A pancreatite aguda é uma inflamação do parênquima pancreático com etiologia em litíase biliar, infecções e alterações genéticas, entre outros. Caracteriza-se pela autodigestão do tecido pancreático por meio de enzimas ali produzidas. Essa condição acomete adultos e crianças, nas quais apresenta taxas de 3-13 casos por 100 mil pessoas por ano e maior impacto, comparado ao acometimento de adultos1.
Com o surgimento e disseminação do vírus SARS-CoV-2 no ano de 2019, foram verificados casos de acometimento não exclusivo do sistema respiratório, concomitante ao contágio global em estado de pandemia2. Verificou-se, em alguns casos, o acometimento de outros órgãos e sistemas, do esôfago ao trato gastrointestinal e até mesmo no pâncreas3, principalmente em pacientes pediátricos, gerando um quadro de pancreatite aguda por efeito citopático direto do vírus ou como resultado de isquemia e estados de inflamação sistêmica na síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (MIS-C), piorando o prognóstico de crianças com a doença4.
Mesmo em períodos não epidêmicos, por meio de registros históricos, sabe-se que as infecções respiratórias agudas se situam entre as principais causas de morbidade e mortalidade em populações indígenas, afetando sobretudo o segmento infantil5. Descrevemos um caso de uma paciente de sete anos que apresentou sinais e sintomas de pancreatite, de etiologia não definida, que posteriormente foi diagnosticada com COVID-19, aventando a hipótese de existir correlação entre a infecção prévia pelo SARS-CoV-2 e a pancreatite aguda devido ao processo inflamatório ocasionado pelo vírus ao invadir as células do hospedeiro.
RELATO DE CASO
Relata-se um caso de paciente do sexo feminino, indígena da tribo Paranapuã, de sete anos, encaminhada de hospital municipal para UTI de centro de referência pediátrica em abril de 2021. Sem histórico de internação prévia, apresentava dor abdominal, febre não aferida, vômitos e oligúria associada ao aumento das enzimas pancreáticas lipase (1867UI; normal até 37) e amilase (776UI; normal até 160). Foi diagnosticada com pancreatite aguda de etiologia indefinida, guiada principalmente pelos exames laboratoriais, devido à dificuldade de comunicação na anamnese, pois a paciente não era familiarizada com a língua portuguesa.
Foi iniciado suporte clínico com dieta zero, hidratação venosa, analgesia e investigação etiológica. O ultrassom abdominal descartou litíase biliar. Na tomografia computadorizada a porção cefálica pancreática é proeminente em relação ao corpo e cauda, com borramento dos planos gordurosos peripancreáticos (Figura 1A). Aos exames de imagem, não foi possível determinar etiologia da pancreatite. À tomografia de tórax, verificou-se 25% de comprometimento pulmonar, mínimo espessamento pleural bilateral e densificações parenquimatosas mal definidas na projeção dos segmentos basais posteriores dos lobos pulmonares inferiores (Figura 1B), realizada, então, investigação de infecção por SARS-CoV-2, já que a paciente foi exposta a membros da aldeia com a COVID-19 em dias anteriores. A paciente não apresentou sintomas respiratórios.
Figura 1. A. Ultrassonografia de pâncreas (esquerda) com porção cefálica do pâncreas proeminente em relação ao corpo e cauda; B. Tomografia pulmonar (direita) com padrão em vidro fosco de densificações em região basilar dos lobos pulmonares inferiores.Foi realizado RT-PCR para COVID-19, com resultado negativo, porém, a sorologia foi reagente para IgG anti-SARS-CoV-2, sugerindo infecção prévia pelo vírus.
COMENTÁRIOS
De acordo com os achados clínicos e laboratoriais descritos do relato, a paciente apresentou quadro de pancreatite, pois insere-se nos critérios de diagnóstico (dor abdominal, alterações de enzimas pancreáticas amilase e lipase e alterações de imagem) descritos pelo Comitê de Pâncreas da Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia Pediátrica, Hepatologia e Nutrição6.
O quadro da paciente pode ser comparado ao primeiro relato de caso relacionando pancreatite aguda pediátrica e COVID-194, o qual insere etiologia na MIS-C definida pelo Centro de Controle de Doenças e prevenção dos Estados Unidos7 e Organização Mundial da Saúde como febre prolongada, acometimento de diversos sistemas, elevação de parâmetros inflamatórios (PCR, DHL, D-dímero, ferritina e VHS), hipoalbuminemia e linfocitopenia. A paciente não se caracterizou em MIS-C, indicando a possível origem da inflamação pancreática pelo efeito citopático do vírus.
O acometimento de órgãos como o pâncreas pelo SARS-CoV-2 deve-se à grande quantidade de receptores de enzima conversora de angiotensina 2 (ECA-2) nesses ambientes, os quais se ligam ao vírus e favorecem sua replicação3. A evolução clínica da COVID-19 apresenta-se dependente da resposta imune do hospedeiro que, em sua maioria, faz-se de forma humoral e celular, ativando macrófagos, neutrófilos e linfócitos T citotóxicos. As células infectadas são induzidas à apoptose, proporcionando uma ampla resposta inflamatória por meio do sistema complemento e das citocinas2.
O tropismo para células pancreáticas e o ambiente inflamatório instaurado pelo vírus, pela presença desses receptores faz com que o órgão seja lesado, sua condição inflamatória seja ativada e as enzimas do suco pancreáticos atuem no próprio parênquima, gerando dano intersticial ou necrotizante, podendo correlacionar a lesão pancreática e sintomatologia com a infecção viral prévia4.
Não há possibilidade de comprovação da correlação inflamatória viral e acometimento pancreático, entretanto esse relato traz um alerta para investigação de outros casos com descrição clínica similar.
REFERÊNCIAS
1. Uc A. Husain SZ. Pancreatitis in children. Gastroenterology. 2019 Mai;156(7):1969-78.
2. Guan WJ, Ni ZY, Hu Y, Liang WH, Ou CQ, He JX, et al. Clinical characteristics of coronavirus disease 2019 in China. N Engl J Med. 2020 Abr;382:1708-20.
3. Suchman K, Raphael KL, Liu Y, Wee D, Trindade AJ; Northwell COVID-19 Research Consortium. Acute pancreatitis in children hospitalized with COVID-19. Pancreatology. 2021 Jan;21(1):31-3.
4. Stevens JP, Brownell JN, Freeman AJ, Bashaw H. COVID-19-associated multisystem inflammatory syndrome in children presenting as acute pancreatitis. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020 Nov;71(5):669-71.
5. Santos RV, Pontes AL, Coimbra Junior CEA. Um “fato social total”: COVID-19 e povos indígenas no Brasil. Cad Saúde Pública. 2020 Out;36(10):e00268220.
6. Abu-El-Haija M, Kumar S, Quiros JA, Balakrishnan K, Barth B, Bitton S, et al. Management of acute pancreatitis in the pediatric population: a clinical report from the North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Pancreas Committee. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2018 Jan;66(1):159-76.
7. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Health Alert Network (HAN): multisystem inflammatory syndrome in children (MIS-C) associated with coronavirus disease 2019 (COVID-19) [Internet]. Atlanta: CDC; 2017; [acesso em 2021 Mai 05]. Disponível em: https://www.cdc.gov/mis-c/
1. Universidade Metropolitana de Santos, Graduação de Medicina - Santos - São Paulo (SP) - Brasil
2. Hospital Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Santos, Pediatria - Santos - São Paulo (SP) - Brasil
3. Hospital Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Santos, Cirurgia de Cabeça e Pescoço - Santos - São Paulo (SP) - Brasil
Endereço para correspondência:
Kamilla Mayr Martins Sá
Universidade Metropolitana de Santos
Av. Gal. Francisco Glycerio, nº 8, Encruzilhada
Santos - SP. Brasil. CEP: 11045-002
E-mail: kamillamm@hotmail.com.br
Data de Submissão: 26/07/2021
Data de Aprovação: 30/08/2021
Recebido em: 26/07/2021
Aceito em: 30/08/2021