsporum canis e estabeleceu-se o diagnóstico de Kerion celsi. O paciente foi tratado com griseofulvina oral (500 mg/dia) por 60 dias, e o uso diário de cetoconazol xampu. O tratamento com antibiótico foi realizado por 7 dias para tratamento de possível infecção bacteriana secundária Figuras 3 e 4.

Figura 3. Lesão após 3 dias tto.

Figura 4. Lesão após 8 dias tto.



Após 30 dias, a lesão estava quase completamente resolvida (Figura 5), pois ainda permanecia hiperemiada devido ao processo inflamatório, apresentava pouco crescimento de cabelo e desaparecimento da linfadenomegalia. Houve resolução completa da lesão após 60 dias de tratamento, com permanência de alopecia na região.

Figura 5. Lesão após 30 dias tto.
DISCUSSÃO

A Tinea capitis é uma infecção do couro cabeludo, folículos capilares e pele intermediária, causada principalmente por espécies antropofílicas e zoofílicas dos gêneros Trichophyton e Microsporum1. É uma infecção fúngica com um impacto social marcado, causando grande preocupação e levando à restrição de atividades sociais e da frequência escolar pela criança infectada2. Trata-se de uma infecção superficial que atinge principalmente a haste capilar e os folículos. Ao nível mundial, o principal agente causador é o Microsporum canis. A população mais afetada são crianças em faixa etária escolar, sendo rara em adultos. A transmissão ocorre através do contato com animais infectados, solo e de pessoa para pessoa.

O diagnóstico de Tinea capitis é feito pela observação, por meio de microscopia óptica, de elementos do fungo em amostra de cabelo ou pele infectada. A colheita das amostras de pele deve ser feita nas zonas de alopecia por raspagem. Os cabelos devem ser igualmente raspados do couro cabeludo e não arrancados4. Para estabelecer o agente específico, deve ser realizada a cultura, o exame mais sensível e confiável para a identificação do agente causal da Tinea capitis2.

O tratamento de escolha para o Kerion celsi é griseofulvina por via oral, na dose de 10 a 20 mg/kg/dia, durante 6 a 8 semanas1,2,5, podendo ser utilizados também o itraconazol e a terbinafina2.

A abordagem desse tema teve como objetivo alertar quanto ao diagnóstico e tratamento, visto que esta é uma doença de fácil transmissão, mas que a demora em instituir o tratamento correto pode culminar em um aumento no número de portadores assintomáticos da doença. Deve-se ressaltar que é importante fazer o diagnóstico diferencial entre o Kerion celsi e infecções bacterianas do couro cabeludo, uma vez que possuem tratamentos diferentes. O atraso no tratamento resulta em graves problemas sociais decorrentes da marca permanente, a alopecia regional, que pode acarretar problemas de autoestima nas crianças.


REFERÊNCIAS

1. Kakourou T, Uksal U. Guidelines for the management of tinea capitis in children. Pediatric Dermatology. 2010; v. 27, n. 3.

2. Peixoto AB, Novis CFL, Vilela GM, Lerer C. Kerion: a importância da sua diferenciação com infecção bacteriana do couro cabeludo. Relato de caso. São Paulo: Rev Bras Clin Med. 2012; 10(3):243-245.

3. Anahory B, Santos P, Borges M. Querion do couro cabeludo - A propósito de um caso clínico. Lisboa: Rev Port Med Geral e Familiar. 2013 nov; v. 29 n. 6.

4. Hernández T, Machado S, Carvalho S, et al. Tinhas do couro cabeludo na idade pediátrica. Nascer e Crescer, Revista do Hospital de Crianças Maria Pia. 2004; 13(1):23-26.

5. Monteiro, Martins, Monteiro, Paiva & Fagundes. Kerion celsi por Microsporum gypseum. Rio de Janeiro: Anais Bras Dermatol. 2003 Mai/Jun; v. 78 n. 3.

6. Silva SF, Teixeira C, Machado S, Marques L. Kérion celsi: uma complicação rara da Tinea capitis. Nascer e crescer. Birth and Growth Med J. 2017; v. XXVI, n. 2.










1. Residente de Pediatria, Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa, UFV
2. Pediatra. Professora-Adjunta I e Preceptora do Curso de Medicina e da Residência de Pediatria, Departamento de Medicina e Enfermagem, UFV
3. Acadêmico de Medicina, Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa, UFV

Endereço para correspondência:
Brunnella Alcantara Chagas de Freitas
Universidade Federal de Viçosa
Av. Peter Henry Rolfs, s/n - Campus Universitário
Viçosa - MG, Brasil. CEP: 36570-900
E-mail: brunnella.freitas@ufv.br

Data de Submissão: 29/06/2017
Data de Aprovação: 28/12/2017

Recebido em: 29/06/2017

Aceito em: 28/12/2017

Sobre os autores

1 Residente de Pediatria, Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa, UFV.

2 Pediatra. Professora-Adjunta I e Preceptora do Curso de Medicina e da Residência de Pediatria, Departamento de Medicina e Enfermagem, UFV.

3 Acadêmico de Medicina, Departamento de Medicina e Enfermagem, Universidade Federal de Viçosa, UFV.

Endereço para correspondência:

Gabriela Miranda Mendes

E-mail: brunnella.freitas@ufv.br

Brunnella Alcantara Chagas de Freitas

Universidade Federal de Viçosa Av. Peter Henry Rolfs, s/n - Campus Universitário Viçosa - MG, Brasil. CEP: 36570-900

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Como citar este artigo:

Mendes, GM, Freitas, BAC, Oliveira, JRL, Cardoso, MF, Pacheco, EC, Vitória, HHM. <em>Kerion celsi</em>: Um relato de caso. Resid Pediatr. 9(1):66-69. DOI: 10.25060/residpediatr-2019.v9n1-10

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