A amamentação logo nas primeiras horas de vida do recém-nascido é de suma importância para ele e para a mãe, uma vez que o ato proporciona nutrição, proteção e o desenvolvimento do vínculo afetivo entre ambos2. A partir da instauração da pandemia do coronavírus, surgiram questões sobre a possível transmissão vertical da mãe para o filho através do aleitamento. Apesar da urgência por respostas, até o momento existe uma quantidade escassa de estudos e comprovações científicas acerca deste tipo de transmissão. E, além disso, há um ritmo constante de informações novas e conflitantes que tornam a obtenção de respostas um grande desafio3.
Um estudo de revisão integrativa realizado em 46 mães infectadas relatou a presença de SARS-CoV-2 em 3 amostras de leite de duas pacientes. Entretanto, o mesmo estudo demonstrou incerteza a esse fato, alegando que a aquisição da doença pelo bebê possivelmente ocorreu pela transmissão respiratória devido à proximidade da mãe e, assim, considerou improvável a transmissão vertical através do leite2. Deste modo, para o alívio das mães e dos profissionais de saúde, até o momento não foram detectadas amostras de SARS-CoV-2 no leite de mães infectadas, somente anticorpos específicos contra esse vírus1, descartando a possibilidade da transmissão vertical da mãe para o bebê através do leite. Nesse viés, é imprescindível que a equipe de saúde sane todas as dúvidas e encorajem as mães infectadas a amamentar. Vale ressaltar que a transmissão horizontal (transmissão através de gotículas respiratórias da mãe ou cuidadores infectados) requer mais atenção neste momento. Para evitar que esta transmissão e a propagação do vírus ocorram, a mãe infectada deve sempre higienizar as mãos e os seios, usar máscara e realizar todas as precauções possíveis na hora da amamentação2.
Outro ponto a ser considerado é a segurança da farmacoterapia em mulheres infectadas que estão amamentando, bem como seus possíveis efeitos no lactente. Embora ainda não exista comprovação de um tratamento eficaz, algumas drogas estão em uso na tentativa de combater a doença. Por isso, é importante que o prescritor tenha conhecimento acerca das características farmacocinéticas que influenciam na transferência dessas substâncias para o leite, assim como os fatores relacionados a mãe e a criança que devem ser considerados ao se avaliar riscos e benefícios do tratamento4.
Concluiu-se a partir de estudos que a maioria dos medicamentos usados na terapêutica contra o coronavírus são seguros no período de lactação1 ao avaliar as propriedades intrínsecas de cada droga. A única exceção foi o favipiravir, uma vez que não há informações concretas na literatura sobre sua excreção no leite materno. Contudo, esse antiviral possui um baixo peso molecular e 60% de ligação proteica no plasma1, características que estão dentre os fatores que determinam a passagem de fármacos para o leite materno4. Caso o favipiravir seja utilizado, parâmetros como enzimas hepáticas e ácido úrico devem ser monitorados no lactente, uma vez que alterações foram observadas em ensaios clínicos1.
A importância e os benefícios do aleitamento materno são bem evidenciados na literatura, e superam os riscos de contaminação do lactente. Além de que, há um consenso entre as autoridades de saúde em relação a manutenção da amamentação pelas mulheres infectadas por SARS-CoV-21. O princípio do uso de fármacos pelas nutrizes deve ser baseado em evidências científicas, portanto, visto que não há contraindicação em relação aos medicamentos descritos pelos autores, o aleitamento nesses casos pode ser considerado seguro, desde que se adotem os cuidados necessários para evitar a transmissão horizontal do vírus à criança. Ademais, é primordial que os profissionais da saúde continuem em constante atualização sobre o tema, de maneira a orientar as nutrizes sobre a segurança do seu tratamento, garantindo a aderência à terapêutica, bem como a manutenção do aleitamento.
REFERÊNCIAS
1. Chaves RG, Lamounier JA, Santiago LB. Aleitamento materno e terapêutica para a doença coronavírus 2019 (COVID-19). Resid Pediatr. 2020;10(2):1-6.
2. Melo LPC, Dias MES, Santana MS, Diniz PR, Galvão PVM, Santana PMS. Aleitamento materno em tempos de covid-19: uma revisão integrativa. Res Soc Dev [Internet]. 2020; [citado 2020 Set 03]; 9(9):e129997074. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/7074
3. Procianoy RS, Silveira RC, Manzoni P, Sant’Anna G. COVID-19 neonatal: poucas evidências e necessidade de mais informações. J Pediatr (Rio J). 2020 Jun;96(3):269-72.
4. Raminelli M, Hahn SR. Medicamentos na amamentação: quais as evidências?. Ciênc Saúde Coletiva [Internet]. 2019 Fev; [citado 2020 Set 03]; 24(2):573-87. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232019000200573&lng=en DOI: http://dx.doi.org/10.1590/1413-81232018242.30052016
Universidade do Sul de Santa Catarina, Medicina - Tubarão - Santa Catarina - Brasil
Endereço para correspondência:
Maria Eduarda Stedille Pontes
Universidade do Sul de Santa Catarina
Av. José Acácio Moreira, nº 787, Dehon
Tubarão - SC. Brasil. CEP: 88704-900
E-mail: mariaedupontes@hotmail.com
Data de Submissão: 19/09/2020
Data de Aprovação: 26/09/2020
Recebido em: 19/09/2020
Aceito em: 26/09/2020