INTRODUÇÃO
A atresia de coana é uma malformação congênita e corresponde à falha no desenvolvimento da comunicação entre cavidade nasal posterior e nasofaringe. A apresentação unilateral é a mais frequente. O lactente apresenta desconforto respiratório e obstrução nasal persistente, sendo motivo de internações recorrentes, quando não diagnosticado precocemente. Clinicamente, pode ser diagnosticada pela falha na progressão da sonda nasal, ou pelo surgimento precoce dos sintomas supracitados.
APRESENTAÇÃO DO CASO
A.S.B.B., sexo feminino, 4 meses, natural do Crato-CE. Genitora procurou o serviço de Pediatria com queixa de dispneia, obstrução nasal e secreção nasal hialina, sem outros sintomas correlacionados. Relata presença de dispneia e obstrução nasal desde o nascimento. Ao exame físico, ausculta respiratória com murmúrio vesicular diminuído em hemitórax esquerdo, roncos e sibilos em ambos hemitórax, com tiragem intercostal. Frequência respiratória de 68 irpm. A radiografia de tórax da admissão apresentava infiltrado pneumônico para-hilar à esquerda. Foram prescritos: ampicilina, hidrocortisona, nebulização com SF 0,9% e bromidrato de fenoterol. Apesar do tratamento, persistiam episódios de dispneia e obstrução nasal à esquerda. Diante do quadro, foi considerada a hipótese de atresia coanal, sendo solicitada radiografia de coanas, que evidenciou parada de progressão do contraste ao nível de coana esquerda por obstrução da mesma (Figura 1). Para confirmar a hipótese, solicitou-se tomografia computadorizada (TC) dos seios da face, que mostrou obstrução da coana esquerda por tecido fibroso (Figura 2). A paciente foi encaminhada ao serviço de Otorrinolaringologia para correção cirúrgica da atresia coanal. Realizou-se tratamento cirúrgico endoscópico transnasal, sob anestesia geral, com colocação de cateter nasal à esquerda, evoluindo sem intercorrências. Obteve alta hospitalar e segue com bom estado geral, ganho ponderal satisfatório e sem queixas respiratórias. O exame endoscópico de controle mostrou permeabilidade da coana esquerda e funcionalidade satisfatória. A lactente vem sendo acompanhada em ambulatório de Pediatria e Otorrinolaringologia, apresentando-se assintomática.

Figura 1. Tomografia computadorizada, plano sagital. Atresia de coana unilateral. Obstrução de coana esquerda por tecido fibroso.

Figura 2. Tomografia computadorizada dos seios da face, plano axial. Atresia de coana unilateral. Observa-se: presença de obstrução da coana esquerda por tecido fibroso e atrofia do corneto nasal correspondente.
DISCUSSÃO
A atresia coanal congênita corresponde à falha no desenvolvimento da comunicação entre a cavidade nasal e a nasofaringe. Apresenta incidência de aproximadamente 1: 8000 nascidos, com predomínio no sexo feminino na proporção de 2:11,2. Percebe-se predomínio de casos com atresia unilateral, sendo esses mais prevalentes à direita3,4. A atresia pode ocorrer pela formação de um septo ósseo e/ou membranoso entre o nariz e a nasofaringe. Segundo classificação tomográfica, possui composição óssea em 30% dos casos e mista (ósseo-membranosa) em 70%5. A atresia de coana é suspeitada baseada na apresentação clínica do quadro. A atresia bilateral, geralmente, apresenta manifestações clínicas ao nascimento com a presença de cianose cíclica, desconforto respiratório ou obstrução respiratória grave6. A gravidade clínica da afecção pode levar o recém-nascido a óbito, se uma via aérea artificial não for estabelecida prontamente7. Nos casos unilaterais, a dificuldade respiratória é menos acentuada e, geralmente, é diagnosticada tardiamente, quando a criança apresenta uma obstrução nasal persistente, associada à rinorreia mucopurulenta, evoluindo para quadros infecciosos6,8. O diagnóstico pode ser confirmado pela dificuldade na progressão de sondas pela narina e ausência de fluxo aéreo pela fossa nasal. Como exames complementares, podem ser realizados: radiografia de coanas associada ao uso de contraste radiopaco instilado em fossas nasais, nasofibroscopia e TC de seios paranasais.
A TC tornou-se o método de escolha na investigação e confirmação da atresia de coana, demonstrando a composição e espessura da placa e, principalmente, diferenciando a atresia de outras causas de obstrução nasal em crianças como encefaloceles, gliomas e cistos dermoides9. Os critérios tomográficos incluem: estreitamento de abertura nasal posterior, presença de osso pterigoide anormalmente alargado e espessado na região da coana e espessamento da região posterior do osso vômer com ou sem componente membranoso central. O tratamento para atresia de coanas congênita é cirúrgico. Várias técnicas foram descritas para correção de atresia coanal, divididas em quatro grupos: acesso transpalatino, transeptal, transantral e transnasal10.
CONCLUSÕES
O diagnóstico e tratamento eficientes da atresia coanal congênita são essenciais para sobrevida do paciente. A TC é o método de eleição para diagnóstico e seguimento. A cirurgia é realizada, geralmente, após algumas horas de vida na atresia bilateral, e, eletivamente, após algumas semanas na atresia unilateral.
REFERÊNCIAS
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6. Schoem SR. Transnasal endoscopic repair of choanal atresia: why stent? Otolaryngol Head Neck Surg. 2004;131(4):362-6. PMID: 15467600 DOI: http://dx.doi.org/10.1016/j.otohns.2004.03.036
7. Samadi DS, Shah UK, Handler SD. Choanal atresia: a twenty-year review of medical comorbidities and surgical outcomes. Laryngoscope. 2003;113(2):254-8. PMID: 12567078 DOI: http://dx.doi.org/10.1097/00005537-200302000-00011
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10. Stamm AC, Mekhitarian L. Atresia coanal. In: Stamm A. Microcirurgia nasossinusal. Rio de Janeiro: Revinter; 1995. p.279-87.
1. Médica Residente pela Universidade Federal do Ceará
2. Graduanda do Curso de Medicina. Universidade Federal Do Ceará. Acadêmica de Medicina
3. Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) - Professora Assistente da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará
4. Médico com Residência pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro - Chefe do Departamento de Imaginologia do Hospital e Maternidade São Francisco de Assis
Hospital e Maternidade São Francisco de Assis, Rua Coronel Antônio Luiz, 1028, Pimenta, Crato, Ceará, Brasil, vinculado ao Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina do Cariri da Universidade Federal do Ceará (UFC), Rua Divino Salvador, 284,Rosário, Barbalha, Ceará, Brasil.
Endereço para correspondência:
Glória Valéria de Sousa Bandeira de Melo
Rua Mauriti, nº 501, Condomínio Omega Ville, Casa G6. Mata dos Dudas
Barbalha - CE. CEP: 63180-000